Gasolina no Brasil Está 10% Mais Cara Que no Exterior, Aponta ABICOM

O alerta da ABICOM

Imagine que você está no posto de gasolina, enchendo o tanque do seu carro, e de repente descobre que, se os preços seguissem as regras do mercado global, você poderia pagar cerca de R$ 0,28 a menos por litro. Isso não é ficção: é o que revela a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (ABICOM), em um alerta recente que agitou o debate sobre os preços dos combustíveis no Brasil. Emitido em 6 de outubro de 2025, o comunicado da entidade aponta que a gasolina comum está, em média, 10% mais cara no país do que a paridade internacional de importação (PPI), uma referência técnica que compara os custos de produção e importação com os valores globais.

*Imagem gerada por IA.

Para entender o peso dessa denúncia, é essencial contextualizar quem é a ABICOM. Fundada em 2017, a associação representa os importadores independentes de combustíveis, aqueles que trazem derivados de petróleo de fora para competir no mercado nacional. Com o Brasil sendo um grande produtor de petróleo, mas ainda dependente de importações para certos polos regionais, esses players são cruciais para fomentar a concorrência e evitar monopólios. O alerta da ABICOM não é um lamento isolado: ele reflete uma distorção no mercado que, segundo a entidade, pode custar bilhões aos consumidores brasileiros anualmente. Em um país onde mais de 40 milhões de veículos rodam com gasolina, essa diferença de 10% não é só um número abstrato – é um impacto direto no dia a dia de famílias, empresas e na economia como um todo.

O dado principal é impactante: se os preços internos se alinhassem à PPI, o litro da gasolina poderia cair em média R$ 0,28, o que equivaleria a uma redução de cerca de 4,5% no preço atual, que gira em torno de R$ 6,20 a R$ 6,43 por litro, dependendo da região. Em alguns polos mais isolados, como Itacoatiara, no Amazonas, a diferença chega a 13%, ampliando o descompasso. Essa distorção representa não apenas uma oportunidade perdida de alívio no bolso, mas também um sinal de alerta para a saúde do mercado de combustíveis. Por que isso acontece? Em essência, porque os preços internos não estão acompanhando as quedas observadas no exterior, apesar de fatores globais como o preço estável do barril de petróleo e um câmbio mais controlado.

Para ilustrar, pense na gasolina como um produto globalizado: o petróleo é extraído em poços no Oriente Médio ou no pré-sal brasileiro, refinado em plantas industriais e transportado para bombas em todo o mundo. Quando o Brasil cobra mais que a média internacional, isso sugere que algo na cadeia local – seja política de preços, logística ou concorrência – está inflando os valores. A ABICOM não está sozinha nessa crítica: analistas de mercado e até o governo federal já ecoaram preocupações semelhantes em anos anteriores. Mas, em 2025, com a inflação ainda pressionando o custo de vida, esse alerta ganha contornos urgentes.

Essa denúncia chega em um momento delicado para a economia brasileira. Com o PIB crescendo modestamente e o desemprego rondando os 7%, os combustíveis são um dos itens que mais pesam no orçamento familiar – representando até 5% das despesas mensais de uma família média urbana. Além disso, a gasolina influencia indiretamente outros setores, como transporte de cargas e alimentos, alimentando a espiral inflacionária. O que a ABICOM propõe? Uma revisão urgente das práticas de precificação pelas grandes refinadoras, como a Petrobras e a Acelen, para restaurar a paridade e incentivar a importação competitiva.

Em resumo, o alerta da ABICOM é um chamado à ação: o Brasil não pode se dar ao luxo de ignorar distorções que encarecem o essencial. Nas próximas seções, vamos mergulhar nos detalhes, explicando conceitos, impactos e perspectivas, de forma simples e passo a passo, como se estivéssemos conversando em uma mesa de café. Afinal, entender o porquê é o primeiro passo para cobrar mudanças.

O que é a Paridade de Importação (PPI)

Agora que entendemos o alerta da ABICOM, vamos ao básico: o que diabos é essa Paridade de Importação (PPI)? Pense na PPI como uma “régua internacional” para medir se os preços de combustíveis no Brasil estão justos. Em termos simples, ela calcula quanto custaria importar a gasolina pronta do exterior, considerando todos os custos envolvidos – do barril de petróleo no mercado global até o litro chegando ao porto brasileiro. É como se você fosse comprar um produto importado na Amazon: o preço final inclui o valor na origem, frete, impostos de importação e taxas alfandegárias. Se o preço local for maior que essa régua, há uma distorção.

O conceito de PPI foi formalizado no Brasil em 2016, mas suas raízes vêm de práticas globais. Para calcular a PPI, levam-se em conta quatro pilares principais:

  1. Preço internacional do petróleo: O barril de Brent (referência europeia) ou WTI (americana) dita o custo base. Em outubro de 2025, o Brent está estável em torno de US$ 75-80, uma queda de 10% em relação a picos de 2024. Como o petróleo é 70-80% do custo da gasolina, variações aqui reverberam diretamente.
  2. Custos logísticos: Frete marítimo, seguros e transporte interno. Com o Canal de Suez mais estável em 2025, esses custos caíram 5-7% no ano, mas ainda representam 10-15% do PPI.
  3. Câmbio: O dólar alto encarece importações. Com o real em R$ 5,60 por dólar em outubro de 2025, isso pressiona os valores. Uma desvalorização de 1% no câmbio pode elevar a PPI em 0,5-1%.
  4. Impostos e margens: No Brasil, ICMS (variável por estado, média 25-30%), PIS/Cofins (cerca de 10%) e Cide (R$ 0,10/litro) somam até 45% do preço final. A PPI não inclui esses, focando no custo “puro” de importação.

Historicamente, a Petrobras adotava a PPI como âncora para seus preços às distribuidoras, reajustando semanalmente para refletir o mercado global. Isso trouxe transparência, mas também volatilidade – lembre-se das greves de caminhoneiros em 2018, quando o diesel subiu 10% em um mês. Em 2023, porém, veio a mudança: sob pressão do governo Lula, a estatal anunciou um “modelo alternativo ao PPI”, com maior flexibilidade. O que isso significa na prática? Em vez de seguir cegamente a paridade, a Petrobras agora considera fatores locais, como estoques, demanda sazonal e até o “interesse nacional”. O objetivo era suavizar oscilações, evitando repasses imediatos de quedas no barril para o consumidor – ou altas, diga-se de passagem.

Essa flexibilidade, no entanto, abriu espaço para críticas. A ABICOM argumenta que ela permite atrasos em reduções, como visto em 2025, quando o petróleo caiu 8% desde junho, mas os preços internos mal se mexeram. Não para por aí: a Acelen, controladora da Refinaria de Mataripe (BA), adota uma estratégia própria de precificação desde sua privatização em 2021 pelo Mubadala (fundo soberano dos Emirados Árabes). Diferente da Petrobras, a Acelen mantém uma versão mais rígida da PPI, mas com autonomia para ajustes regionais – o que, ironicamente, contribui para a média nacional inflada, já que Mataripe abastece o Nordeste e Norte.

Para visualizar, veja esta tabela simples de componentes da PPI em outubro de 2025 (valores aproximados em R$/litro, sem impostos):

Componente Valor Estimado % do Total PPI
Petróleo Bruto 3,50 70%
Refino e Logística 0,80 16%
Margem Importador 0,30 6%
Câmbio e Outros 0,40 8%
Total PPI 5,00 100%

Fonte: Cálculos baseados em dados ABICOM e ANP.

Em resumo, a PPI é uma ferramenta didática para julgar a “justiça” dos preços. Sua flexibilização em 2023 trouxe estabilidade, mas, como alerta a ABICOM, pode estar criando bolhas locais. Entender isso é chave para o debate: sem paridade, o risco é de um mercado menos competitivo, onde o consumidor paga a conta.

Diferença de preços: Brasil x Exterior

Com o conceito de PPI claro, vamos ao coração da denúncia: por que a gasolina brasileira está 10% acima da paridade? A ABICOM calculou isso comparando o preço médio de venda das refinarias (Petrobras e Acelen) com a PPI atualizada semanalmente. Em outubro de 2025, o preço interno médio é de R$ 5,50/litro (sem impostos), enquanto a PPI indica R$ 5,00/litro – uma diferença de R$ 0,50, ou 10%. Mas como se forma essa discrepância?

O cálculo da ABICOM é meticuloso: eles pegam cotações diárias do Brent (US$ 78/barril), convertem pelo câmbio PTAX (R$ 5,62/US$), adicionam custos de frete (US$ 10-15/tonelada para rotas da Ásia/EUA) e margens de refino (US$ 5-7/barril). Resultado: uma PPI que, em dólares, equivale a cerca de US$ 0,89/litro – alinhada aos preços nos EUA (US$ 0,84/galão, ou US$ 0,22/litro ao consumidor, mas ajustada para importação). No Brasil, isso se traduz em R$ 5,00/litro puro, mas as refinadoras cobram R$ 5,50, inflando o custo final para R$ 6,20 nos postos.

Essa diferença não é nova, mas inverteu o padrão. Em 2022-2023, com o petróleo nas alturas (US$ 100+), o Brasil tinha gasolina 5-10% mais barata que a paridade, graças a subsídios implícitos da Petrobras. Agora, o inverso: preços internos resistem às quedas globais. Para comparar, veja esta tabela de preços médios (outubro 2025, sem impostos):

Região/Mercado Preço (R$/litro) % vs PPI Diferença (R$)
Brasil (Média) 5,50 +10% +0,50
EUA (Importação) 4,95 (convert.) Base
Europa (Brent adj.) 5,10 +2% +0,10
Itacoatiara (AM) 5,65 +13% +0,65
Santos (SP) 5,20 +4% +0,20

Fonte: ABICOM e Global Petrol Prices.

Gráficos mentais ajudam: imagine uma linha descendente para o preço global (de US$ 85 em julho para US$ 78 agora), mas uma plataforma estável no Brasil. Isso cria uma “montanha” de R$ 0,50/litro. Em termos anuais, para 50 bilhões de litros consumidos, são R$ 25 bilhões extras – dinheiro que poderia circular em outros setores.

O que explica isso? Atrasos na repactuação pela Petrobras, que prioriza margens de lucro (lucro de R$ 200 bi em 2024), e a Acelen, focada em rentabilidade regional. Importadores independentes, representados pela ABICOM, importam só 15% do volume, limitados por esses preços altos. Em períodos passados, como 2020 (pandemia), o Brasil foi 15% mais barato, atraindo exportações. Hoje, o risco é o oposto: desincentivo à importação.

Essa comparação Brasil x exterior não é só acadêmica – ela destaca vulnerabilidades. Países como EUA e México ajustam semanalmente à paridade, mantendo concorrência. No Brasil, o vaivém cria incertezas. A lição? Monitorar a PPI é como checar o termômetro: febre de 10% merece atenção médica urgente.

Impactos diretos no bolso do motorista

Traduzindo números frios em dor de cabeça real: quanto isso custa ao motorista comum? Vamos a um exemplo didático. Suponha um tanque de 50 litros, enchido semanalmente. Com o preço atual de R$ 6,20/litro, você gasta R$ 310 por abastecimento. Se alinhado à PPI (R$ 5,92/litro após redução de R$ 0,28), cai para R$ 296 – uma economia de R$ 14 por tanque, ou R$ 56/mês, R$ 672/ano por carro. Para uma família com dois carros, são R$ 1.344 extras por ano – o equivalente a um mês de supermercado.

Mas varia por região. No Sudeste (SP/RJ), onde o preço médio é R$ 6,10, o impacto é R$ 14/tanque. No Norte (AM), com R$ 6,50 e diferença maior (13%), chega a R$ 18/tanque – agravado por distâncias longas. No Sul (RS), R$ 6,30, economia de R$ 15. Uma tabela regional ilustra:

Região Preço Médio (R$/l) Economia Potencial/Tanque 50L (R$) Impacto Anual/Carro (R$)
Sudeste 6,10 14 728
Nordeste 6,25 15 780
Norte 6,50 18 936
Centro-Oeste 6,20 14 728
Sul 6,30 15 780

Fonte: ANP e ABICOM, outubro 2025.

Além do bolso imediato, há o efeito cascata no custo de vida. Transporte público, frete de caminhões e apps de delivery repassam 20-30% dos aumentos de combustível. Em 2025, com inflação em 4,8%, os combustíveis contribuem com 0,5-1 p.p. – uma “taxa invisível” que erode o poder de compra. Para motoristas de Uber ou caminhoneiros autônomos, o extra de 10% pode significar perda de 5-10% na renda mensal.

E a inflação? Estudos do IBGE mostram que uma queda de 5% na gasolina reduz o IPCA em 0,2-0,3 p.p., aliviando alimentos e serviços. Em 2025, com juros altos, isso poderia permitir cortes na Selic, estimulando o crescimento. No fim, o desalinhamento não é só econômico: é social, afetando mais os de baixa renda, que gastam 10% da renda em mobilidade.

O recado é claro: R$ 0,28/litro parece pouco, mas multiplicado por milhões, é um fardo coletivo. Hora de os preços refletirem o mundo real.

O papel da Petrobras e da Acelen

No centro do furacão estão as gigantes: Petrobras e Acelen. A Petrobras, com 70% do mercado de refino, define o tom. Sua política de preços mudou em maio de 2023, abandonando o PPI rígido por um “modelo flexível” que inclui “fatores domésticos” como demanda e estoques. Resultado? Menos volatilidade, mas atrasos em quedas – como em 2025, quando reduziu diesel em 5% em junho, mas gasolina só 2%, apesar da paridade sugerir 8%.

A Acelen, dona da RLAM (Mataripe, BA), opera de forma autônoma desde 2021. Privatizada por R$ 9,6 bi ao Mubadala, ela abastece 10% do mercado, focando no Nordeste. Sua estratégia? Uma PPI adaptada, com margens maiores para cobrir investimentos (R$ 1 bi/ano em upgrades). Em 2023, recusou seguir a Petrobras em cortes, alegando “sustentabilidade”, o que elevou preços locais em 3-5%.

A concorrência limitada agrava: importadores independentes têm só 15% de share, barrados por contratos exclusivos e logística dominada pelas estatais. Isso cria um oligopólio, onde preços não caem com o petróleo. Especialistas notam que, sem mais players, o risco de cartelização cresce – vide multas do CADE em 2024 por “alinhamentos informais”.

Para equilibrar, a ABICOM clama por regulação: auditorias na ANP para transparência e incentivos a importações. O papel delas? Ser guardiãs do equilíbrio, não gatekeepers de lucros.

Como o câmbio e o preço do barril influenciam

Vamos descomplicar a dança do dólar e do barril. Imagine o petróleo como matéria-prima: um barril a US$ 78 custa R$ 438 (câmbio R$ 5,62). Isso vira 159 litros de gasolina bruta, ou R$ 2,75/litro base. Adicione refino (R$ 1,00) e logística (R$ 0,75): PPI em R$ 4,50-5,00.

Correlação: 1% de alta no barril eleva PPI em 0,7%; no dólar, 0,5%. Em 2025, barril caiu 8% desde jan (US$ 85 para 78), dólar estabilizou em 5,6% (de 5,2%). Teoria diz: PPI deveria cair 6-7%, mas preços internos caíram só 2% – reforçando o argumento da ABICOM de “atraso deliberado”.

Didaticamente: se barril e câmbio fossem vilões, veríamos altas; aqui, estabilidade global vs rigidez local. Gráfico conceitual: linha azul (barril) descendente, linha vermelha (preço BR) plana. Lição: dependência externa exige agilidade interna.

O que dizem governo e especialistas

O governo federal, via Ministério de Minas e Energia, pressiona: em julho 2025, Alexandre Silveira disse que “Petrobras pode baixar mais”, citando paridade. Petrobras rebate: “Política flexível protege estoques”, em nota.

Especialistas alertam: Edmar de Almeida (UERJ) avisa que desalinhamento desestimula importações, risco de desabastecimento como 2021. Adrian Cooper (economista) vê “perda de competitividade”, podendo elevar inflação em 0,5 p.p. se prolongado. Consensus: equilíbrio é essencial para evitar crises.

Histórico: o vaivém da política de preços

Desde 2016 (governo Temer), PPI trouxe transparência, mas volatilidade – 58 reajustes em 3 meses. Dilma congelou preços (2011-2016), gerando prejuízos de R$ 100 bi. Bolsonaro manteve PPI, mas com subsídios em 2022. Lula, em 2023, flexibilizou para “estabilizar”. Linha do tempo:

  • 2016: Adoção PPI, fim de congelamentos.
  • 2018: Greve caminhoneiros, diesel +10%.
  • 2020: Pandemia, preços -30%.
  • 2022: Guerra Ucrânia, +50%.
  • 2023: Fim formal PPI.

Debate: autossuficiência (pré-sal) vs paridade (concorrência). Politicamente sensível, impactou eleições.

Perspectivas para o curto prazo

Nas próximas semanas, quedas no barril (projeção US$ 75 fim-2025) podem forçar reajustes – Petrobras sinaliza corte de 3-5% em nov. Pressões políticas crescem com eleições municipais; distribuidoras podem absorver margens. Para importadores, diferença alta abre janelas: +20% importações se paridade voltar, elevando competitividade.

Riscos: se ignorado, desabastecimento regional; otimismo: regulação ANDE pode equilibrar.

O desafio de equilibrar preço e mercado

Equilibrar consumidor, competitividade e sustentabilidade é o xadrez do setor. Há margem técnica para R$ 0,28 menos – mas depende de política comercial sensata e petróleo global estável. A ABICOM acerta: hora de ação. Que o alerta vire alívio no posto.

Perguntas frequentes

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