Diesel, Frete e Inflação: Entenda Tudo o Que Está em Jogo

Diesel sob pressão: o que está por trás da alta, o que o governo fez e o que muda para o consumidor brasileiro

O diesel não é um combustível qualquer. Ele não abastece apenas caminhões. Abastece a economia. É ele que leva o arroz do campo até o supermercado, o remédio da fábrica até a farmácia, os grãos do cerrado até o porto. Quando o preço do diesel sobe, tudo sobe junto — e o consumidor brasileiro, que na maioria das vezes nem possui um veículo movido a diesel, acaba pagando a conta de alguma forma: na feira, no açougue, no mercadinho da esquina. Por isso, quando o petróleo voltou a ultrapassar a marca de US$ 100 o barril em março de 2026 — impulsionado pela guerra entre Estados Unidos e Irã e pelo fechamento do Estreito de Ormuz —, o governo federal reagiu com um pacote emergencial que inclui desde a zeragem de impostos federais até a obrigação de que os postos de combustíveis informem claramente ao consumidor quando o preço cai. Esta matéria explica, do começo ao fim, o que está acontecendo, por que isso importa e o que muda na prática para quem abastece, compra alimentos ou simplesmente vai trabalhar de ônibus todo dia.

O estopim: guerra, Ormuz e petróleo a US$ 100

Para entender o pacote do governo, é preciso entender o que provocou a crise. O conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã escalou de forma acelerada nas primeiras semanas de 2026 e levou a tensões extremas no Estreito de Ormuz, a via marítima por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo consumido no mundo. O Estreito de Ormuz é um corredor de pouco mais de 33 quilômetros de largura no ponto mais estreito, localizado entre o Irã e Omã, e funciona como a “torneira” do abastecimento global de energia. Quando essa torneira é ameaçada — seja por bloqueios, conflitos ou restrições de passagem — o mercado internacional de petróleo entra em pânico imediato.

O resultado foi direto: o barril do tipo Brent, referência global de precificação, voltou a operar acima de US$ 100, o nível mais alto desde o início do conflito entre Rússia e Ucrânia em 2022. No Brasil, esse movimento do mercado internacional coloca a Petrobras em uma posição delicada. A estatal é responsável por praticamente toda a capacidade de refino do país — são 14 das 16 refinarias ativas operadas pela empresa, representando cerca de 98% do refino nacional. Mesmo com toda essa estrutura interna, o Brasil ainda depende das importações para suprir entre 20% e 30% da demanda por diesel. Com o Estreito de Ormuz sob tensão e os preços internacionais nas alturas, as janelas de importação ficaram fechadas por 59 dias consecutivos no caso do diesel — o que significa que trazer o combustível de fora simplesmente deixou de ser economicamente viável por quase dois meses.

A defasagem que ninguém queria anunciar

Enquanto o petróleo subia lá fora, a Petrobras segurava os preços internos. O diesel na refinaria estava congelado havia 312 dias — quase um ano inteiro sem reajuste. Mas esse congelamento tem um preço: a chamada defasagem, que é a diferença entre o que a Petrobras cobra no Brasil e o que o combustível vale no mercado internacional.

Na véspera do pacote governamental, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom), a defasagem do diesel havia chegado ao patamar histórico de 85% — e ainda estava em 72% no fechamento da quinta-feira, 12 de março. Para equiparar os preços internos ao mercado externo, a Petrobras precisaria aumentar o diesel em R$ 2,34 por litro. A gasolina também estava defasada: 43% abaixo da paridade internacional, o que corresponderia a um aumento de R$ 1,10 por litro.

Esse é o dilema clássico que toda crise internacional coloca diante do Brasil: ou a Petrobras repassa o aumento para o consumidor — e a inflação explode —, ou ela absorve a diferença — e acumula pressão financeira enquanto o governo busca alternativas. Desta vez, a alternativa foi um pacote estruturado, anunciado na quinta-feira, 12 de março, pelo presidente Lula ao lado dos ministros Fernando Haddad (Fazenda), Rui Costa (Casa Civil) e Alexandre Silveira (Minas e Energia). E nesta sexta-feira, 13, a Petrobras anunciou que reajustou o diesel em 11,6%, de R$ 3,27 para R$ 3,65 por litro nas refinarias — o primeiro aumento em mais de 400 dias, mas parcial, e coberto em parte pelo pacote governamental.

O pacote em detalhes: o que o governo fez

O pacote anunciado pelo governo federal combina quatro grandes instrumentos. O primeiro é a zeragem do PIS/Cofins sobre o diesel. Por meio do Decreto nº 12.875/2026, o governo eliminou os únicos dois impostos federais que ainda incidiam diretamente sobre o combustível. Na prática, isso representa uma redução de R$ 0,32 por litro no preço de saída da refinaria. O PIS (Programa de Integração Social) e o Cofins (Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social) deixaram de ser cobrados sobre a importação e a comercialização do diesel.

O segundo instrumento é a subvenção econômica. A Medida Provisória nº 1.340/2026 autorizou o pagamento de R$ 0,32 por litro a produtores e importadores de diesel, com a condição de que esse benefício seja integralmente repassado ao preço final. A subvenção tem teto de R$ 10 bilhões em recursos públicos. Para garantir que o dinheiro chegue ao consumidor e não fique represado no meio da cadeia, o acesso ao benefício é condicionado à comprovação de repasse efetivo. A Petrobras já confirmou adesão ao programa.

O terceiro instrumento é o imposto sobre exportação de petróleo. Para compensar a renúncia fiscal e o custo da subvenção — sem furar o orçamento público —, o governo criou uma alíquota de 12% sobre as exportações de óleo bruto de petróleo e de 50% para exportações de diesel. A lógica é direta: se o petróleo está caro lá fora, quem exporta está lucrando mais; então que contribua proporcionalmente. A arrecadação estimada é de R$ 15,6 bilhões nos quatro meses iniciais de vigência, compensando a desoneração de R$ 6,7 bilhões do PIS/Cofins e os R$ 10 bilhões da subvenção. No cenário anual projetado, a renúncia total somaria R$ 30 bilhões — e a arrecadação do imposto de exportação cobriria exatamente esse montante.

O quarto instrumento é o de fiscalização e transparência, formalizado pelo Decreto nº 12.876/2026. É aqui que entra a determinação que gerou grande repercussão: os postos de combustíveis passam a ser obrigados a exibir sinalização clara e visível ao consumidor, informando a redução dos tributos federais e o efeito da subvenção no preço. Além disso, a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) recebeu novos poderes de fiscalização, incluindo o combate ao aumento abusivo de preços, à retenção especulativa de estoques e à venda por valores acima do praticado. Em caso de descumprimento, a multa pode chegar a R$ 500 milhões. As medidas de fiscalização têm caráter permanente — ou seja, mesmo quando o cenário de crise internacional se normalizar, os postos continuarão sujeitos a essa obrigação de transparência.

Somados os efeitos da zeragem do PIS/Cofins e da subvenção, o pacote tem potencial de reduzir o preço do diesel em R$ 0,64 por litro, segundo o governo federal. Vale destacar que as medidas têm caráter temporário — válidas até 31 de dezembro de 2026 — e serão revertidas quando as pressões internacionais arrefecerem.

A cadeia do combustível: de quem é a culpa pelo preço alto?

Essa é uma das perguntas mais frequentes — e mais mal respondidas — quando o assunto é combustível no Brasil. A resposta honesta é: de ninguém e de todos ao mesmo tempo, porque o preço final que o brasileiro paga no posto é resultado de uma cadeia com vários elos, e cada um tem sua parcela de influência.

O primeiro elo é a Petrobras, que define o preço de venda do diesel na refinaria para as distribuidoras. Esse valor é influenciado diretamente pelo preço internacional do petróleo e pelo câmbio, já que o barril é cotado em dólares. Em março de 2026, após o reajuste, o preço nas refinarias passou para R$ 3,65 por litro de diesel A (puro). O segundo elo são as distribuidoras, que compram da Petrobras e vendem para os postos, acrescentando sua margem de lucro e os tributos pertinentes. O terceiro elo são os postos revendedores, que compram das distribuidoras e fixam o preço final ao consumidor, com sua própria margem de revenda.

Mas há ainda um quarto elo que muita gente esquece: os tributos estaduais. O ICMS (Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços) é cobrado pelos estados e representa uma fatia relevante do preço final. Desde 2022, com a Lei Complementar 192, o ICMS sobre combustíveis passou a ser cobrado em valor fixo por litro — o chamado modelo ad rem —, e não mais como percentual do preço. Em 2026, a alíquota nacional do ICMS sobre o diesel é de R$ 1,17 por litro, alta de R$ 0,05 em relação a 2025.

Para ter uma ideia da composição geral do preço do diesel nos postos, a distribuição aproximada é a seguinte: a parcela da Petrobras representa a maior fatia, em torno de R$ 3,10 por litro (considerando a mistura com biodiesel); o ICMS estadual é de R$ 1,17; a margem de distribuição e revenda gira em torno de 18% do preço final; e os tributos federais — que agora foram zerados temporariamente — representavam cerca de 5% a 9% do custo. Antes do pacote de março de 2026, a carga tributária total sobre o diesel (somando tributos federais e ICMS estadual) representava cerca de 22% do preço final ao consumidor.

Há ainda o biodiesel a considerar. Por lei, todo diesel vendido nos postos brasileiros é uma mistura que contém 85% de diesel A (de petróleo) e 15% de biodiesel (B15), produzido a partir de fontes vegetais como soja e gordura animal. O biodiesel, por vezes mais caro que o diesel mineral, também pressiona o preço final.

O efeito foguete e pena: por que o preço demora a cair

Existe um fenômeno econômico batizado na literatura científica de “efeito foguete e pena” (rocket and feather, em inglês), cunhado pelo economista Robert Bacon em 1991, durante os impactos da Guerra do Golfo sobre os preços dos combustíveis. A analogia é perfeita para descrever o comportamento dos preços nos postos brasileiros: quando o preço do insumo sobe, o repasse para o consumidor é rápido e integral — sobe como um foguete. Quando o preço do insumo cai, o repasse demora e muitas vezes é incompleto — cai como uma pena.

Esse comportamento assimétrico é amplamente documentado no mercado brasileiro de combustíveis por pesquisas publicadas pela ANP e por acadêmicos especializados. A explicação econômica envolve a estrutura do mercado: quando o preço sobe, o posto que não repassa imediatamente corre o risco de ter prejuízo, então repassa na hora. Quando o preço cai, o posto percebe que o consumidor — que já vai abastecer de qualquer forma no posto mais próximo — não vai necessariamente trocar de posto em busca de centavos a menos. Então o repasse pode esperar. Isso foi dito abertamente pelo ministro Rui Costa ao anunciar o pacote: “Quando é para diminuir, eles retardam a diminuição; quando é para aumentar, eles antecipam.”

Essa assimetria é especialmente prejudicial aos consumidores brasileiros porque o mercado de combustíveis tem características que favorecem esse comportamento: a Petrobras tem participação dominante no refino, o setor de distribuição é concentrado nas mãos de poucas grandes empresas, e o custo de deslocamento para o consumidor muitas vezes inviabiliza a busca por postos mais baratos. Estudos apontam que mais da metade dos postos no Brasil opera vinculada a distribuidoras por contratos de exclusividade, o que limita ainda mais a concorrência no varejo.

É exatamente por isso que o novo decreto exige que os postos sinalizem explicitamente quando os tributos caem — porque sem essa obrigação, a tendência histórica é que a redução não chegue integralmente ao consumidor. Em outros países, como Alemanha, Chile e Coreia do Sul, a criação de aplicativos que exibem os preços em tempo real por posto e geolocalização se mostrou uma solução eficaz para reduzir esse fenômeno, ao aumentar a transparência e facilitar a comparação de preços. No Brasil, a ANP chegou a criar um aplicativo similar (o “ANP no Posto”), mas o encerrou em 2020.

O diesel e a sua conta no supermercado

Poucas pessoas têm carro a diesel. Mas todas têm conta de supermercado. E é aí que o diesel aparece de maneira indireta, mas poderosa. O transporte rodoviário de cargas é o principal modal de logística do Brasil — muito diferente de países como Estados Unidos e Alemanha, onde ferrovias e hidrovias dividem de forma equilibrada esse trabalho. No Brasil, a grande maioria das mercadorias viaja de caminhão, e caminhão roda a diesel.

O diesel representa entre 40% e 60% do custo operacional de uma transportadora, dependendo do tipo de operação e da distância percorrida. Qualquer aumento relevante no preço do combustível se transforma quase automaticamente em aumento de frete. E o frete mais caro significa que alimentos, medicamentos, combustíveis, eletrodomésticos e todos os demais produtos ficam mais caros na ponta do consumo. O impacto do diesel no IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) é difícil de isolar com precisão — especialistas costumam dizer que ele se “espalha” pelo índice, com mais intensidade no grupo de alimentação —, mas é real e mensurável.

O setor de transporte, armazenagem e correio movimentou R$ 395,67 bilhões em 2025, representando uma parcela relevante do Produto Interno Bruto brasileiro de R$ 12,74 trilhões. Sem o diesel rodando, essa engrenagem para. E quando o diesel pressiona o custo de operar caminhões, as transportadoras se veem em uma posição difícil: ou repassam para o frete — e indiretamente para o preço dos produtos — ou absorvem o custo, o que compromete a saúde financeira das operações. A Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística) alertou que a combinação do aumento do ICMS em vigor desde janeiro de 2026 com a pressão do mercado internacional gerou impacto superior a 10% no diesel S10 nas distribuidoras — o equivalente a cerca de R$ 0,60 por litro antes do anúncio do pacote governamental.

Esse efeito cascata também chega ao campo. O agronegócio brasileiro é intensivo no uso do diesel: máquinas agrícolas, caminhões de colheita, irrigação, geração de energia elétrica em propriedades rurais. Quando o diesel sobe, o custo de produção sobe junto, e esse aumento eventualmente aparece no preço dos alimentos nas gôndolas. Não é por acaso que o presidente Lula destacou especialmente a proteção aos caminhoneiros e ao setor agrícola ao anunciar o pacote.

Quanto você paga de imposto a cada litro de diesel

A estrutura tributária dos combustíveis no Brasil é complexa — e frequentemente incompreendida pelo consumidor. Antes do pacote de março de 2026, o diesel carregava os seguintes tributos embutidos no preço final: o ICMS estadual (R$ 1,17/litro desde janeiro de 2026), o PIS/Cofins federal (agora zerado temporariamente) e a CIDE-Combustíveis, fixada em R$ 0,05/litro. Somados, esses tributos representavam cerca de 22% do preço final pago na bomba.

Para efeito de comparação: na gasolina, a carga tributária é proporcionalmente maior, chegando a até 34% do preço final. Isso porque a gasolina ainda carrega o ICMS de R$ 1,57/litro e o PIS/Cofins (que, no caso da gasolina, não foi zerado pelo pacote — a medida se aplica especificamente ao diesel). Uma curiosidade importante: o ICMS sobre combustíveis, ao contrário do que ocorre com outros produtos, é cobrado por um modelo de alíquota uniforme nacional — o mesmo valor em todos os estados —, o que representa uma mudança estrutural implantada pela Lei Complementar 192/2022. Antes disso, cada estado fixava sua própria alíquota percentual, o que gerava enorme variação de preços entre regiões.

Outra particularidade é que o ICMS ad rem, ao ser um valor fixo por litro, tem um comportamento distinto do ICMS ad valorem (percentual). Quando o preço sobe, o percentual que o imposto representa cai (porque o valor nominal permanece o mesmo, mas o preço cresceu). Quando o preço cai, o peso percentual do imposto sobe. Isso cria uma lógica perversa: em momentos de crise, quando os preços sobem, os estados arrecadam proporcionalmente menos. Esse tem sido um ponto de tensão entre governos estaduais e o governo federal desde a implantação do modelo.

A política de preços da Petrobras: entre o mercado e o social

A relação entre o governo e a política de preços da Petrobras é um dos temas mais delicados e recorrentes do cenário político-econômico brasileiro. Durante o governo Bolsonaro, a estatal adotou o chamado PPI (Preço de Paridade de Importação), que alinhava automaticamente os preços domésticos às cotações internacionais e ao câmbio. A vantagem era a previsibilidade para o mercado; a desvantagem era que cada alta do dólar ou do barril se traduzia imediatamente em aumento na bomba — o que aconteceu diversas vezes de forma brusca entre 2021 e 2022.

No governo Lula, a Petrobras abandonou formalmente o PPI e adotou uma abordagem mais discricionária, levando em consideração “fatores de mercado, custos alternativos e perspectivas de longo prazo”. Na prática, isso se traduziu em reajustes menos frequentes e mais graduais — o que permite uma certa proteção ao consumidor em momentos de volatilidade aguda, mas cria o risco de defasagem acumulada, como aconteceu em março de 2026. O ministro Haddad fez questão de deixar claro que o pacote de março não altera a política de preços da Petrobras — a empresa continua com autonomia para definir seus reajustes —, mas que o governo intervém por fora, via tributos e subvenção, para atenuar o impacto ao consumidor final.

Essa engenharia financeira tem custos. A renúncia fiscal com a zeragem do PIS/Cofins representa perda de aproximadamente R$ 20 bilhões em receitas ao longo do período de vigência. A subvenção consome até R$ 10 bilhões adicionais. A compensação vem do novo imposto de exportação, com arrecadação estimada de R$ 30 bilhões — tornando o pacote, ao menos no papel, neutro para as contas públicas em 2026.

A fiscalização que o mercado precisava

A obrigação de que os postos sinalizem claramente a queda nos tributos não é um detalhe cosmético. É uma tentativa de usar a transparência como mecanismo de correção de mercado. A lógica é simples: se o consumidor sabe que o imposto caiu, ele tem uma referência concreta para cobrar que o preço na bomba também caia. Se não sabe, acaba sendo passivo diante de um mercado que tende, historicamente, a reter as quedas e repassar as altas.

Além da sinalização nos postos, a ANP passa a ter instrumentos ampliados de fiscalização. Entre as práticas que poderão ser punidas estão o aumento abusivo de preços e a retenção especulativa de estoques — quando distribuidoras ou postos seguram o combustível esperando que o preço suba mais para vender com margem maior. Essas práticas são difíceis de provar, mas recorrentemente denunciadas em momentos de crise. A multa de até R$ 500 milhões para infratores representa um valor alto o suficiente para ser levado a sério por qualquer agente do setor.

A MP também permite que a Receita Federal compartilhe dados com a ANP para o monitoramento dos preços praticados ao longo da cadeia — o que representa um avanço importante em termos de capacidade regulatória. Até então, a ANP monitorava preços a partir de pesquisas semanais feitas por empresa contratada, um método útil mas limitado. Com acesso a dados fiscais em tempo real, a agência pode identificar padrões de comportamento abusivo muito mais rapidamente.

O que muda para quem abastece

Para o consumidor final que abastece nos postos, o impacto prático do pacote depende de quão rapidamente a cadeia de distribuição repassa os benefícios — e é exatamente aí que o decreto de transparência entra como proteção. Na teoria, a combinação de zeragem do PIS/Cofins e subvenção tem potencial de reduzir o diesel em R$ 0,64 por litro. Mas esse benefício precisa atravessar a refinaria, a distribuidora e o posto antes de chegar à bomba.

O consumidor que abastece num posto credenciado a uma rede como a Baratão Combustíveis — que opera com transparência de preços e compromisso com o consumidor — tem uma vantagem natural: a tendência é que redes organizadas repassem os benefícios mais rapidamente, tanto por questão de competitividade quanto por obrigação regulatória. O momento pede atenção redobrada: compare preços, observe se o posto está sinalizando a redução tributária conforme exigido pelo decreto, e saiba que agora o consumidor tem mais instrumentos legais a seu favor caso perceba práticas abusivas.

Para o caminhoneiro, o impacto pode ser ainda mais significativo. Um veículo pesado que consome em média 400 litros de diesel por semana economizaria, com a redução de R$ 0,64 por litro, cerca de R$ 256 por semana — ou mais de R$ 1.000 por mês. É uma diferença real no custo operacional de quem vive na estrada.

Histórico: o Brasil já fez isso antes?

Intervenções nos preços dos combustíveis não são novidade na história econômica brasileira. Durante a pandemia de Covid-19, o governo Bolsonaro criou um fundo de estabilização de preços (o Fundo Social do Pré-sal) e implementou isenções temporárias de impostos para combustíveis. Em 2022, foi aprovada a Lei Complementar 194, que limitou a cobrança de ICMS sobre combustíveis a 17% (ad valorem), o que gerou queda nos preços ao consumidor, mas também enorme perda de arrecadação para os estados — estimada em mais de R$ 100 bilhões por ano de forma estrutural.

No governo Lula, a reoneração gradual dos combustíveis ocorreu ao longo de 2023, com a reintrodução progressiva do PIS/Cofins sobre gasolina, diesel e gás de cozinha após período de isenção. O pacote de março de 2026 representa, portanto, um movimento inverso: nova desoneração emergencial, mas desta vez com uma fonte de compensação fiscal embutida (o imposto de exportação) e um prazo definido de vigência.

A grande diferença em relação aos episódios anteriores é o componente de transparência e fiscalização, que vai além da questão tributária e endereça diretamente o comportamento dos agentes de mercado — distribuidoras, postos e importadores. Se essa fiscalização efetivamente funcionará é algo que só o tempo dirá, mas a criação legal do instrumento já representa um avanço regulatório concreto.

Curiosidades sobre o diesel no Brasil

Algumas informações menos conhecidas ajudam a entender melhor o papel central desse combustível na economia do país. O Brasil é o maior consumidor de diesel da América Latina. O modal rodoviário responde por cerca de 65% de todo o transporte de cargas do país — um dos percentuais mais altos do mundo para uma economia de grande porte, reflexo da histórica falta de investimento em ferrovias e hidrovias. O diesel S10 (de baixíssimo teor de enxofre) é o tipo mais vendido nos postos e o padrão exigido para veículos mais modernos, por ser menos poluente. Já o diesel S500 ainda circula em máquinas agrícolas e equipamentos mais antigos.

O biodiesel misturado ao diesel mineral chegou a 15% da composição total (B15) em 2025 e 2026 — uma das misturas obrigatórias mais altas do mundo. Isso significa que o Brasil já tem uma parcela renovável relevante em seu diesel, com implicações tanto para o preço final quanto para a emissão de gases de efeito estufa. A produção de biodiesel no Brasil é feita majoritariamente a partir da soja, tornando o preço do combustível sensível também às variações do mercado agrícola. Outro dado relevante: as termelétricas a diesel e óleo contribuem para a geração de energia elétrica especialmente nas regiões mais afastadas da rede — o que significa que o preço do diesel também influencia a conta de luz em algumas partes do Brasil.

O que esperar para os próximos meses

O cenário para os próximos meses depende de fatores que estão, em sua maioria, fora do controle do Brasil. A guerra no Oriente Médio e a situação do Estreito de Ormuz são as principais variáveis. Se as tensões arrefecerem e o petróleo voltar a níveis abaixo de US$ 80 o barril, a pressão sobre o diesel nacional diminui — e o governo pode revogar as medidas antes do prazo de dezembro de 2026. Se as tensões persistirem ou se agravarem, o pacote pode precisar ser ampliado.

Do ponto de vista regulatório, os próximos meses serão um teste importante para a eficácia das novas regras. A ANP terá que provar que seus novos instrumentos funcionam na prática — que as multas são aplicadas, que a fiscalização é efetiva, que a sinalização nos postos é monitorada. Sem aplicação real, a lei se torna apenas retórica. Do ponto de vista do consumidor, o recado é claro: o momento exige atenção, comparação de preços, e consciência de que as regras do jogo mudaram — para melhor.

O diesel é, em muitos sentidos, o termômetro da economia brasileira. Quando ele sobe, tudo fica mais caro. Quando ele estabiliza, o sistema respira. E quando o governo consegue — com inteligência fiscal e regulatória — amortecer uma crise externa antes que ela chegue à bomba do posto ou ao preço do feijão, isso representa exatamente o tipo de política econômica que o brasileiro mais precisa: rápida, transparente e com consequências reais no bolso de quem menos pode pagar mais.

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