Quem acompanha o painel de preços do posto viu o etanol fazer um movimento incomum nas últimas semanas. Depois de chegar ao menor valor em dois anos em agosto, o combustível parou de cair, virou e já acumula seis semanas seguidas de alta. Em São Paulo, maior mercado consumidor do país, a subida acumulada no período chega a 6,3%.
Não é especulação de posto nem azar de calendário. É o calendário entrando em cena, literalmente. Entre o fim de novembro e o começo de abril, as usinas do Centro-Sul param de moer cana, a oferta de etanol encolhe e o preço reage. Esse período tem nome no setor: entressafra.
Entender esse ciclo muda a forma de decidir o que colocar no tanque nos próximos meses. Neste guia você vai ver por que o etanol sobe justamente de novembro a março, onde os preços estão agora, o que torna esta entressafra diferente das anteriores e quais movimentos práticos cabem a quem abastece todo dia.
O calendário que manda no preço do etanol
A cana-de-açúcar não é colhida o ano inteiro. No Centro-Sul, região que responde pela maior parte da produção brasileira, a safra começa em abril e se encerra entre novembro e dezembro. É nesse intervalo que as usinas moem, produzem e formam estoque.
Depois disso vem a parada. As moendas entram em manutenção, a cana nova ainda está se desenvolvendo no campo e, por três a quatro meses, o etanol que abastece o país sai quase todo do que foi guardado. O estoque diminui mês a mês enquanto a demanda continua a mesma — ou maior, porque dezembro e janeiro concentram férias, festas e viagens.
O resultado é previsível: oferta que encolhe diante de procura que não cede empurra o preço para cima. É por isso que o etanol costuma ser mais barato entre maio e setembro e mais caro entre dezembro e março. O movimento se repete praticamente todo ano, com intensidade variável.
Onde os preços estão agora
No levantamento semanal da ANP referente ao período de 4 a 10 de outubro de 2026, as médias nacionais ficaram assim:
| Combustível | Média nacional | Movimento recente |
|---|---|---|
| Gasolina comum | R$ 6,585 / litro | Alta de cerca de 5,5% de janeiro a outubro |
| Etanol hidratado | R$ 4,467 / litro | Sexta semana seguida de alta |
| Diesel S10 | R$ 7,385 / litro | Alta de cerca de 6,7% em quatro semanas |
Com esses valores, a paridade entre etanol e gasolina está em torno de 68% na média do país. Ou seja: mesmo depois de seis semanas de alta, o etanol ainda é a escolha mais econômica para a maior parte dos motoristas brasileiros. A questão é que essa folga vem encolhendo — e a entressafra ainda nem começou de fato.
Por que a entressafra empurra o preço para cima
Três forças agem ao mesmo tempo nesses meses.
A oferta encolhe. Sem moagem, não entra produto novo no sistema. Cada litro consumido entre dezembro e março sai de um estoque que não é reposto até a nova safra começar.
A demanda não acompanha. Ninguém deixa de ir ao trabalho porque a usina parou. Pelo contrário: o fim de ano é alta temporada nas estradas, com férias escolares, festas e viagens de família concentradas em poucas semanas.
Guardar combustível custa dinheiro. Tancagem, capital parado e risco de preço são custos reais, e eles entram na conta de quem segura produto para vender meses depois.
Para dimensionar o quanto o estoque pode encolher, vale olhar a entressafra passada. Em 15 de janeiro de 2026, os estoques do Centro-Sul somavam 5,81 bilhões de litros, 20,7% menos que um ano antes, segundo dados do Ministério da Agricultura. O etanol hidratado, justamente o que vai direto no tanque do carro flex, recuou 24,5%, para 3,30 bilhões de litros. Analistas do setor classificaram o nível como muito baixo.
O que torna esta entressafra diferente
A boa notícia é que o ponto de partida agora é melhor. A safra 2026/27 veio mais forte e as projeções do setor apontam recomposição de estoques:
- A StoneX estima crescimento de 4,4% na produção de etanol de cana, para 25,5 bilhões de litros.
- O etanol de milho, que não para na entressafra da cana, deve avançar cerca de 17% e chegar perto de 11 bilhões de litros — há estimativas do setor que falam em 12 bilhões.
- A Safras & Mercado projeta um mix de 53% da cana destinada ao etanol, contra 47% para o açúcar, invertendo a divisão do ano anterior.
O etanol de milho é a peça nova e importante dessa equação. Produzido o ano todo, sem depender do ciclo da cana, ele funciona como amortecedor justamente nos meses em que as usinas de cana estão paradas.
Por isso a leitura predominante no mercado é de alta em novembro e dezembro, com o encerramento da safra do Centro-Sul, porém menos intensa que a da entressafra anterior. A Datagro trabalha com esse cenário.
Vale a ressalva de sempre: projeção não é garantia. Clima, preço do açúcar no mercado internacional, câmbio e decisões de política de preços podem mudar o desenho ao longo do caminho. O que a série histórica permite afirmar com segurança é a direção do movimento, não o tamanho dele.
A paridade: 70%, 73% e o que fazer na bomba
A regra de bolso que todo motorista aprendeu diz: se o etanol custar até 70% do preço da gasolina, compensa abastecer com etanol. Como já mostramos na análise sobre a regra dos 70% em 2026, essa conta ficou simplificada demais para os motores flex atuais, que costumam justificar até 73%.
Na prática, o mais útil é saber o seu limite em reais. A tabela abaixo mostra o preço máximo do etanol que ainda compensa, conforme o preço da gasolina no seu posto:
| Gasolina está a | Etanol compensa até (70%) | Etanol compensa até (73%) |
|---|---|---|
| R$ 6,00 | R$ 4,20 | R$ 4,38 |
| R$ 6,30 | R$ 4,41 | R$ 4,60 |
| R$ 6,59 (média nacional) | R$ 4,61 | R$ 4,81 |
| R$ 6,90 | R$ 4,83 | R$ 5,04 |
| R$ 7,20 | R$ 5,04 | R$ 5,26 |
Com a gasolina na média nacional de R$ 6,585 e o etanol a R$ 4,467, sobra uma folga de cerca de 14 centavos por litro já no critério mais conservador, o dos 70%. É uma vantagem real, mas bem menor que a de agosto. Se a alta seguir o roteiro da entressafra, essa folga tende a diminuir mês a mês.
O cálculo que vale mais que a regra de bolso
A paridade é um atalho. A conta exata é o custo por quilômetro rodado:
Custo por km = preço do litro ÷ consumo do carro em km por litro
Um exemplo com os preços de hoje. Imagine um carro flex que faz 12 km/l com gasolina e 8,4 km/l com etanol:
- Gasolina: R$ 6,585 ÷ 12 = R$ 0,549 por km
- Etanol: R$ 4,467 ÷ 8,4 = R$ 0,532 por km
Diferença de 1,7 centavo por quilômetro a favor do etanol. Parece pouco, e é — para quem roda 500 km por mês. Para quem roda 3.000 km, viram mais de R$ 50 mensais. O mesmo preço pode ser bom negócio para um motorista e ruim para outro, e só o consumo real do seu carro resolve essa dúvida.
Cinco movimentos para os próximos meses
1. Olhe o seu estado, não a média do país. A paridade nacional de 68% esconde diferenças grandes. Em estados produtores de cana o etanol costuma ser bem mais competitivo; em regiões distantes das usinas, o frete come a vantagem.
2. Meça o consumo real do seu carro. Encha o tanque, zere o hodômetro parcial e anote quantos quilômetros você fez até a próxima bomba. Repita com o outro combustível. Dois tanques completos dão uma resposta muito mais confiável que qualquer tabela genérica.
3. Antecipe o abastecimento das festas. A combinação de entressafra começando e alta temporada nas estradas costuma ser a pior janela do ano. Sair de casa com o tanque cheio, antes do feriadão, evita pagar o preço da estrada.
4. Não decida pelo hábito. Muita gente abastece sempre com o mesmo combustível por costume, mesmo quando a conta já virou. A paridade muda de semana em semana durante a entressafra.
5. Compare antes de sair de casa. A diferença entre dois postos da mesma avenida passa fácil de 30 centavos por litro. Num tanque de 50 litros, são R$ 15 que não dependem de safra, câmbio nem política de preços.
Para quem roda muito, a conta é outra
Motorista de aplicativo, entregador, representante comercial e frota pequena operam numa escala em que centavos deixam de ser detalhe. Quem roda 4.000 km por mês com um carro que faz 10 km/l consome cerca de 400 litros. Uma diferença de 20 centavos por litro representa R$ 80 mensais, quase mil reais por ano.
Para esse público, três hábitos rendem mais que qualquer previsão de mercado: acompanhar o custo por quilômetro, concentrar o abastecimento onde o preço é melhor e manter a manutenção em dia — pneu calibrado e filtro limpo devolvem mais economia que a escolha entre etanol e gasolina em muitos casos.
E o diesel? Segue outra lógica
Vale deixar claro: a entressafra da cana não explica o que acontece com o diesel. Esse combustível acompanha o petróleo, o câmbio e as decisões de subvenção, e vem em alta própria — cerca de 6,7% em quatro semanas e perto de 20% no acumulado de 2026, segundo os levantamentos de preço do setor.
Para transportadores e para quem depende de veículo a diesel, o calendário da cana é irrelevante. O que pesa ali é o barril, o dólar e a política de preços — assunto que acompanhamos de perto em outras matérias do blog.
Comparar preço deixou de ser detalhe
Num ciclo em que o preço sobe por motivo estrutural, e não por escolha de um posto específico, a margem de manobra do motorista está em dois lugares: no combustível certo para o seu carro e no lugar certo para abastecer.
É exatamente aí que o Baratão Combustíveis entra. No app, você compara o preço dos postos da sua região, compra o combustível antecipado e retira na bomba — com a promessa de o menor preço ou seu dinheiro de volta. Em vez de escolher o posto por costume, você escolhe por vantagem.
O histórico de compras ainda ajuda a enxergar quanto você gasta por mês, e as BaratinhaZ, moeda digital do app, acumuladas nas compras, no check-in diário e no programa de indicação, voltam como desconto nos próximos abastecimentos. Cada BaratinhaZ equivale a R$ 0,01.
A entressafra vai acontecer de novo no ano que vem, e no seguinte. É um ciclo, não uma crise. Quem conhece o calendário para de ser pego de surpresa em dezembro e passa a decidir com antecedência — que é, no fim das contas, a única parte dessa história que está sob o controle do motorista.
