Em um ano marcado por recordes consecutivos nas vendas de veículos elétricos – com mais de 20 milhões de unidades comercializadas globalmente em 2025 –, o consumo mundial de gasolina não só resistiu como atingiu níveis históricos. Dados preliminares da Agência Internacional de Energia (AIE) indicam que a demanda global por gasolina superou os 28 milhões de barris por dia ao longo do ano, um patamar superior ao registrado antes da pandemia de Covid-19. Enquanto governos e montadoras anunciam metas ambiciosas de eletrificação e o mercado de baterias celebra quedas expressivas de custo, os postos de combustíveis continuam movimentados e a frota mundial a combustão interna segue crescendo, especialmente em países emergentes.
Esse contraste entre o discurso acelerado da transição energética e a realidade persistente dos derivados de petróleo tem chamado a atenção de analistas do setor. Relatórios recentes da OPEC, da AIE e de consultorias como a BloombergNEF apontam para um cenário de convivência prolongada: os veículos elétricos avançam rapidamente nas vendas de modelos novos, mas a substituição completa da frota existente – estimada em cerca de 1,8 bilhão de automóveis e comerciais leves – demandará décadas. Paralelamente, o crescimento da classe média em Ásia, África e América Latina sustenta uma expansão contínua da demanda por mobilidade acessível, majoritariamente atendida por motores a gasolina e diesel.
Esta reportagem examina os principais fatores que explicam a resiliência do consumo de gasolina, desde a lentidão natural da renovação das frotas até os gargalos de infraestrutura elétrica e as flexibilizações em políticas públicas inicialmente mais radicais. Com base em dados atualizados até o final de 2025, o texto demonstra por que a previsão de um declínio abrupto da gasolina não se concretizou e projeta um futuro de queda gradual, em vez de colapso repentino, para o combustível que ainda move a maior parte do transporte rodoviário mundial.
O Mito do “Fim Próximo da Gasolina”
Vamos desmontar esse mito passo a passo. A narrativa de que a gasolina iria acabar rapidamente ganhou força nos anos 2010, impulsionada por relatórios ambientais e avanços em tecnologias verdes. Organizações como o Greenpeace e até governos apostaram em um “pico de demanda” iminente, prevendo que EVs e energias renováveis substituiriam os combustíveis fósseis em uma década. Por quê? Bem, o hype veio de previsões otimistas sobre a adoção de EVs, influenciadas pelo Acordo de Paris em 2015, que incentivou metas de redução de emissões. Mídia e ativistas amplificaram isso, criando a ideia de que o petróleo seria obsoleto logo, como se fosse um VHS sendo trocado por streaming.
Mas o que as previsões erraram? Elas subestimaram a resiliência do mercado. Por exemplo, em 2019, muitos analistas previram que o pico de demanda de gasolina já havia acontecido, mas em 2024, o consumo global atingiu um recorde de 27,62 milhões de barris por dia, e deve continuar crescendo. Erraram ao ignorar o impacto da pandemia de COVID-19, que reduziu o consumo temporariamente em 2020 (queda de 4% no gás natural, por exemplo, mas recuperação rápida). Além disso, não consideraram o crescimento econômico em emergentes, onde a mobilidade ainda depende de veículos a combustão.
Agora, a diferença entre transição energética planejada e real: A planejada é aquela das metas governamentais, como zero emissões até 2050, com investimentos bilionários em EVs. Mas a real é mais lenta, afetada por custos altos de baterias, infraestrutura limitada e resistência cultural. Pense nisso como planejar uma dieta rigorosa versus o que você come no dia a dia – há deslizes. Na prática, a transição é gradual, com gasolina convivendo com elétricos por décadas.
Consumo Global de Gasolina: O Que Dizem os Números
Vamos aos fatos concretos. Antes da pandemia, entre 2016 e 2019, o consumo médio de gasolina nos EUA era de 9,3 milhões de barris por dia (b/d). Em 2020, caiu para 8 milhões b/d devido aos lockdowns, mas recuperou para níveis próximos do pré-pandemia em 2024, com crescimento global de 2,2% na demanda energética total. Mundialmente, a demanda de gasolina deve peaking em 2025, mas ainda cresce em algumas regiões, com projeções de declínio gradual após isso.
Países onde o consumo ainda cresce incluem emergentes como Índia, China (apesar do pico previsto para 2027), Brasil e partes da África e Oriente Médio. Na Índia, por exemplo, o aumento na frota de veículos impulsiona a demanda, enquanto na China, gasolina barata mantém o crescimento. Mercados maduros como EUA e Europa veem estagnação ou leve declínio (EUA caiu 5% desde o pico), mas emergentes compensam, com África e Ásia liderando.
Comparando combustíveis: Gasolina representa cerca de 22% do consumo global de petróleo, diesel 29%, etanol (biofuel) cresce mas é pequeno (1,1 bilhão de litros em 2019, projetado para mais em 2030), e eletricidade para transportes é apenas 1-2% do total energético. Etanol, misturado à gasolina (como E10), reduz emissões, mas não substitui totalmente. Eletricidade ganha terreno com EVs, mas ainda é nicho comparado aos 100 milhões b/d de óleo total.
Aqui uma tabela comparativa (dados aproximados para 2024-2025):
| Combustível | Consumo Global (milhões b/d ou equivalente) | Crescimento Anual Projetado (2025) | Participação no Transporte |
|---|---|---|---|
| Gasolina | 27-28 | +0.5-1% | 40% |
| Diesel | 30-32 | +1-2% | 50% |
| Etanol | 1-1.5 (em óleo equivalente) | +3-5% | 5% |
| Eletricidade | 0.5-1 (em óleo equivalente para EVs) | +20-25% | 5% |
Crescimento dos Carros Elétricos ≠ Queda Imediata da Gasolina
Os EVs estão bombando: em 2024, vendas globais atingiram 17 milhões, crescendo 25%, e em 2025, projetam-se mais 20% de novos carros elétricos. No primeiro semestre de 2025, 9,5 milhões de plug-ins foram vendidos. Mas a frota total de EVs é de cerca de 58 milhões no final de 2024, projetada para 75-80 milhões em 2025.
Participação real: A frota global de veículos é de 1,8 bilhão, então EVs representam apenas 3-4%. Nos EUA, EVs são 2-3% da frota.
Tempo médio de renovação: Carros duram em média 12-14 anos (12,8 nos EUA em 2025, 12,3 na UE). Renovação total leva décadas – para substituir 1 bilhão de carros a combustão, precisaria de taxas insustentáveis de produção.
Por quê? Vender mais EVs não elimina os antigos. Um carro a gasolina comprado hoje roda por 10-15 anos, consumindo combustível. É como trocar lâmpadas: as novas são LED, mas as velhas ainda iluminam.
O Papel dos Países Emergentes no Consumo de Combustível
Nos emergentes, a expansão da classe média é chave. Na Índia, Brasil, África e Sudeste Asiático, milhões entram na classe média anualmente – na Ásia, espera-se 3,2 bilhões até 2030. Isso impulsiona posse de veículos: na Índia, posse cresce 2x mais rápido que renda per capita.
Acesso tardio ao carro próprio: Muitos compram seu primeiro veículo agora, preferindo modelos baratos a combustão.
Infraestrutura elétrica insuficiente: Na África, pontos de recarga são raros; no Brasil, rede elétrica não suporta eletrificação rápida.
Gasolina como solução acessível: Custa menos que EVs (baterias caras), e postos estão em toda parte.
Políticas Públicas: Metas Ambiciosas vs. Realidade Política
Metas: Europa planejava banir combustão em 2035, mas flexibilizou para 90% redução de emissões. EUA tem incentivos via IRA, China manda 50% NEVs em 2025.
Flexibilizações: UE adiou por pressão da indústria; adiamentos eleitorais nos EUA.
Pressão automotiva: Montadoras como VW e Ford lobam por prazos realistas.
Impacto: Eleitoral (preços altos afetam votos), econômico (empregos na cadeia de combustão).
Infraestrutura: Um dos Maiores Gargalos da Eletrificação
Falta de pontos: Em 2025, 4 milhões de carregadores nos EUA, mas globalmente, 150 milhões necessários até 2030. Vs. 145-150 mil postos de gasolina nos EUA.
Urbana vs. rodoviária: Cidades têm mais, mas highways faltam.
Tempo: Abastecer gasolina: 5 min; recarga EV: 20-60 min.
Custos: Adaptação de rede elétrica bilionária.
Eficiência dos Motores a Combustão Evoluiu
Motores mais eficientes: Até 17% economia com idle reduction. HCCI e downsizing reduzem consumo.
Padrões ambientais: Euro 7, CAFE nos EUA baixam emissões.
Biocombustíveis: E10, E15 misturam etanol, cortando CO2 sem abandonar gasolina.
Redução: ICEs limpos convivem com EVs.
Híbridos: O “Meio do Caminho” que Sustenta a Gasolina
Crescimento: Vendas híbridas sobem 18% em 2025, market share 61% com EVs.
Mantêm gasolina: Usam combustão + elétrico.
Comparação: Híbrido: 40-50 mpg; EV: zero gasolina; combustão: 25-30 mpg.
Aceitação: Consumidores preferem por autonomia.
Curiosidades que Ajudam a Contextualizar
Tempo para 100% EV: 20-30 anos, frota de 250 milhões EVs em 2030, mas full em 2040-2050.
Postos vs. recarga: 150 mil postos nos EUA vs. 82 mil carregadores.
Per capita: EUA lidera com 1541 litros/ano, seguido Canadá, Arábia Saudita.
Estratégico: Governos dependem de impostos sobre gasolina.
O Futuro do Consumo de Gasolina: Queda Lenta, Não Abrupta
Pico de demanda: Projetado para 2030, com 105-113 milhões b/d.
Queda gradual: Décadas, não anos.
Convivência: Gasolina com EVs.
Significado: Motoristas: opções mistas; postos: adaptação; mercado: equilíbrio.
Em resumo, a gasolina resiste graças a realidades práticas. A transição é bem-vinda, mas realista. Conteúdos como este ajudam a navegar o futuro energético.