E32: Impactos do Novo Percentual de Etanol na Gasolina

O Brasil está prestes a dar mais um passo na sua longa caminhada com os biocombustíveis. Em abril de 2026, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, confirmou que o governo quer elevar o percentual obrigatório de etanol misturado à gasolina de 30% para 32% ainda no primeiro semestre deste ano. A medida, tecnicamente chamada de E32, já está em fase final de estudos e deve ser submetida ao Conselho Nacional de Política Energética, o CNPE, antes de ser implementada nas bombas de combustível de todo o país.

Para quem convive com o setor de combustíveis, a notícia soa como mais um capítulo de uma história que se repete há décadas. Para os motoristas, surge a dúvida: o que muda na prática? Para os especialistas em mecânica e engenharia automotiva, a pergunta é mais precisa: quais motores vão sentir essa mudança e de que forma?

Este artigo responde a todas essas questões de forma completa, trazendo o contexto histórico da mistura etanol-gasolina no Brasil, os dados sobre a frota atual, os impactos técnicos por tipo de veículo, as comparações com outros países e o que pode vir pela frente com o horizonte do E35.

A origem de tudo: o Brasil e o etanol desde o início

A relação do Brasil com o etanol combustível não começou ontem. Ela tem raízes que remontam à década de 1930, quando uma lei federal determinou a adição de 5% de etanol anidro à gasolina importada. Naquele período, o objetivo era criar demanda para o excedente de cana-de-açúcar e reduzir a dependência das importações de petróleo, que já pesavam na balança comercial do país.

O grande salto, porém, aconteceu em 1975. Com os efeitos devastadores da crise do petróleo de 1973 ainda frescos na memória, o governo federal criou o Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, por meio do Decreto nº 76.593. O programa foi uma resposta estratégica à vulnerabilidade energética do Brasil diante do mercado internacional, e também aproveitou a queda nos preços do açúcar para incentivar a produção de etanol a partir da cana. A iniciativa transformou o Brasil em um dos laboratórios mais ousados do mundo em biocombustíveis, e o resultado pode ser visto até hoje nas bombas de todos os postos do país.

Ao longo dos anos seguintes, o percentual de etanol na gasolina foi sendo ajustado de acordo com a oferta do biocombustível, a demanda por gasolina, os preços internacionais do petróleo e decisões políticas de cada governo. A mistura oscilou entre 10% e 22% nas primeiras décadas do Proálcool. Em 1993, a Lei nº 8.723 fixou o percentual obrigatório em 22%, com margem de variação entre 18% e 27,5% conforme questões técnicas e de mercado. Em 2007, o patamar subiu para 25%. Em 2015, foi elevado para 27,5%, consolidado na prática como E27. Em agosto de 2025, após aprovação do CNPE, o percentual saltou para os atuais 30%, inaugurando a era do E30 no abastecimento nacional. Agora, em 2026, o governo já sinaliza o próximo degrau: o E32.

Para entender a dimensão disso, vale uma curiosidade histórica: quando o Proálcool foi criado, a gasolina que chegava às bombas brasileiras tinha apenas cerca de 10% de etanol na mistura. Hoje, estamos falando de mais de um terço do litro vendido como gasolina sendo composto por um biocombustível produzido a partir da cana-de-açúcar. É uma transformação profunda, realizada em etapas ao longo de cinco décadas.

O que é o E32 e como funciona a mistura

Antes de falar sobre impactos, é preciso entender o que está sendo misturado e por quê. A letra E nas denominações como E30 ou E32 vem de “etanol”, e o número representa o percentual em volume desse biocombustível na mistura com gasolina pura. Portanto, no E32, a cada 100 litros de gasolina que chegam às bombas, 32 litros são de etanol anidro e 68 litros são de gasolina propriamente dita.

O etanol usado nessa mistura é o etanol anidro, que é diferente do etanol hidratado vendido nas bombas de álcool puro. O anidro passa por um processo de desidratação que remove quase toda a água da sua composição, tornando-o compatível com a mistura com gasolina. Já o etanol hidratado, aquele que abastece carros que rodam somente com álcool ou veículos flex no modo álcool, mantém uma pequena quantidade de água em sua composição (em torno de 4% a 7%). Essa distinção é importante porque misturar etanol hidratado diretamente à gasolina, prática que ocorre de forma ilegal em alguns postos, produz um combustível com características diferentes do especificado e pode causar danos ao motor.

No âmbito da combustão, o etanol tem algumas características que o diferenciam da gasolina pura. Ele possui menor poder calorífico, o que significa que libera menos energia por litro quando queimado. Em contrapartida, tem maior octanagem, o que favorece a eficiência de combustão em motores modernos com alta taxa de compressão. A octanagem do E30, por exemplo, é de aproximadamente 94 RON, ligeiramente superior à do E27, que fica em torno de 93 RON. Quanto ao E32, espera-se que a octanagem suba um pouco mais, o que pode trazer ganhos em motores projetados para aproveitar esse diferencial.

O etanol também é higroscópico, ou seja, tem a propriedade de absorver a umidade do ambiente. Esse comportamento tem implicações diretas para a durabilidade de componentes metálicos e borrachados do sistema de alimentação do motor, ponto que abordaremos com mais detalhe adiante.

O que motivou a chegada do E32 agora

A decisão de acelerar o aumento do percentual de etanol na gasolina em 2026 não surgiu do nada. Ela está diretamente ligada ao cenário geopolítico internacional, que ficou mais instável com os conflitos no Oriente Médio, especialmente nas tensões entre Estados Unidos, Israel e Irã. Essas tensões afetaram rotas estratégicas de transporte de petróleo, como o Estreito de Ormuz, responsável por mais de 20% do fluxo mundial da commodity. Com a oferta global pressionada, os preços do barril subiram de forma expressiva.

O impacto chegou ao mercado interno. A ANP, Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis, registrou alta de cerca de 8% no preço médio da gasolina nos postos brasileiros em decorrência dessa pressão externa. E um dado estrutural torna o Brasil especialmente vulnerável a esse tipo de variação: o país ainda importa aproximadamente 15% da gasolina que consome. A dependência é ainda maior no diesel, onde as importações respondem por cerca de 30% do consumo nacional.

Nesse contexto, aumentar a participação do etanol, que é produzido internamente a partir da cana-de-açúcar, significa reduzir a exposição do Brasil às oscilações do mercado internacional de petróleo, conter a pressão inflacionária sobre os combustíveis e fortalecer uma cadeia produtiva genuinamente nacional. O governo também ampara a medida na Lei do Combustível do Futuro, marco regulatório aprovado em 2024 que permite elevar a mistura até o E35, desde que respaldada por testes técnicos de viabilidade.

O ministro Alexandre Silveira foi direto ao anunciar a intenção: “Quero aqui, em primeira mão, dizer que nós queremos fazer o E32 em breve, ainda no primeiro semestre deste ano. Vamos concluir os estudos ainda nos próximos 60 dias”. Os testes estão sendo conduzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia, o mesmo que validou a viabilidade técnica do E30 em 2025.

A frota brasileira: quem sente e quem não sente a mudança

Para entender o impacto real do E32 no dia a dia dos motoristas, é fundamental olhar para os números da frota circulante brasileira. O Brasil possui hoje mais de 123 milhões de veículos registrados, sendo a maior frota da história do país. Desse total, os veículos flex respondem por cerca de 76% da frota circulante de automóveis e comerciais leves, segundo levantamento do Sindipeças. Em termos de vendas novas, os modelos flex já representam cerca de 74% do mercado em 2025.

Os veículos flex foram introduzidos no Brasil em março de 2003, com o Volkswagen Gol Total Flex. A tecnologia foi um sucesso comercial imediato: em 2003, representavam apenas 3% das vendas; em 2005, já atingiam 52%; e a partir de 2008, passaram a superar 90% de todos os emplacamentos de veículos leves. Hoje, carros como Fiat Pulse, Chevrolet Tracker e Volkswagen Polo saem de fábrica prontos para receber qualquer proporção de etanol e gasolina, inclusive o etanol puro no tanque, o chamado E100.

Para esse enorme contingente de veículos flex, o E32 representa, na prática, uma mudança quase imperceptível. Seus motores são equipados com sistemas eletrônicos de injeção que identificam automaticamente a composição do combustível e ajustam parâmetros como tempo de ignição e quantidade de combustível injetado. A presença de 32% de etanol em vez de 30% na gasolina está muito abaixo do limite operacional desses motores, que são projetados para funcionar perfeitamente até com 100% de etanol.

O cenário muda de figura quando se olha para a fatia de veículos que só rodam com gasolina. Embora os monocombustíveis a gasolina já respondam por uma parcela reduzida da frota de carros novos (por volta de 5% das vendas em 2025), eles ainda existem em número expressivo na frota circulante, especialmente entre modelos importados e veículos fabricados antes de 2003, época em que o flex ainda não existia.

Motocicletas também merecem atenção especial. Uma parcela significativa das motos vendidas no Brasil ainda é carburada, e esse tipo de motor tende a ser mais sensível a variações no teor de etanol. Nos testes conduzidos pelo Instituto Mauá com a mistura E32, 13 motocicletas apresentaram dificuldades de partida a frio, e 3 unidades falharam ao ligar em baixas temperaturas. Esse dado já é um sinal importante para proprietários de motos mais antigas.

Impactos mecânicos: o que o etanol faz com o motor

Quando o assunto é o efeito do etanol nos motores, a conversa fica mais técnica, mas não menos importante. O etanol é um álcool, e álcoois têm propriedades químicas que diferem significativamente das da gasolina pura. A principal preocupação dos especialistas com o aumento progressivo da mistura está em três frentes: corrosão, degradação de materiais e consumo.

No que diz respeito à corrosão, o etanol é higroscópico, como já mencionado. Isso significa que ele absorve água do ambiente e, quando presente em concentrações mais elevadas, aumenta a umidade dentro do sistema de combustível. Essa umidade pode iniciar processos de oxidação em componentes metálicos que não foram projetados para conviver com níveis elevados de álcool. Peças como pistões, bicos injetores, válvulas e linhas de alimentação podem ter sua vida útil reduzida de forma acelerada quando expostas a esse tipo de combustível em motores que não foram homologados para essas condições.

Materiais como borracha natural, presente em mangueiras, vedações e juntas, também são afetados pelo etanol. O álcool tem um efeito de intumescimento sobre certos compostos borrachados, causando expansão, perda de vedação e, com o tempo, ruptura das peças. Motores mais antigos, especialmente os carburados e os fabricados nos anos 1980 e 1990, usam materiais de qualidade inferior que não resistem bem a altas concentrações de álcool.

Há ainda uma questão que raramente é discutida nos debates públicos: muitos componentes instalados em veículos vendidos no Brasil, mesmo os nacionais, são fabricados em países onde o etanol não é usado como combustível. Esses componentes chegam ao Brasil sem adaptação específica para lidar com os efeitos do álcool em concentrações elevadas, o que pode resultar em falhas prematuras mesmo em modelos mais recentes.

Para veículos importados, o problema é ainda mais agudo. Na Europa, a gasolina padrão contém apenas 10% de etanol (o E10). Na Alemanha, por exemplo, carros fabricados antes de 2012 podem ter problemas ao usar esse percentual. Nos Estados Unidos, a gasolina padrão ainda é o E10, com disponibilidade restrita de E15 em alguns estados. Quando esses veículos chegam ao Brasil e passam a usar gasolina com 30% ou 32% de etanol, estão operando muito além das especificações técnicas para as quais foram projetados, o que representa risco real de danos ao sistema de alimentação.

Consumo e autonomia: o que muda no tanque

Um dos impactos mais diretos para o motorista é o que acontece com o consumo de combustível. O etanol tem densidade energética menor do que a gasolina pura, o que significa que cada litro de etanol libera menos energia durante a combustão. Em termos práticos, quanto maior a proporção de etanol na gasolina, maior tende a ser o consumo de combustível para percorrer a mesma distância.

Essa relação, no entanto, não é totalmente linear. Em motores modernos, especialmente nos turbinados com injeção direta, a octanagem mais alta do etanol pode melhorar a eficiência da combustão, parcialmente compensando a perda de energia por litro. Em motores mais simples, sem calibração específica para aproveitar a octanagem do etanol, o aumento no consumo é mais direto.

Uma forma de enxergar isso na prática é pela regra clássica do etanol hidratado: o etanol puro só é vantajoso economicamente quando seu preço for inferior a 70% do preço da gasolina. Essa regra foi criada considerando a gasolina com 22% de etanol. Com o E30, esse limiar mudou: o etanol hidratado passa a ser competitivo mesmo quando equivale a cerca de 77% do preço da gasolina. Com o E32, essa proporção deve subir um pouco mais, tornando o etanol puro relativamente mais vantajoso para os donos de carros flex em comparação com a gasolina misturada.

Para quem abastece somente com a gasolina da bomba, o efeito mais perceptível do E32 deve ser uma pequena redução na autonomia em relação ao que se tinha com o E27, embora o salto de 30% para 32% seja suficientemente pequeno para não causar impacto dramático no dia a dia.

O impacto no preço da gasolina

Outro ponto que interessa diretamente ao motorista é saber se o E32 vai baratear ou encarecer o combustível nas bombas. A lógica do governo é clara: o etanol anidro, produzido a partir da cana-de-açúcar no Brasil, é mais barato do que a gasolina derivada do petróleo importado. Portanto, aumentar a proporção de etanol na mistura deveria reduzir o custo de produção do combustível final e, consequentemente, baixar o preço para o consumidor.

Com a transição do E27 para o E30, em 2025, o governo estimou uma redução de até R$ 0,20 por litro nas bombas. A adoção do E30 também foi suficiente para que o Brasil voltasse a ser autossuficiente em gasolina após 15 anos importando o produto, o que elimina uma vulnerabilidade importante da matriz energética do país.

Com o E32, a expectativa segue a mesma lógica: mais etanol nacional na mistura, menos gasolina importada, menor custo e potencial de redução no preço ao consumidor. Contudo, o mercado de etanol anidro tem suas próprias oscilações. O aumento da demanda gerado pela nova mistura pode pressionar os preços do biocombustível para cima, parcialmente neutralizando o benefício esperado. A dinâmica depende, em grande medida, da capacidade produtiva do setor sucroenergético de responder ao aumento de demanda sem gargalos de oferta.

A frente técnica: os estudos são suficientes?

Aqui o debate fica mais espinhoso. O governo sustenta que a implementação do E32 seguirá o mesmo rito técnico rigoroso que validou o E30: testes conduzidos pelo Instituto Mauá de Tecnologia, com participação de fabricantes de veículos, importadores e representantes da indústria automotiva.

No entanto, especialistas do setor automotivo têm levantado questionamentos legítimos sobre a metodologia desses estudos. O engenheiro e jornalista especializado Gerson Borini, por exemplo, criticou publicamente a ausência de testes comparativos com linha de base adequada, ou seja, sem avaliar o desempenho com a mistura anterior (E27 ou E30) como referência para medir os efeitos da nova proporção. Segundo ele, o correto seria avaliar os resultados lado a lado para ter uma base de comparação confiável.

Outro ponto de crítica frequente é que os ensaios foram conduzidos majoritariamente com veículos flex de produção recente. Isso deixa de fora uma parcela considerável da frota circulante: carros mais antigos, modelos carburados, motos de baixa cilindrada, importados e veículos que tecnicamente só rodam a gasolina. Para esses, os impactos de longo prazo nunca foram avaliados de forma sistemática, e os custos decorrentes ficam inteiramente sob responsabilidade do consumidor.

Essa lacuna é relevante porque o Brasil possui uma frota com idade média bastante elevada. Não é incomum encontrar carros da década de 1990 ou início dos anos 2000 circulando normalmente pelas ruas das cidades brasileiras, especialmente em regiões com menor poder aquisitivo. Para esses proprietários, cada aumento no percentual de etanol representa um risco adicional de despesa com manutenção que não está previsto nem comunicado de forma clara.

O Brasil no cenário global dos biocombustíveis

Para ter dimensão do que o Brasil representa nesse debate global, é preciso comparar com o que acontece em outros países. A diferença é bastante reveladora.

Nos Estados Unidos, o maior produtor de etanol do mundo, a gasolina padrão contém apenas 10% de etanol (E10). O E15, disponível em alguns estados, ainda enfrenta resistência de parte das montadoras e só foi autorizado para venda durante todo o ano por questões de sazonalidade regulatória em 2022. O etanol americano é produzido principalmente a partir do milho, e o setor tem menos flexibilidade produtiva do que o brasileiro, baseado na cana-de-açúcar.

Na Europa, o padrão é ainda mais conservador. A Alemanha opera com E10, e carros fabricados antes de 2012 podem apresentar incompatibilidades. A União Europeia avança gradualmente, impulsionada por metas de descarbonização, mas está muito longe de chegar às proporções brasileiras. Na Índia, onde a motorização da população cresce rapidamente, o governo implementou o E20 em 2025 como meta nacional, enfrentando desafios com a frota mais antiga, numa situação que guarda semelhanças com o dilema brasileiro.

O Paraguai é o vizinho mais próximo do Brasil em termos de mistura, com cerca de 24% de etanol na gasolina. Argentina, Chile e México trabalham com percentuais entre 2% e 5%. No panorama global, mais de 60 países utilizam algum tipo de mistura obrigatória de biocombustíveis em seus combustíveis, mas 85% de toda a produção mundial de etanol ainda se concentra em três polos: Brasil, Estados Unidos e Europa.

Isso coloca o Brasil em uma posição ímpar. Nenhum outro país do mundo mantém uma proporção tão elevada de etanol na gasolina comercial de uso geral, com uma frota tão amplamente adaptada para isso. O país tem construído esse modelo ao longo de cinco décadas, e o E32 é, sob essa perspectiva, mais um passo numa trajetória consistente de liderança em biocombustíveis.

Benefícios ambientais e energéticos da medida

Do ponto de vista ambiental, o aumento do etanol na gasolina traz vantagens concretas que merecem ser reconhecidas. O etanol de cana-de-açúcar é um biocombustível renovável que, no balanço de ciclo de vida, emite significativamente menos gases de efeito estufa do que a gasolina derivada do petróleo. Isso acontece porque o CO2 liberado na combustão do etanol foi previamente absorvido pela cana durante seu crescimento, num ciclo que é muito mais curto e equilibrado do que o do petróleo.

Estudos internacionais apontam que o etanol de cana-de-açúcar brasileiro pode reduzir as emissões de gases de efeito estufa em até 70% em comparação com a gasolina fóssil, quando considerado o ciclo completo de produção e uso. Isso torna o etanol brasileiro um dos combustíveis com menor pegada de carbono disponíveis no mundo, o que explica o interesse crescente de países como a Dinamarca, através da empresa Maersk, em usar o biocombustível brasileiro até no transporte marítimo.

No campo da segurança energética, cada ponto percentual a mais de etanol na gasolina representa uma redução na quantidade de combustível importado que o Brasil precisa comprar no mercado internacional, reduzindo a exposição às oscilações de preço do petróleo e às crises geopolíticas que historicamente afetam o suprimento global. Com o E32, a dependência de importações de gasolina cai ainda mais, consolidando a autossuficiência conquistada com o E30 em 2025.

Há ainda impactos positivos para a cadeia produtiva. A cada novo percentual de etanol exigido na mistura, cresce a demanda por etanol anidro, o que estimula investimentos nas usinas do setor sucroenergético, gera empregos no campo e nas cidades e movimenta toda a cadeia de logística e distribuição do biocombustível. Com o E30, o governo estimou a criação de mais de 50 mil postos de trabalho e mais de R$ 10 bilhões em novos investimentos. Para o E32, os números ainda não foram oficialmente projetados, mas a tendência é de impacto semelhante, ainda que em escala menor dado o incremento de apenas dois pontos percentuais.

O que esperar a seguir: o E35 está no horizonte

O E32 não deve ser o capítulo final dessa história. A Lei do Combustível do Futuro, aprovada em 2024, já prevê a possibilidade de elevar a mistura até o E35, desde que testes técnicos atestem a viabilidade para a frota circulante. Dentro do próprio governo, já existem estudos preliminares para o E35 com prazo de implementação estimado para 2029.

Mas o E35 levanta questões técnicas ainda mais complexas. Nos testes já realizados com o E32, especialmente com motocicletas, foram identificadas dificuldades de partida em condições de frio. Com o E35, esses problemas tendem a se acentuar, especialmente em regiões mais frias do país, como o Sul do Brasil, onde temperaturas abaixo de 10 graus no inverno são comuns em algumas cidades.

A questão de fundo é: até onde dá para ir com a mistura sem comprometer a experiência do motorista e a durabilidade dos veículos? Especialistas do setor automotivo apontam que o teto técnico para a mistura de etanol anidro à gasolina, sem exigir homologação específica dos veículos, gira em torno de 30% a 35%. Acima disso, as montadoras precisariam reformular motores, sistemas de injeção e materiais para garantir a durabilidade e o desempenho.

O Brasil já passou por situações semelhantes no passado. Quando a mistura foi elevada de E22 para E25, em 2007, e de E25 para E27, em 2015, houve resistência técnica de parte das montadoras e preocupação com os veículos mais antigos. Em todos esses casos, o ajuste foi feito de forma gradual e a frota acabou se adaptando com o tempo. A expectativa é que o mesmo ocorra com o E32, mas a vigilância dos consumidores e do setor automotivo será necessária para identificar e endereçar eventuais problemas antes que se tornem generalizados.

O que o motorista pode fazer na prática

Diante de tudo isso, qual é a postura mais sensata para o motorista médio? A resposta depende do tipo de veículo. Para quem tem um carro flex de produção recente, a resposta simples é: não há nada especial a fazer. O veículo foi projetado para esse cenário e vai se adaptar automaticamente.

Para quem tem um veículo mais antigo, monocombustível a gasolina ou importado, algumas precauções fazem sentido. Reforçar a manutenção preventiva, com atenção especial à inspeção de mangueiras, filtros de combustível e bombas de injeção, é uma medida prudente. Abastecer sempre em postos de confiança, com histórico comprovado de qualidade no combustível, também ajuda a evitar problemas decorrentes de adulterações que podem ampliar os efeitos corrosivos do etanol. O uso de aditivos anticorrosivos para combustível é outra opção que pode ajudar a proteger componentes do sistema de alimentação.

Para proprietários de motocicletas mais antigas, especialmente as carburadas, a atenção deve ser redobrada. A dificuldade de partida a frio já foi registrada em testes com o E32, e a calibração dos carburadores pode precisar de ajuste profissional para lidar com a nova composição do combustível.

Uma longa história que está longe do fim

O E32 é mais um capítulo de uma das políticas públicas mais ambiciosas e duradouras da história brasileira. Desde 1931, quando o Brasil estabeleceu pela primeira vez a mistura de etanol na gasolina, até 2026, quando o governo planeja chegar a 32%, o país construiu uma trajetória única no mundo, combinando segurança energética, geração de emprego, sustentabilidade ambiental e desenvolvimento tecnológico.

Essa trajetória não é perfeita. Há críticas legítimas sobre a metodologia dos testes, sobre os impactos na frota mais antiga e sobre a distribuição dos custos de adaptação, que recaem principalmente sobre os consumidores. Mas há também conquistas concretas: o Brasil é o único país do mundo com uma frota de veículos leves tão amplamente adaptada ao uso de etanol, com uma indústria sucroenergética capaz de responder às demandas de mistura em escala nacional, e com décadas de experiência acumulada em política de biocombustíveis.

O E35, que pode vir em 2029, será o próximo teste dessa capacidade. Enquanto isso, o E32 chega como a resposta brasileira a um cenário global de instabilidade energética, reafirmando o papel estratégico do etanol de cana-de-açúcar na matriz de transportes do país. Se será suficiente para conter a pressão dos preços e manter a competitividade do combustível nacional, só o tempo e o mercado vão dizer. O que já é possível afirmar é que essa história entre o Brasil e o etanol está longe de chegar ao fim.

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