O carro elétrico deixou de ser curiosidade no Brasil. Segundo a série histórica da ABVE, a frota de eletrificados fechou agosto de 2026 com 950.183 unidades acumuladas e deveria cruzar a marca de 1 milhão ainda em setembro. No mês de agosto, eletrificados responderam por 24,3% de tudo o que se vendeu em veículos leves no país: praticamente um a cada quatro.
Com esse volume, a pergunta do motorista mudou. Não é mais "será que funciona", e sim "quanto isso custa de verdade no dia a dia". E a resposta tem uma variação que surpreende quem está fazendo as contas pela primeira vez: o mesmo carro, rodando os mesmos quilômetros, pode custar três vezes mais dependendo de onde você o carrega.
A frota que mudou de patamar
O salto foi rápido. No acumulado do ano até agosto, foram cerca de 367,5 mil eletrificados, contra 156,7 mil no mesmo período de 2025 — mais que o dobro. É um mercado que saiu da fase de early adopter e entrou na fase em que o vizinho tem um.
O termo "eletrificado", vale explicar, engloba tanto os 100% elétricos quanto os híbridos. Para quem tem híbrido convencional, a conta de combustível continua existindo. Quem tem elétrico puro ou híbrido plug-in é que precisa entender a lógica da recarga.
Em casa, o elétrico é difícil de bater
A tomada de casa é onde o carro elétrico mostra seu melhor número. Tomando como referência um modelo urbano popular, com bateria de 38 kWh:
| Onde carrega | Preço da energia | Carga cheia (38 kWh) |
|---|---|---|
| Casa, tarifa residencial média | cerca de R$ 0,85/kWh | cerca de R$ 32 |
| Casa, tarifa mais baixa (ex.: Enel SP) | cerca de R$ 0,67/kWh | cerca de R$ 25 |
| Eletroposto de recarga rápida | R$ 1,00 a R$ 2,99/kWh | R$ 58 a R$ 173 |
Carregando em casa, o custo fica em torno de R$ 0,12 por quilômetro. É um número que deixa qualquer combustível para trás com folga.
Uma ressalva de método: esses valores de tarifa e de preço em eletroposto circulam como estimativas de mercado e variam bastante por distribuidora, por estado e por rede. Trate-os como ordem de grandeza, não como tabela oficial. A conta que importa é a da sua conta de luz e a do eletroposto que você usa.
Na rua, a conta muda de figura
Olhe de novo para a última linha da tabela. No eletroposto de recarga rápida, o kWh custa de R$ 1,00 a R$ 2,99. Comparado com os R$ 0,85 de casa, a ponta de cima é mais de três vezes mais cara.
Na prática, o motorista que carrega sempre na rua pode ver o custo por quilômetro sair de R$ 0,12 para algo próximo de R$ 0,35 ou mais. Continua competitivo contra a gasolina, mas evapora boa parte da economia que motivou a compra do carro.
Por que a diferença é tão grande
Não é ganância do eletroposto. A estrutura de custo é outra:
- Um carregador rápido exige potência contratada alta da distribuidora, e esse contrato é caro mesmo quando ninguém está carregando.
- O equipamento custa caro e precisa ser amortizado por um número de usos que ainda é baixo.
- Há aluguel do espaço, manutenção, conectividade e meio de pagamento embutidos no preço.
- E há o valor da conveniência: você está pagando para encher em 30 minutos em vez de 8 horas.
É a mesma lógica que faz a garrafa de água custar mais no aeroporto. A diferença é que, no caso do carro elétrico, quem planeja consegue escapar dela na maior parte dos dias.
Contra a gasolina, a conta ainda fecha
Posto lado a lado com um carro a combustão, o elétrico segue na frente. As estimativas de mercado colocam o custo de rodagem do elétrico urbano em torno de R$ 0,11 a R$ 0,12 por quilômetro, contra algo próximo de R$ 0,55 por quilômetro na gasolina. Para quem roda muito na cidade, a diferença projetada chega perto de R$ 7 mil por ano.
O que essa comparação não inclui, e que precisa entrar na sua planilha antes da decisão: o preço de compra do veículo, que ainda é mais alto; o seguro, que costuma custar mais; a depreciação; e a eventual instalação de um carregador em casa. A economia no uso é real, mas ela leva tempo para pagar a diferença da entrada.
O gargalo real: 20 carros para cada ponto
A infraestrutura cresce rápido, só que menos rápido que a frota. Dados da ABVE em parceria com a Tupi Mobilidade apontam 25.455 pontos públicos e semipúblicos em maio de 2026, alta de 20,9% sobre os 21.060 de fevereiro. Desses, pouco mais de 8.500 são de recarga rápida.
O problema aparece na divisão: hoje há cerca de 20 veículos plug-in para cada ponto de recarga, quando a referência considerada saudável é de aproximadamente 10. Um estudo das C40 Cities com o IFC, apoiado pela ABVE, estima que o país precisa de R$ 5 bilhões em infraestrutura de recarga até 2035 para equilibrar essa conta.
Some-se a isso a concentração geográfica: a malha é densa no Sul e no Sudeste e rala no resto do país. Viagem longa de carro elétrico no Brasil, em 2026, ainda é viagem planejada.
E o incômodo de ter um app para cada rede
Há um atrito que não aparece em nenhuma planilha de custo, mas que todo dono de elétrico conhece. Cada rede de recarga tem o seu aplicativo, o seu cadastro, o seu cartão e a sua forma de cobrar. Chegar num eletroposto e descobrir que falta baixar mais um app, criar mais uma conta e colocar mais um cartão é rotina.
O resultado é que o motorista raramente compara preço antes de plugar. Ele usa a rede que já tem cadastro — exatamente como o motorista de carro a combustão que abastece sempre no mesmo posto por costume, e não por vantagem. Nos dois casos, o custo de não comparar sai do bolso de quem dirige.
O que o Baratão está preparando
É esse atrito que o Recharge, a vertical de recarga elétrica do Baratão, vai atacar quando entrar no ar. A proposta anunciada é reunir todas as estações em um só lugar, deixar o motorista comparar e escolher antes de plugar, e pagar pelo próprio app, com Pix ou cartão, sem precisar do cartão de cada rede. As BaratinhaZ, moeda digital do app, também valem na recarga.
O Recharge ainda está marcado como em breve no site. Até lá, a lógica que vale para a recarga é a mesma que já vale para o combustível: comparar antes decide mais do que qualquer outra escolha do dia.
Para quem está com a compra de um elétrico na cabeça, a conclusão prática é curta. Se você tem onde carregar em casa, a economia é grande e consistente. Se vai depender de eletroposto na rua, refaça a conta com o preço real da rede que você usaria — porque é a diferença entre economizar R$ 7 mil por ano e economizar bem menos do que você imaginava.
