Alta de Combustíveis no DF: Guerra, Cartel ou Especulação?

No dia 31 de março de 2026, os motoristas do Distrito Federal acordaram com mais uma notícia desconfortável no bolso: o preço da gasolina subiu R$ 0,05 e o do diesel, R$ 0,15. Era o primeiro reajuste depois de uma semana sem alterações, mas veio acompanhado de uma pergunta que ninguém ainda consegue responder com clareza: por quê?

Segundo Paulo Tavares, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis e de Lubrificantes do DF (Sindicombustíveis-DF), o reajuste não veio acompanhado de justificativa por parte das distribuidoras. O sindicato cobra, há meses, que essas empresas abram suas planilhas de custos para que o setor e os consumidores entendam o que, de fato, está por trás de cada aumento.

A resposta mais fácil e a mais usada tem sido culpar a guerra no Oriente Médio. E não é que o argumento seja falso: o conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã impactou profundamente o mercado global de petróleo. Mas, como veremos ao longo desta matéria, a equação é muito mais complexa do que isso. Envolve importação de derivados, capacidade de refino, tributação, distribuição, especulação e, dependendo do caso, até formação de cartel.

Para entender tudo o que está acontecendo com o preço na bomba, é preciso começar do começo.

Como o preço do combustível é formado no Brasil

Quando você abastece o carro, está pagando por um produto que passou por uma cadeia longa antes de chegar até a sua bomba. Essa cadeia começa no petróleo bruto, passa pela refinaria, chega até as distribuidoras e então vai para os postos revendedores. Em cada um desses elos, há um custo diferente sendo embutido no preço final.

A Petrobras é a peça central desse sistema. Como estatal responsável pela maior parte da produção e refino de petróleo no país, ela define o preço de venda da gasolina e do diesel para as distribuidoras, o que influencia diretamente o valor na bomba. Mas esse preço não é definido de forma arbitrária. Desde 2016, a Petrobras adotou o Preço de Paridade de Importação (PPI), que alinha os preços internos aos do mercado internacional, refletindo o custo de importar o produto, incluindo o preço do petróleo bruto, frete internacional e margens.

Em 2023, o governo Lula promoveu uma mudança nessa lógica. A empresa passou a considerar mais fatores internos, como custos de produção nacional e estabilidade econômica, para evitar repasses abruptos ao consumidor. Isso significa que a Petrobras não segue automaticamente cada variação do mercado externo, mas ainda está sujeita às pressões de quem importa combustível de fora.

Sobre a composição do preço final, é útil separar cada componente. Há a parcela da Petrobras (custo de produção e refino), a margem das distribuidoras (transporte, armazenagem e lucro), a margem do posto revendedor e os impostos. No caso da gasolina, os tributos incluem CIDE, PIS/PASEP, COFINS e ICMS estadual. A tributação federal é composta por esses tributos, aos quais se soma o ICMS, que é incorporado ao valor cobrado nas refinarias.

No Distrito Federal, esse peso tributário ficou ainda maior no início de 2026. A partir de 1º de janeiro, o ICMS sobre a gasolina no DF passou de R$ 1,47 para R$ 1,57 por litro. A atualização anual das alíquotas, determinada pelo Confaz, segue uma metodologia técnica que considera os preços médios praticados nos postos nos meses anteriores. O ajuste de 2026 considerou os preços médios mensais dos combustíveis divulgados pela ANP de fevereiro a agosto de 2025, em comparação ao mesmo período de 2024.

Além de tudo isso, há um fenômeno que os economistas chamam de assimetria de repasse: o preço sobe rápido quando o petróleo valoriza, mas demora muito para cair quando o mercado se acalma. Isso acontece porque as distribuidoras e os postos tendem a manter as margens maiores conquistadas durante os picos de preço, enquanto a queda na refinaria não se traduz imediatamente na bomba. O ministro da Casa Civil, Rui Costa, chegou a declarar publicamente que, quando a Petrobras reduz o preço, essa redução demora muito para chegar na bomba.

Os preços em Brasília: o que dizem os dados

Os números levantados pela Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram a dimensão do problema no DF. O preço médio da gasolina comum em Brasília chegou a R$ 6,99 por litro, com mínima de R$ 6,74 e máxima de R$ 7,45, enquanto o diesel S10 chegou à média de R$ 7,47, com máxima de R$ 8,60.

Para efeito de comparação, em janeiro de 2026, o preço médio do litro da gasolina comum em Brasília estava em R$ 6,30, enquanto o óleo diesel era comercializado em média a R$ 5,96. Em menos de três meses, o diesel acumulou uma alta expressiva, impulsionada tanto pela crise internacional quanto pela cadeia de reajustes aplicados pelas distribuidoras.

Olhando para o cenário nacional, a tabela ANP registrou médias nacionais para gasolina comum em R$ 6,29 por litro na Síntese Semanal de Preços de 2026, com variações que vão de R$ 5,74 em São Luís a R$ 6,52 em Goiânia. Isso mostra que o DF está consistentemente acima da média nacional, reflexo das margens de distribuição e do ICMS praticados no Centro-Oeste.

O paradoxo brasileiro: produzimos muito, mas importamos demais

Aqui mora uma das grandes contradições do setor de energia no Brasil, e ela é fundamental para entender por que os preços internos são tão sensíveis às oscilações lá de fora.

Em 2024, pela primeira vez na história, o Brasil exportou mais petróleo do que consumiu. O petróleo se tornou o produto que o Brasil mais exportou no ano, superando até a soja, com vendas de óleo bruto alcançando US$ 44,8 bilhões. Ao mesmo tempo, o país importa cerca de 10% da gasolina e até 25% do diesel que consome. Como isso é possível? A resposta está na capacidade de refino.

O Brasil exporta mais de 52% do petróleo que produz sem refiná-lo. Esse óleo acaba sendo processado em outros países e parte dele retorna ao Brasil na forma de derivados mais caros. A capacidade instalada das refinarias brasileiras, de cerca de 2,4 milhões de barris por dia, é insuficiente diante de uma produção que já passa de 3,6 milhões. Projetos como a Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e o Comperj, no Rio de Janeiro, ficaram marcados por atrasos e obras inacabadas. Além disso, muitas unidades foram projetadas para processar óleos mais pesados, criando incompatibilidade parcial com o petróleo mais leve do pré-sal.

O resultado prático disso no dia a dia é que o Brasil exporta petróleo bruto barato e importa diesel refinado caro, denominado em dólar. Quando o câmbio sobe ou o mercado internacional pressiona os preços, o consumidor brasileiro sente no bolso.

As importações de diesel bateram recordes nos últimos anos. As importações de diesel pelo Brasil cresceram 20% em 2025 em relação ao ano anterior, atingindo um recorde de 17,3 bilhões de litros, em um período de avanço da demanda interna com bons resultados das safras agrícolas e do setor industrial, combinado ao recuo na produção das refinarias brasileiras.

Nos fornecedores, houve uma mudança importante. Em 2024, o Brasil importou mais de US$ 8,3 bilhões em óleo diesel, sendo o segundo produto mais importado pelo país, com 82% desse diesel vindo de apenas dois países: Rússia e Estados Unidos. A dependência em relação a fornecedores específicos cria vulnerabilidades estruturais: qualquer instabilidade numa dessas origens pode gerar reflexos imediatos nos preços internos.

A guerra no Oriente Médio e o Estreito de Ormuz

Desde o fim de fevereiro de 2026, o mundo acompanha com preocupação a escalada do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã. E o mercado de petróleo foi um dos primeiros a sentir o impacto.

Os futuros do Brent subiram 64% no mês de março de 2026, o maior aumento mensal desde 1988, enquanto o WTI avançou 52%. Esse é o maior choque no mercado de petróleo em décadas, e o motivo central é geográfico: o Estreito de Ormuz.

O estreito é responsável pela circulação de cerca de 20% do petróleo mundial. Com o bloqueio parcial desse corredor estratégico pela Guarda Revolucionária do Irã, a oferta global de petróleo foi afetada imediatamente, fazendo os preços dispararem. O barril do Brent chegou a US$ 115,93, e essa escalada nas cotações teve impacto direto nos preços internos do Brasil, especialmente no diesel, que chegou a R$ 7,45 o litro em algumas regiões do país.

O cenário de incerteza permanece. Analistas do Macquarie Group projetam que o preço do Brent pode chegar a US$ 200 por barril se a guerra continuar até o final de junho. Outros especialistas são mais moderados e apontam que o conflito tende a manter o petróleo próximo de US$ 80 por barril, com possibilidade de alta para US$ 120 em caso de escalada ampla e prolongada.

Mas há uma ressalva importante que o próprio presidente do Sindicombustíveis-DF faz questão de destacar. O Brasil importa cerca de 30% do diesel e aproximadamente 6% da gasolina, o que torna o país sensível às oscilações externas, mas não explica, por si só, todos os reajustes recentes. Em outras palavras: a guerra é real, o impacto também, mas isso não justifica a totalidade dos aumentos que os brasileiros estão pagando na bomba.

Distribuidoras privadas, estoque antigo e a suspeita de especulação

Esse é o ponto mais sensível da crise de preços dos combustíveis no Brasil em 2026, e também o mais difícil de comprovar. Mas as evidências foram suficientes para acionar a Polícia Federal.

O mecanismo suspeito funciona assim: quando o preço do petróleo sobe no mercado internacional, uma distribuidora que já tinha diesel em estoque, comprado a preço mais baixo, poderia simplesmente vender esse produto pelo valor de mercado mais alto, embolsando a diferença como lucro extra. É legal? Em tese, os preços são livres no Brasil desde 2002. Mas quando isso acontece de forma coordenada e simultânea entre concorrentes, configura cartel, que é crime.

Distribuidoras privadas reprecificaram seus estoques antecipadamente, geraram escassez artificial de diesel, culparam a estatal e motivaram o governo federal a acionar a Polícia Federal e a ANP para investigar a situação. O diretor-geral da ANP, Artur Watt Neto, afirmou que aferir lucro com estoques antigos, majorando preços para aumentar a margem de lucro, configura prática abusiva.

A investigação ganhou escala. A Polícia Federal instaurou inquérito para apurar crimes de formação de cartel e contra a economia popular, diante do aumento dos preços de combustíveis em várias partes do país, incluindo aumentos observados mesmo sem reajuste anunciado pela Petrobras.

Os números da fiscalização impressionam. Em um período de 72 horas, mais de 53 distribuidoras foram autuadas e 1.192 postos foram vistoriados em uma operação conjunta envolvendo ANP, CADE, Polícia Federal, Ministério da Justiça e Procons municipais e estaduais.

No Distrito Federal, o histórico é particularmente preocupante. O CADE constatou que, após um reajuste de ICMS, os postos revendedores do DF aumentaram os preços dos combustíveis de forma concomitante e em patamares idênticos, em vez de fixar valores de forma independente e não coordenada. O órgão verificou ainda que o reajuste dos preços foi maior do que o reajuste dos tributos, aumentando as margens de lucro dos postos, que já se encontravam em níveis muito superiores à maioria dos estados brasileiros. O grupo Cascol detém cerca de 30% dos postos da região e há evidências de que atua como líder do suposto cartel, com os concorrentes seguindo seus reajustes.

Especialistas em Direito do Consumidor alertam que o fornecedor pode, sob o pretexto da guerra, reajustar estoque que tinha ao preço antigo, e que, havendo suspeita de abuso, o consumidor pode denunciar ao Procon, que fiscalizará a eventual conduta abusiva.

A privatização da BR Distribuidora e seus efeitos

Há um elemento estrutural que agrava a situação e é frequentemente mencionado por especialistas do setor: a privatização da BR Distribuidora, hoje chamada Vibra Energia, realizada entre 2019 e 2021.

Mesmo que a Petrobras segure o preço nas refinarias, não é garantido que esse valor mais baixo seja repassado ao consumidor. A gasolina teve seguidos rebaixamentos nas refinarias, mas isso não chegou à bomba. Um analista do setor faz a comparação com o sistema bancário: quando o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal praticam taxas menores, forçam os bancos privados a competir. Com a BR Distribuidora estatal, quando a Petrobras baixava o preço na refinaria, a distribuidora reduzia na bomba e as concorrentes privadas eram obrigadas a seguir.

Sem essa âncora estatal no elo de distribuição, o mercado ficou mais sujeito à lógica do lucro privado, especialmente em momentos de crise de oferta.

O pacote do governo federal: o que foi feito e o que ainda falta

Diante da escalada dos preços, o governo federal anunciou um conjunto de medidas emergenciais no dia 12 de março de 2026.

As ações incluíram a zeragem das alíquotas de PIS/Cofins sobre o óleo diesel, a autorização de subvenção aos produtores domésticos e o aumento da tributação sobre as exportações do combustível. Na prática, a zeragem do PIS/Cofins elimina os únicos dois impostos federais atualmente cobrados sobre o diesel e representa uma redução de R$ 0,32 por litro. Além disso, a Medida Provisória nº 1.340/2026 prevê o pagamento de subvenção a produtores e importadores de diesel de R$ 0,32 por litro, que deverá ser repassada ao consumidor final. Somadas, as duas medidas representam um alívio potencial de R$ 0,64 por litro, condicionado ao repasse efetivo por toda a cadeia.

Para compensar a renúncia fiscal, o pacote de subsídio ao diesel e a zeragem dos tributos foram cobertos por uma taxação de 12% sobre a exportação de petróleo bruto e de 50% sobre a exportação de diesel. O objetivo é arrecadar cerca de R$ 30 bilhões para compensar a renúncia de R$ 20 bilhões com a zeragem dos impostos federais e garantir outros R$ 10 bilhões para o subsídio.

O Decreto nº 12.876/2026 criou um novo marco de fiscalização e transparência. As ações de fiscalização incluem a verificação do cumprimento dos deveres de informação ao consumidor, especialmente quanto à divulgação clara dos preços e dos benefícios tributários recentemente instituídos pelo governo. Com esse decreto, a ANP passou a poder aplicar multas entre R$ 50 mil e R$ 500 milhões, dependendo da gravidade da conduta e do porte do eventual infrator.

A Operação Vem Diesel, deflagrada pela Polícia Federal, foi o braço operacional dessa resposta, com atuação em 11 estados e no Distrito Federal. Apesar de todo o esforço governamental, os preços seguiram em patamar elevado. No acumulado do mês de março de 2026, o diesel apresentou alta de 23,56%, enquanto a gasolina registrou aumento de 7,96%. A distância entre o anúncio de medidas e o efeito na bomba continua sendo um problema central do setor.

Os postos bandeira branca e o problema do abastecimento

Nem todos os postos de combustíveis no Brasil são iguais. Existe uma distinção importante entre postos bandeirados, que têm contrato exclusivo com uma distribuidora como Petrobras, Raízen ou Vibra, e postos chamados de bandeira branca, que compram de diferentes fornecedores conforme a disponibilidade e o preço.

Em momentos de crise como o atual, os postos bandeira branca ficam em posição mais vulnerável porque não têm contratos de fornecimento garantido. Se as distribuidoras preferem atender seus parceiros exclusivos ou retêm estoque aguardando preços maiores, os postos bandeira branca ficam sem produto. Esse fenômeno pressiona os preços de forma secundária: quando parte dos postos não consegue produto ou paga mais caro para obtê-lo, o preço ao consumidor sobe mesmo em postos que não estão com problema de abastecimento direto, pois a referência de mercado sobe junto.

O presidente do Sindicombustíveis-DF aponta que os postos bandeira branca estavam enfrentando dificuldade de abastecimento no DF justamente no período de maior alta, o que colaborou para pressionar ainda mais os preços na região.

Vale lembrar que o diesel é um combustível cuja demanda é pouco sensível a preço. Independentemente de quanto custe, a demanda existe, porque a economia depende diretamente do transporte rodoviário. Essa característica torna o mercado de diesel particularmente propenso a desequilíbrios quando há qualquer distorção na cadeia de abastecimento.

O impacto em cascata: do frete ao prato de comida

O diesel não é apenas o combustível de quem tem um caminhão. Ele é a base logística de praticamente tudo que os brasileiros consomem. Quando o diesel sobe, o frete sobe. Quando o frete sobe, os alimentos ficam mais caros, os produtos industrializados encarecem, e a inflação pressiona especialmente as famílias de menor renda, que gastam proporcionalmente mais com alimentação.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, explicou durante o anúncio das medidas emergenciais que todo o plantio, a colheita da safra e o escoamento da produção são feitos por caminhões e maquinários agrícolas que usam diesel. A safra de grãos que acontece justamente neste período do ano depende diretamente do diesel para ser colhida e transportada. Um aumento no combustível nesse momento tem efeito multiplicador sobre os preços de alimentos nos meses seguintes.

Para se ter uma ideia do impacto, o diesel representa mais de 30% do custo total logístico para empresas do transporte rodoviário de cargas. Isso significa que qualquer alta no combustível impacta os fretes imediatamente, e esse custo extra acaba distribuído ao longo de toda a cadeia produtiva até chegar ao consumidor final.

Para as famílias brasileiras, o efeito é duplo e perverso: pagam mais para abastecer o próprio carro e ainda pagam mais nas compras do supermercado, porque todos os produtos que chegaram até ali foram transportados por caminhões que usam diesel.

Por que o preço sobe mais rápido do que cai: a assimetria crônica

Um ponto que irrita os consumidores há décadas é a velocidade com que os preços reagem a diferentes situações. Quando o petróleo sobe, o reajuste aparece na bomba quase imediatamente. Quando o petróleo cai, os preços demoram semanas ou meses para recuar.

Esse comportamento tem nome técnico: assimetria de transmissão de preços. E ele ocorre por razões tanto estruturais quanto estratégicas.

Do ponto de vista estrutural, as distribuidoras e os postos têm custos fixos a cobrir independentemente do preço do petróleo. Quando as margens ficam maiores em momentos de alta, eles tendem a mantê-las para compensar períodos de menor lucro. Além disso, a formação de preços no varejo de combustíveis tende a ser influenciada pelo preço do concorrente mais próximo, não apenas pelo custo de aquisição.

Do ponto de vista estratégico, é aqui que entra a suspeita de cartel. O CADE verificou que os postos do DF aumentaram os preços de forma concomitante e em patamares idênticos, sugerindo que os preços estão sendo coordenados, e não definidos de forma independente por cada estabelecimento.

A investigação do órgão revelou ainda que as margens de lucro dos postos do DF já se encontravam em níveis muito superiores à maioria dos estados brasileiros, mesmo antes do último ciclo de altas. Isso sugere que o problema não é apenas conjuntural: há uma estrutura de mercado que favorece práticas anticoncorrenciais na capital federal.

Segundo o presidente da Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araújo, a defasagem entre os preços internos e as cotações externas do diesel chegou a cerca de 45% a 50%, um patamar classificado por ele como muito elevado e que gera insegurança para a realização das operações de importação.

O que esperar dos próximos meses

A perspectiva de curto prazo depende, em grande medida, de como o conflito no Oriente Médio vai evoluir. Se houver uma negociação e o Estreito de Ormuz for reaberto, o petróleo pode recuar significativamente. Se o conflito se prolongar, o cenário de preços elevados se mantém.

Analistas apontam que, se o Estreito de Ormuz permanecer fechado por um período prolongado, os preços precisariam subir o suficiente para destruir uma parcela historicamente grande da demanda global de petróleo. O Macquarie Group atribui 40% de probabilidade a esse cenário mais extremo e 60% a um desfecho diplomático ainda no segundo trimestre de 2026.

Do lado doméstico, as perspectivas para o diesel seguem pressionadas. As expectativas indicam uma pauta importadora aquecida ao longo de 2026, principalmente pela previsão de novo recorde nas vendas de diesel no Brasil, com crescimento de 1,8% em relação a 2025, combinado às limitações da capacidade de refino nacional.

O governo federal sinaliza que as medidas de desoneração do diesel valem até 31 de maio e o subsídio até 31 de dezembro, mas há incerteza sobre o que acontece depois desse período. Especialistas alertam que, mesmo com as medidas anunciadas, a efetividade depende do repasse ao consumidor por toda a cadeia, e esse repasse não é automático nem garantido.

O que o consumidor pode fazer

Em meio a tudo isso, o consumidor não está completamente desamparado. Há ferramentas e direitos que podem ser exercidos.

A ANP disponibiliza semanalmente o levantamento de preços de combustíveis em todo o Brasil, com dados por estado, município e até por posto revendedor. Essa pesquisa pode ser acessada gratuitamente no site da agência e serve como referência importante para identificar se o posto da sua região está cobrando acima da média.

O consumidor pode identificar um preço abusivo comparando o valor cobrado pelo posto com a média regional divulgada pela ANP. Se notar cobrança acima da média sem justificativa, falta de transparência ou publicidade enganosa, deve registrar a ocorrência anotando nome do posto, endereço, data e hora, e denunciar ao Procon local. Fotografias das bombas e recibos de abastecimento ajudam a comprovar a irregularidade.

Há também um aspecto prático do consumo. A gasolina tem maior elasticidade de preço do que o diesel. Com o aumento de preço, existe uma tendência do usuário em reduzir o consumo, com migração para transporte público, caronas e etanol hidratado. O etanol pode ser uma alternativa economicamente vantajosa quando seu preço está abaixo de 70% do valor da gasolina, pois a eficiência dos motores flex compensa a diferença de rendimento.

Por fim, vale lembrar que o Decreto nº 12.876/2026 obriga os postos a exibirem informações claras sobre os benefícios tributários do governo, com placas de tamanho mínimo de 65 x 50 cm em local visível. Se o posto não está exibindo essa sinalização, pode estar descumprindo a norma, e isso pode ser denunciado à ANP ou ao Procon.

Conclusão: um problema estrutural com solução complexa

O que está acontecendo com os preços dos combustíveis no Distrito Federal em 2026 é o espelho amplificado de um problema muito mais antigo e profundo. A guerra no Oriente Médio foi o gatilho imediato, mas as vulnerabilidades já existiam: dependência de importação de derivados, infraestrutura de refino defasada, cadeia de distribuição dominada por atores privados sem freios de mercado suficientes e um histórico de práticas anticoncorrenciais no varejo.

Essa combinação cria a equação perfeita para que o preço na bomba suba mais do que deveria e caia menos do que poderia.

As medidas do governo, incluindo desoneração tributária, subsídio ao diesel, investigação criminal e fiscalização intensiva, representam respostas importantes ao cenário de emergência. Mas elas não resolvem as questões estruturais: a falta de capacidade de refino, a privatização da distribuição e a ausência de mecanismos eficazes de formação de preços que protejam o consumidor de forma permanente.

Enquanto o conflito no Oriente Médio durar e as estruturas domésticas não mudarem, o presidente do Sindicombustíveis-DF, Paulo Tavares, resume bem o prognóstico: não há como falar em estabilidade enquanto houver projeções de que o barril de petróleo possa subir ainda mais, com impacto direto no mercado interno.

O consumidor, por enquanto, segue pagando a conta.

Perguntas frequentes

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