A explosão em um tanque de etanol da Vibra Energia, na madrugada de domingo, 22 de fevereiro de 2026, sacudiu uma cidade inteira e deixou um rastro de perguntas que vão muito além das chamas apagadas pelos bombeiros. Entenda, de ponta a ponta, o que aconteceu, por que aconteceu e o que isso revela sobre a segurança industrial no Brasil.
O que aconteceu: a linha do tempo de uma madrugada que ninguém vai esquecer
Era pouco depois de meia-noite quando os moradores do bairro Vila Americana, em Volta Redonda, no sul do estado do Rio de Janeiro, foram acordados por um estrondo. Quem estava acordado viu o céu alaranjado do lado de lá da janela. Quem dormia acordou com o coração na garganta. A explosão aconteceu no tanque TQ-1310, dentro do terminal terrestre da Vibra Energia, localizado na Avenida Integração. Dois estrondos em sequência, seguidos de um incêndio que rapidamente tomou a parte superior do reservatório. Vídeos gravados por moradores e que circularam nas redes sociais mostravam a enormidade do fogo, com chamas que atingiram alturas impressionantes e iluminaram a noite da cidade.
Três trabalhadores terceirizados estavam no local naquele momento. Todos atuavam em uma atividade de manutenção com solda no equipamento quando a explosão ocorreu. Um deles foi socorrido com ferimentos graves e encaminhado ao Hospital Municipal São João Batista, onde permaneceu internado na UTI. Os outros dois desapareceram. A hipótese mais provável, levantada já nas primeiras horas pelas equipes de resgate, era de que estivessem dentro do tanque ou nas imediações diretas da estrutura no momento do acidente.
O Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro mobilizou cerca de 30 militares e nove viaturas especializadas, incluindo um drone com câmera térmica para monitoramento e busca. As chamas foram controladas ainda na manhã de domingo com o uso de espuma, mas a área permaneceu interditada. O grande desafio que se apresentou logo depois do incêndio não era mais o fogo em si, mas o que restava dentro do tanque: aproximadamente 350 mil litros de álcool etílico combustível, que precisavam ser removidos antes que qualquer equipe pudesse entrar na estrutura danificada para buscar os desaparecidos.
A Prefeitura de Volta Redonda, em conjunto com o Grupamento de Operações com Produtos Perigosos (GOPP) do Corpo de Bombeiros, determinou a evacuação preventiva de todos os moradores que viviam em um raio de 300 metros do terminal. No total, 118 pessoas de 41 famílias da Vila Americana foram retiradas de suas casas e encaminhadas a um hotel da cidade, com transporte e hospedagem custeados pela Vibra Energia. Para quem não sabia onde ir, a Prefeitura instalou uma Sala de Crise na sede da Universidade Federal Fluminense (UFF), onde eram prestados orientação e apoio.
A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) enviou uma equipe técnica ao município e determinou a interdição imediata das operações na base. A operação de transbordo do álcool remanescente foi iniciada com caminhões-tanque, mas avançou em ritmo mais lento do que o esperado, devido a protocolos rigorosos de segurança. Pelo menos 180 mil litros foram transferidos nas primeiras horas. Para concluir a remoção total, outros veículos foram acionados. A Vibra também comprometeu-se a deslocar os familiares dos trabalhadores ferido e desaparecidos, que residiam em outros estados, para que pudessem acompanhar as buscas e o tratamento.
Segundo informações repassadas pela empresa às autoridades, havia um serviço de manutenção com solda em andamento no momento exato da explosão. Essa informação se tornaria o centro de todas as investigações subsequentes.
Quem é a Vibra Energia e o que é um terminal de armazenamento
Para entender o tamanho e o impacto do que aconteceu, é preciso conhecer um pouco mais a empresa envolvida. A Vibra Energia S.A. é a maior distribuidora de combustíveis do Brasil. Ela nasceu da privatização da BR Distribuidora, subsidiária da Petrobras, cujo processo foi concluído em 2019, quando a Petrobras vendeu 71% de suas ações ao mercado. Desde então, a empresa passou a operar de forma independente, listada na Bolsa de Valores sob o ticker VBBR3, e rebatizada como Vibra Energia em 2021. A companhia possui uma rede extensa de terminais, bases de distribuição e postos de combustíveis por todo o território nacional, sendo responsável por uma fatia considerável do abastecimento de gasolina, diesel, etanol e outros derivados de petróleo no país.
O terminal de Volta Redonda, localizado no bairro Vila Americana, era uma das bases operacionais dessa rede. De acordo com dados do setor, a unidade possuía nove tanques de armazenamento, com capacidade nominal total de 28.137 metros cúbicos, o equivalente a mais de 28 milhões de litros. Era responsável pelo fornecimento de álcool, diesel e gasolina às distribuidoras da região e também realizava o bombeamento de óleo combustível para a Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), uma das maiores indústrias do interior fluminense.
Terminais de armazenamento como esse funcionam como entrepostos logísticos. Eles recebem o combustível por caminhões-tanque, navios ou dutos, armazenam temporariamente em grandes reservatórios e redistribuem para postos de combustíveis, indústrias e outros consumidores. A questão de por que esses terminais ficam próximos a áreas residenciais é uma das mais antigas e mal resolvidas do planejamento urbano brasileiro. Em sua maioria, essas instalações foram construídas décadas atrás, quando as cidades eram menores. Com o crescimento urbano desordenado, os bairros avançaram sobre o entorno das indústrias e terminais. Hoje, é comum encontrar esse tipo de infraestrutura encravada em zonas que, na prática, tornaram-se densamente habitadas.
Etanol: o combustível que parece inofensivo, mas não é
O etanol, também chamado de álcool etílico ou simplesmente álcool combustível, é um produto tão presente no cotidiano brasileiro que muita gente subestima o seu potencial de risco em grandes volumes. O Brasil é o segundo maior produtor de etanol do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e o combustível está na bomba de gasolina, nos carros flex e em diversas aplicações industriais. Mas quando falamos de centenas de milhares de litros armazenados em tanques industriais, estamos falando de uma substância com características físico-químicas que a tornam extremamente perigosa em determinadas condições.
O ponto de fulgor do etanol é de aproximadamente 13 graus Celsius, o que significa que ele começa a liberar vapores inflamáveis em temperatura ambiente. Para efeito de comparação, a gasolina tem ponto de fulgor entre -43 e -40 graus Celsius, o que a torna inflamável em temperaturas muito mais baixas. Isso pode parecer indicar que a gasolina é mais perigosa, e em certos cenários de ignição espontânea isso é verdade. Mas o etanol tem uma característica que complica o combate a incêndios de uma forma particular: seus vapores são miscíveis em água, ou seja, se dissolvem nela. Isso significa que a água não apenas não apaga o fogo do álcool como pode, em alguns casos, contribuir para a propagação dos vapores inflamáveis ao se misturar com o líquido.
A volatilidade do etanol é alta. Em temperatura ambiente, ele evapora com facilidade, e esses vapores, sendo mais densos que o ar em certas condições, tendem a se concentrar em pontos baixos de ambientes confinados ou semifechados. Quando esse vapor encontra uma fonte de ignição, como uma faísca elétrica, um ponto quente de solda ou uma chama aberta, o resultado pode ser uma explosão de intensidade considerável. No caso do tanque TQ-1310, que tinha capacidade para aproximadamente 550 mil litros e armazenava cerca de 350 mil litros no momento do acidente, a quantidade de vapor gerado pela evaporação da superfície do líquido era mais do que suficiente para criar uma atmosfera explosiva dentro da estrutura.
Um único litro de etanol, ao evaporar completamente, gera aproximadamente 450 litros de vapor. Em um tanque com centenas de milhares de litros, a equação fica fácil de imaginar.
Para combater incêndios em álcool e outros solventes polares, os bombeiros utilizam espumas especiais denominadas AR-AFFF (Álcool Resistente). Essas espumas formam uma película sobre a superfície do líquido em chamas, isolando-o do oxigênio e suprimindo os vapores. É um processo que exige equipamento adequado, treinamento específico e quantidades consideráveis de produto. A escassez de espuma específica para álcool em muitas guarnições de bombeiros brasileiras é um problema reconhecido no setor e que pode comprometer a eficácia do combate em situações como a de Volta Redonda.
Solda em tanque de combustível: a operação mais perigosa do setor
Entre todos os fatores que podem desencadear um acidente em instalações que armazenam substâncias inflamáveis, a manutenção com solda é historicamente um dos mais letais. Não é exagero dizer que, no contexto da indústria de combustíveis e petroquímica, realizar soldagem nas proximidades de um tanque ativo é considerada uma das operações de maior risco existentes. E os números de acidentes ao longo das últimas décadas em todo o mundo são uma prova silenciosa e dolorosa disso.
O conceito central que explica esse risco é o de atmosfera explosiva, definido tecnicamente pelo acrônimo ATEX, derivado da expressão francesa “Atmosphères Explosibles”. Uma atmosfera explosiva é qualquer mistura de ar com substâncias inflamáveis, seja em forma de gás, vapor, névoa ou poeira, em concentrações tais que uma fonte de ignição pode provocar uma explosão. O ponto crítico é que essa atmosfera pode existir mesmo que o tanque esteja apenas parcialmente cheio, ou mesmo que já tenha sido aparentemente esvaziado, pois os resíduos de produto nas paredes e no fundo continuam evaporando e gerando vapores inflamáveis por horas ou até dias.
A legislação brasileira, especificamente a Norma Regulamentadora 20 (NR-20) do Ministério do Trabalho e Emprego, estabelece requisitos rigorosos para o trabalho em ambientes com líquidos inflamáveis e combustíveis. Entre as exigências para a realização de trabalhos a quente, categoria que inclui soldagem, corte, esmerilhamento e qualquer outra atividade que gere calor, faíscas ou chamas, estão a emissão de uma Permissão de Trabalho (PT), a realização de medições da concentração de vapores inflamáveis no ambiente com equipamentos adequados, o isolamento completo do equipamento, o uso de equipamentos de proteção individual específicos e a presença de um vigia treinado durante toda a operação.
A Permissão de Trabalho é um documento formal que autoriza a execução da atividade após a verificação de que todas as condições de segurança estão atendidas. Ela deve ser emitida por um profissional habilitado, deve ter validade limitada geralmente a um turno de trabalho, e precisa ser renovada a cada nova jornada. Além disso, qualquer alteração nas condições do ambiente, como uma variação na leitura de gás ou uma mudança nas operações do tanque, exige a suspensão imediata da atividade até que a situação seja reavaliada.
A pergunta que os investigadores precisarão responder é: havia uma Permissão de Trabalho válida emitida para aquela soldagem na madrugada de 22 de fevereiro? E as medições de atmosfera foram realizadas antes do início da atividade?
A NR-20 também determina que os trabalhadores que realizam atividades em ambientes com risco de inflamabilidade devem receber treinamento periódico específico, e que os empregadores, incluindo contratantes e contratadas, são solidariamente responsáveis pelo cumprimento das normas de segurança. Esse ponto é central na análise do acidente de Volta Redonda, pois os três trabalhadores envolvidos eram funcionários de uma empresa terceirizada, contratada pela Vibra para realizar a manutenção.
No mundo, os acidentes causados por trabalho a quente em tanques de combustível compõem uma lista longa e trágica. Em 1989, uma explosão em um tanque de hidrocarbonetos na refinaria de Philips Petroleum, no Texas, matou 23 trabalhadores e feriu mais de 130. Em 2005, a Refinaria de Texas City, pertencente à BP, sofreu uma explosão que matou 15 pessoas e feriu cerca de 180, em um acidente que também envolveu falhas em procedimentos de segurança e gestão de riscos. No Brasil, casos semelhantes já ocorreram em refinarias, terminais portuários e bases de distribuição, embora nem sempre tenham recebido a cobertura jornalística proporcional à sua gravidade.
Como se combate um incêndio em tanque de combustível
Combater um incêndio em tanque de combustível é uma das operações mais complexas e tecnicamente exigentes que uma equipe de bombeiros pode enfrentar. Os procedimentos são completamente diferentes de um incêndio convencional, e aplicar as técnicas erradas pode ser não apenas ineficaz como pode piorar significativamente a situação. Por isso, existe um conjunto bastante específico de protocolos que guiam essas operações, desenvolvidos com base em décadas de experiências, estudos e, infelizmente, acidentes.
A primeira coisa que se aprende sobre incêndios em tanques de combustível é que água, no sentido convencional de jogar água sobre as chamas para apagá-las, simplesmente não funciona. A água tem densidade maior que a maioria dos combustíveis, o que significa que ela afunda no líquido em vez de permanecer na superfície onde está o fogo. Ao afundar, ela pode aquecer rapidamente e se transformar em vapor, expandindo de volume de maneira explosiva e projetando o combustível em chamas para fora do tanque, em um fenômeno chamado de slopovers ou, em sua forma mais intensa, boilover.
O boilover é um dos fenômenos mais perigosos em incêndios de tanques. Ele ocorre quando a água acumulada no fundo do tanque, seja proveniente de condensação, precipitação ou operações de combate, é aquecida pela frente de calor que avança gradualmente pelo líquido em chamas. Quando essa frente de calor atinge a camada de água, ocorre uma vaporização violenta e instantânea. O resultado é uma projeção de combustível em chamas a grandes distâncias, que pode atingir equipamentos vizinhos, outros tanques e, sobretudo, os bombeiros e demais envolvidos na operação. Por isso, uma das primeiras ações em qualquer incêndio de tanque é o resfriamento intensivo dos tanques vizinhos, para evitar que o calor irradiado os aqueça ao ponto de criar condições para um novo incêndio ou para um boilover secundário.
No caso de Volta Redonda, a base da Vibra possuía nove tanques. Impedir que o incêndio se propagasse para os demais reservatórios foi uma das prioridades absolutas dos bombeiros nas primeiras horas de operação.
O agente extintor correto para combustíveis líquidos é a espuma. No caso específico do etanol e outros álcoois, é necessário usar espumas formuladas especialmente para solventes polares, conhecidas como AR-AFFF. Essas espumas formam uma membrana protetora sobre a superfície do líquido, impedindo a liberação de vapores e cortando o contato com o oxigênio. A aplicação precisa ser feita de forma delicada e controlada, pois uma aplicação muito agressiva pode romper a membrana de espuma antes que ela se estabilize.
Outro aspecto crítico da operação em Volta Redonda foi a necessidade de aguardar o transbordo do álcool remanescente antes de enviar equipes para o interior do tanque em busca dos desaparecidos. Essa é uma decisão que envolve um dilema humano angustiante: de um lado, a urgência de encontrar os trabalhadores; de outro, o risco real de enviar mais pessoas para dentro de uma estrutura danificada, com atmosfera potencialmente explosiva e risco de colapso estrutural. Os protocolos de segurança são claros: a entrada em espaços confinados após um incêndio só pode ocorrer após a verificação de que a atmosfera está livre de vapores inflamáveis e que a estrutura está estabilizada.
O histórico que ninguém quer repetir: acidentes com tanques de combustível no Brasil e no mundo
O acidente de Volta Redonda não é um evento isolado na história da indústria de combustíveis. Pelo contrário, ele se insere em uma longa sequência de tragédias que ocorreram ao longo das últimas décadas em diferentes países e contextos, quase sempre com causas que se repetem com desconcertante regularidade: falhas em procedimentos de segurança, pressão por produtividade, terceirização mal gerenciada e fiscalização insuficiente.
No Brasil, um dos acidentes mais graves da história recente envolvendo tanques de combustível foi a explosão ocorrida em 2011 no terminal de armazenamento de Biguaçu, em Santa Catarina, que resultou em incêndio de grandes proporções e prejuízos ambientais significativos. Em 2000, o rompimento de um duto da Petrobras na Baía de Guanabara lançou mais de um milhão de litros de óleo no ambiente, um acidente que, embora de natureza diferente, ilustrou a dimensão dos danos que o setor pode causar quando os controles falham. Em 2015, um incêndio em um terminal de combustíveis no Porto de Santos mobilizou dezenas de equipes de bombeiros e revelou deficiências no plano de emergência local.
No cenário internacional, dois casos merecem destaque especial pela amplitude dos danos e pelas lições que geraram. O primeiro é o acidente da Refinaria de Texas City, em 2005, operada pela BP. Uma explosão durante uma operação de partida de uma unidade de isomerização matou 15 trabalhadores e feriu outros 180. A investigação posterior revelou que a empresa havia ignorado sistematicamente alertas internos sobre o estado de deterioração dos equipamentos de segurança, e que a cultura organizacional priorizava a produção em detrimento da segurança. A BP pagou multas e indenizações que somaram bilhões de dólares, e o acidente levou a uma revisão profunda das normas de segurança do setor petroquímico nos Estados Unidos.
O segundo caso de referência é o acidente de Buncefield, no Reino Unido, em dezembro de 2005. Um tanque de gasolina no terminal de armazenamento de Hertfordshire transbordou durante uma operação de enchimento, gerando uma nuvem de vapor que se expandiu por uma vasta área antes de encontrar uma fonte de ignição. A explosão resultante foi a maior ocorrida na Europa desde a Segunda Guerra Mundial em tempo de paz, com ondas de choque sentidas a mais de 200 quilômetros de distância. Quarenta e três pessoas ficaram feridas, mais de duas mil foram evacuadas, e os danos materiais somaram mais de um bilhão de libras. Por uma questão de sorte, o acidente ocorreu num domingo de manhã cedo, quando o complexo industrial e os escritórios vizinhos estavam quase desertos. Se tivesse acontecido num dia útil, o número de vítimas seria incomparavelmente maior.
Os dados globais sobre acidentes em instalações de armazenamento de combustíveis mostram que as causas mais frequentes são falhas em equipamentos de controle e instrumentação, erros humanos durante operações de manutenção, falhas em procedimentos de isolamento e bloqueio, e corrosão não detectada nas estruturas dos tanques. O trabalho a quente inadequado, que parece ser o fator central no caso de Volta Redonda, aparece consistentemente entre as principais causas de explosões e incêndios em instalações industriais ao redor do mundo.
Evacuação: quem decide, como se calcula e o que acontece com quem não tem para onde ir
Uma das dimensões menos discutidas de acidentes industriais como o de Volta Redonda é a logística e a responsabilidade por trás da evacuação de moradores. Para quem não vive em torno de instalações de risco, pode parecer simples: é preciso afastar as pessoas, então elas vão embora. Na prática, o processo é muito mais complexo e envolve uma cadeia de decisões técnicas, legais e humanitárias que precisam ser tomadas rapidamente, muitas vezes no meio da madrugada, sem informações completas.
A decisão de evacuar e o raio da área de evacuação são determinados, em primeira instância, pelos especialistas do Corpo de Bombeiros, em particular pelo Grupamento de Operações com Produtos Perigosos (GOPP). Esses profissionais utilizam uma série de parâmetros para calcular o perímetro de segurança: o tipo e a quantidade do produto envolvido, as condições meteorológicas, a topografia do terreno, que influencia o comportamento dos vapores, e o estado da estrutura danificada. Modelos de dispersão de vapores são utilizados para estimar até onde um eventual vazamento ou nova explosão poderia alcançar.
No caso de Volta Redonda, o GOPP determinou a evacuação de um raio de 300 metros, enquanto informações preliminares do Corpo de Bombeiros chegaram a mencionar um raio de até 800 metros em alguns momentos. Essa variação é comum em situações de emergência, onde os parâmetros são reavaliados continuamente à medida que novas informações chegam. O importante é que o raio de segurança seja suficientemente conservador para proteger as pessoas, mesmo que isso signifique um número maior de evacuados.
A questão de para onde vão as pessoas evacuadas é um problema real e frequentemente subestimado. Em muitos casos, famílias que vivem próximas a instalações industriais têm renda baixa e não têm recursos para se hospedar em hotéis por conta própria, nem redes de apoio social que possam acolhê-las em emergências. No caso de Volta Redonda, a prefeitura providenciou transporte e hospedagem em um hotel para as 118 pessoas de 41 famílias evacuadas, com os custos bancados pela Vibra Energia. Foi também instalada uma Sala de Crise na UFF para orientação e apoio. Essa é, na teoria, a resposta correta. Na prática, sabe-se que nem sempre é assim que acontece.
Há precedentes importantes de evacuações em decorrência de acidentes industriais no Brasil. Em 2019, o rompimento da barragem de Brumadinho, da Vale, em Minas Gerais, causou uma das maiores tragédias da história do país, com 270 mortos e dezenas de comunidades afetadas. Embora de natureza diferente, o caso revelou como a proximidade entre instalações de risco e áreas habitadas é uma bomba-relógio social e de gestão pública. Em 2024, um vazamento de amônia em uma indústria no interior de São Paulo obrigou a evacuação de bairros inteiros e evidenciou a falta de preparo de muitos municípios para lidar com emergências de natureza química.
Responsabilidade jurídica e trabalhista: quem paga a conta quando o acidentado é terceirizado
Um dos aspectos mais sensíveis do acidente de Volta Redonda é o fato de que os três trabalhadores envolvidos eram funcionários de uma empresa terceirizada, contratada pela Vibra para executar o serviço de manutenção. Esse arranjo, cada vez mais comum na indústria brasileira, cria uma série de complexidades jurídicas que frequentemente resultam em disputas prolongadas e dificuldades para as vítimas e suas famílias obterem reparação justa e rápida.
A legislação brasileira, em especial a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) e a Lei da Terceirização (Lei 13.429/2017), estabelece que a empresa contratante, neste caso a Vibra, é responsável subsidiária pelas obrigações trabalhistas e previdenciárias da empresa contratada. Isso significa que, se a empresa terceirizada não puder arcar com as indenizações devidas, a Vibra pode ser acionada para cobrir esses valores. Em algumas interpretações jurídicas, especialmente quando se demonstra que a contratante tinha conhecimento das condições de trabalho ou falhou na fiscalização das atividades da contratada, a responsabilidade pode ser solidária, ou seja, ambas as empresas respondem conjuntamente desde o início.
No âmbito das normas de segurança do trabalho, a NR-20 é explícita ao determinar que o empregador, incluindo o contratante, é responsável por garantir que os trabalhadores terceirizados sejam devidamente treinados e que as atividades sejam realizadas em conformidade com todos os procedimentos de segurança. A emissão da Permissão de Trabalho para atividades de alto risco, como soldagem em tanques com histórico de produto inflamável, é uma responsabilidade que recai sobre a empresa contratante ou sobre uma equipe conjunta. A existência ou não desse documento, e o estado em que estavam os procedimentos no momento do acidente, será um dos pontos centrais da investigação.
Do ponto de vista criminal, o Código Penal brasileiro prevê penalidades para quem, por imprudência, negligência ou imperícia, causar acidente com lesão corporal ou morte. Se a investigação identificar que houve omissão na emissão de documentos de segurança, falha intencional nos procedimentos ou descaso sistemático com as normas, os responsáveis podem responder por homicídio culposo, lesão corporal culposa e exposição a perigo. Em casos mais graves, onde se comprova dolo eventual, a responsabilidade pode ser ainda maior.
A terceirização, quando mal gerenciada, cria uma zona cinzenta de responsabilidade que pode deixar trabalhadores e suas famílias desamparados no momento em que mais precisam de proteção. A investigação do caso de Volta Redonda precisará estabelecer com clareza quem sabia o que, e quando.
Há ainda a dimensão das indenizações civis. As famílias dos trabalhadores desaparecidos e do ferido têm direito a acionar tanto a empresa terceirizada quanto a Vibra por danos materiais e morais. Os danos materiais incluem lucros cessantes, despesas médicas e todas as perdas econômicas decorrentes do acidente. Os danos morais, especialmente em casos de morte ou desaparecimento, envolvem uma avaliação do sofrimento e do impacto emocional sobre os familiares, e podem ser vultosos quando há comprovação de negligência por parte das empresas.
Impacto ambiental: o que acontece quando o etanol vaza em grandes quantidades
Quando se fala em vazamento de combustível e impacto ambiental, a imagem que vem à mente da maioria das pessoas é a de manchas escuras de petróleo em mares e rios. O etanol não deixa manchas visíveis da mesma forma, e isso pode criar uma percepção equivocada de que ele é menos perigoso para o meio ambiente. A realidade, no entanto, é mais nuançada e merece ser bem compreendida.
O etanol é biodegradável, o que é uma vantagem em relação aos hidrocarbonetos aromáticos presentes na gasolina, como o benzeno, o tolueno e o xileno. Em condições favoráveis, microrganismos presentes no solo e na água são capazes de decompor o etanol em gás carbônico e água. Esse processo pode ocorrer em dias a semanas, dependendo da concentração do produto, da temperatura e das condições do ambiente. Em comparação, os hidrocarbonetos da gasolina podem persistir no solo por meses ou anos e têm alto potencial de contaminação de lençóis freáticos.
No entanto, a biodegradabilidade do etanol não significa ausência de impacto. Quando presente em grandes concentrações, o processo de decomposição do álcool consome oxigênio dissolvido na água, em um fenômeno conhecido como demanda bioquímica de oxigênio (DBO). Isso pode provocar a morte de peixes, crustáceos e outros organismos aquáticos por asfixia, em um processo chamado de eutrofização. Em rios e córregos com pouca vazão, o impacto pode ser devastador para a fauna aquática local.
Além disso, há um efeito que os pesquisadores chamam de “efeito cosolvente”: o etanol misturado com gasolina ou diesel aumenta a solubilidade dos hidrocarbonetos aromáticos na água, facilitando a lixiviação desses compostos para os lençóis freáticos. Isso significa que em situações onde o vazamento envolve uma mistura de produtos, como pode ocorrer em terminais que armazenam múltiplos tipos de combustível, o etanol pode paradoxalmente amplificar o impacto ambiental dos hidrocarbonetos mais persistentes.
No caso de Volta Redonda, a proximidade do terminal com o Rio Paraíba do Sul, um dos rios mais importantes da região, era um ponto de atenção. A equipe técnica da ANP e os órgãos ambientais municipais e estaduais monitoraram a situação para identificar qualquer risco de contaminação de corpos d’água. A remoção rápida do produto remanescente do tanque foi também uma medida preventiva do ponto de vista ambiental, além de ser necessária para as buscas pelos desaparecidos.
Vibra Energia: da Petrobras à privatização, e o impacto do acidente no abastecimento
Para entender melhor o peso institucional do acidente, vale detalhar um pouco mais a trajetória da empresa. A BR Distribuidora foi criada em 1971 como braço comercial da Petrobras para distribuição de combustíveis e lubrificantes no Brasil. Durante décadas, operou como empresa pública e tornou-se a maior distribuidora de combustíveis do país, uma posição que mantém até hoje. Em 2017, o governo federal anunciou a venda de sua participação na empresa como parte de um programa de desinvestimentos da Petrobras, e em 2019 o processo foi concluído, com a Petrobras reduzindo sua participação a menos de 38%. Em 2021, a empresa foi rebatizada como Vibra Energia e adotou uma nova identidade visual e estratégica.
Hoje, a Vibra Energia é uma companhia de capital aberto com ações negociadas na B3. Ela conta com uma rede de mais de oito mil postos de combustíveis sob a bandeira BR, além de terminais de distribuição, bases de aviação e uma divisão de lubrificantes. É a principal distribuidora de combustíveis do Brasil em volume, responsável por uma parcela expressiva do abastecimento de gasolina, diesel e etanol no mercado nacional.
Com a interdição da base de Volta Redonda determinada pela ANP, a empresa precisou acionar rotas logísticas alternativas para garantir o abastecimento da região. Em nota oficial, a Vibra informou que o polo supridor seria remanejado para as bases de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, e São José dos Campos, em São Paulo. A empresa garantiu que não haveria risco de desabastecimento na região, mas o rearranjo logístico implica custos adicionais e pode, em situações de alta demanda, gerar pressões pontuais de abastecimento.
Do ponto de vista financeiro, acidentes dessa natureza têm impactos que vão além dos custos imediatos de resposta emergencial e indenizações. Multas ambientais e regulatórias, custos de investigação, possíveis ações judiciais coletivas e o dano reputacional junto a investidores e reguladores são consequências de longo prazo que podem afetar o valor de mercado da empresa e sua capacidade de captar recursos. Após o acidente de Brumadinho, por exemplo, as ações da Vale despencaram significativamente nas primeiras semanas após a tragédia, e a empresa levou anos para estabilizar completamente sua imagem junto ao mercado e à sociedade.
O que a lei exige e o que muitas vezes não é cumprido
O Brasil não é um país sem legislação sobre segurança em instalações de armazenamento de combustíveis. Pelo contrário, o arcabouço normativo é robusto e, em muitos aspectos, alinhado com as melhores práticas internacionais. O problema crônico não é a falta de normas, mas a distância entre o que está escrito nos documentos e o que acontece na prática do dia a dia das operações industriais.
A ANP é o principal órgão regulatório do setor e tem competência para fiscalizar terminais de armazenamento, refinarias, distribuidoras e postos de combustíveis. As resoluções da agência estabelecem requisitos técnicos para a construção, operação e manutenção de instalações de armazenamento, incluindo padrões de inspeção periódica dos tanques, requisitos para sistemas de detecção de vazamentos e alarmes, e exigências de planos de resposta a emergências. A ANP pode autuar empresas, aplicar multas e, em casos mais graves, interditar operações, como fez com a base da Vibra em Volta Redonda após o acidente.
As normas da ABNT, especialmente a série NBR 17.505, que trata de armazenamento de líquidos inflamáveis e combustíveis, definem padrões técnicos detalhados para a construção e operação de tanques, distâncias de segurança entre reservatórios e em relação a áreas habitadas, sistemas de contenção de vazamentos, requisitos de ventilação e muitos outros aspectos. Essas normas têm caráter técnico e são frequentemente incorporadas por referência em resoluções da ANP e em legislações estaduais e municipais de uso e ocupação do solo.
A NR-20, já mencionada anteriormente, é a norma que regula especificamente as condições de segurança e saúde no trabalho com inflamáveis e combustíveis. Ela abrange tudo, desde os requisitos de treinamento dos trabalhadores até os procedimentos para trabalhos a quente, passando pelos sistemas de detecção de vapores e os planos de emergência internos das empresas. Em 2023, a NR-20 passou por uma revisão ampla que atualizou alguns dos seus requisitos e incorporou novas exigências relacionadas à gestão de riscos em processos.
O problema real reside na fiscalização. O Brasil tem uma estrutura de fiscalização do trabalho e das normas ambientais que historicamente sofre com falta de recursos, equipe insuficiente e, em alguns casos, pressões políticas e econômicas que limitam sua atuação. O número de auditores fiscais do trabalho no Brasil é significativamente inferior ao recomendado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) para um país com o tamanho da nossa força de trabalho. O resultado é que muitas empresas passam anos sem receber uma inspeção aprofundada, e as irregularidades se acumulam silenciosamente.
Há também o problema da cultura de segurança. Em muitas organizações, especialmente naquelas com intensa pressão por produtividade e redução de custos, a segurança é tratada como um custo a ser gerenciado em vez de como um valor a ser cultivado. Procedimentos são ignorados quando aumentam o tempo de uma operação. Permissões de Trabalho são emitidas de forma burocrática, sem a verificação real das condições. Treinamentos são realizados para cumprir tabela, sem garantir que os trabalhadores de fato internalizaram os conhecimentos necessários. Essa é a tragédia silenciosa que precede as tragédias ruidosas, como a de Volta Redonda.
A explosão de um tanque não acontece do nada. Ela é quase sempre o resultado de uma série de decisões erradas, alertas ignorados e procedimentos negligenciados que se acumulam ao longo do tempo até que um evento precipitante, uma faísca, um erro humano, uma falha de equipamento, transforma tudo aquilo em fogo e fumaça.
A investigação do acidente de Volta Redonda precisará examinar não apenas o que aconteceu naquela madrugada específica, mas o histórico de manutenção do tanque TQ-1310, os registros de inspeção, os documentos de segurança relativos à atividade de soldagem, o treinamento dos trabalhadores terceirizados e a gestão do contrato entre a Vibra e a empresa que forneceu a mão de obra. Somente com esse quadro completo será possível compreender as causas reais do acidente e, mais importante, evitar que ele se repita.
Enquanto isso, 118 pessoas dormiram fora de suas casas na noite de domingo. Dois trabalhadores continuavam desaparecidos. Um homem estava na UTI. E uma cidade inteira carregava, no cheiro de fumaça que ainda pairava no ar, o peso de uma pergunta que deveria incomodar a todos nós: até quando vamos esperar uma tragédia para lembrar que a segurança não é opcional?