O dia 19 de maio de 2026 vai entrar para a história do transporte por aplicativo no Brasil. Nessa data, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, em São Paulo, a Medida Provisória nº 1.359/2026, que criou o Move Aplicativos, um programa de financiamento de veículos novos voltado exclusivamente para motoristas de aplicativo, taxistas e cooperativas de táxi. Com R$ 30 bilhões em crédito disponibilizado pela União, o programa promete mudar de forma concreta a relação dessa categoria com o próprio instrumento de trabalho: o carro.

A medida foi lançada em um momento em que o debate sobre as condições de trabalho dos motoristas de plataforma está no centro da agenda política e econômica do país. Após o governo federal não conseguir aprovar no Congresso uma regulamentação ampla para os trabalhadores de aplicativo, o Move Aplicativos surgiu como uma resposta direta às demandas da categoria, especialmente a dificuldade de acessar crédito para adquirir um veículo próprio em condições compatíveis com a renda média desses profissionais.
O programa faz parte do guarda-chuva do Move Brasil, iniciativa mais ampla do governo federal que já vinha oferecendo linhas especiais de financiamento para caminhões, ônibus e implementos rodoviários. Agora, pela primeira vez, os motoristas de transporte individual de passageiros entram nesse conjunto com uma linha própria, pensada para as particularidades da categoria.
Para quem vive de rodar pelas cidades brasileiras, essa pode ser uma das maiores oportunidades financeiras dos últimos anos. Mas, como todo programa de crédito, ele tem regras, prazos e condições específicas que precisam ser compreendidas antes de qualquer decisão. Esta matéria explica tudo o que você precisa saber.
O que é o Move Aplicativos e de onde veio
O Move Aplicativos não nasceu do nada. Ele é a resposta mais concreta que o governo federal encontrou para uma realidade que vem se consolidando há anos no Brasil: o crescimento explosivo do trabalho por plataformas digitais de transporte e a precariedade financeira que ainda marca a vida de grande parte desses profissionais.
O programa está formalmente vinculado ao Move Brasil, conjunto de políticas de renovação de frota e estímulo à mobilidade sustentável que o governo vem estruturando ao longo dos últimos anos. Antes do Move Aplicativos, o programa já contemplava transportadores de cargas, empresas de ônibus e operadores de máquinas agrícolas. A inclusão dos motoristas de app e taxistas representa uma expansão significativa, tanto em público-alvo quanto em volume de recursos.
A Medida Provisória nº 1.359 foi publicada em edição extra do Diário Oficial da União na noite de 19 de maio de 2026. Como toda medida provisória, ela entra em vigor imediatamente após a publicação, mas precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado em até 120 dias para não perder a validade. O processo de tramitação no Congresso será, portanto, um ponto de atenção para os motoristas que pretendem participar do programa.
O lançamento aconteceu em um evento realizado na Casa de Portugal, em São Paulo, com a presença do vice-presidente Geraldo Alckmin, ministros, presidentes de bancos, representantes de entidades patronais como Febraban e Anfavea, além de sindicalistas e lideranças da categoria. O tom do evento foi de celebração, mas também de compromisso com uma pauta que vinha acumulando pressão por parte dos trabalhadores de plataforma.
“Muitas vezes um companheiro que trabalha de Uber prefere alugar o carro porque a manutenção é muito cara. Mas com o carro novo, a manutenção vai ser mais rara. E o que vai acontecer é que você estará pagando metade do que você pagava e com um patrimônio que será seu. Esse dinheiro vai sobrar para o seu filho, para a sua mulher e para a sua filha”, disse o presidente Lula durante o lançamento do programa.
A fala de Lula resume bem o argumento central do Move Aplicativos: transformar o motorista de inquilino de um carro em proprietário de um patrimônio, com parcelas mensais mais baixas do que o aluguel que paga hoje e com a segurança de um veículo novo.
Quem pode participar: os critérios de elegibilidade
O programa tem um público-alvo bem definido, e os critérios de elegibilidade foram pensados para garantir que os recursos cheguem a quem realmente vive do transporte por plataforma.
Para os motoristas de aplicativo, os requisitos são dois. O primeiro é ter cadastro ativo em uma plataforma de transporte por pelo menos 12 meses. O segundo é comprovar no mínimo 100 corridas realizadas nesse período, na mesma plataforma. A confirmação dessas informações não precisará ser feita pelo próprio motorista com documentos em papel. As empresas de aplicativo, como Uber, 99 e similares, serão responsáveis por validar os dados de seus motoristas diretamente com o governo.
Para os taxistas, os requisitos envolvem regularidade cadastral e fiscal. O profissional precisa estar registrado, em atividade e com a situação fiscal regularizada. A validação, nesse caso, ocorrerá por meio de dados da Receita Federal.
As cooperativas de táxi também estão incluídas no programa, com acesso às mesmas linhas de crédito, no limite de um veículo por cooperado.
É importante destacar que o acesso ao financiamento fica limitado a um veículo por beneficiário. Isso significa que o programa foi desenhado para ser uma política de acesso individual, não de renovação de frota por operadores ou frotas comerciais de grande porte.
O processo de habilitação começa pelo cadastro na plataforma gov.br/movebrasil. Após preencher as informações, o motorista recebe uma resposta em até cinco dias úteis informando se atende aos requisitos. Em caso positivo, a partir do dia 18 de junho de 2026, ele poderá procurar concessionárias e instituições financeiras credenciadas para dar início à análise de crédito e formalizar o contrato.
Os contratos deverão ser firmados em até 120 dias após a publicação da MP, o que coloca um prazo definido para que o motorista interessado tome sua decisão. Quem deixar para a última hora pode perder a janela de acesso às condições especiais previstas na medida provisória.
Como funciona o financiamento: valores, juros e prazos
Aqui estão os números que realmente importam para quem está pensando em aderir ao programa. O Move Aplicativos oferece condições de financiamento consideravelmente mais vantajosas do que as praticadas atualmente pelo mercado tradicional de crédito para veículos.
A taxa de juros definida pelo BNDES é de 12,6% ao ano para homens e de 11,5% ao ano para mulheres. Para efeito de comparação, as taxas médias do mercado para financiamento de veículos novos para pessoas físicas costumam girar entre 18% e 25% ao ano, dependendo do perfil de crédito e da instituição financeira. Ou seja, o programa oferece um desconto relevante no custo do dinheiro.
O prazo de pagamento é de até 72 meses, o equivalente a seis anos. Além disso, há uma carência de seis meses: o motorista que contratar o financiamento agora só pagará a primeira parcela depois de meio ano. Esse detalhe é especialmente importante para quem está trocando o aluguel pelo financiamento próprio e precisa de um período de adaptação financeira.
Para ilustrar o impacto prático, o ministro do MDIC, Marcio Elias Rosa, trouxe uma comparação direta durante o evento de lançamento. Quem financia R$ 100 mil para comprar um carro pagaria hoje, em média, cerca de R$ 4.200 mensais só em locação. Com o financiamento de 72 meses pelas condições do Move Aplicativos, a parcela ficaria em torno de R$ 2.500. A diferença é de quase R$ 1.700 por mês, só no custo do veículo.
Em um cenário ainda mais próximo da realidade de quem precisa de um carro mais robusto para o trabalho diário, o próprio presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, projetou: um carro financiado a R$ 143 mil em 72 meses resultaria em parcelas de aproximadamente R$ 3.000. A mesma categoria de veículo, alugada hoje, custaria em torno de R$ 6.000 mensais. Metade do custo, com a vantagem de que ao final do contrato o carro é do motorista.
Os recursos chegarão até os motoristas por dois caminhos possíveis. O BNDES poderá operar diretamente, ou os recursos podem ser intermediados por instituições financeiras habilitadas pelo banco. O programa conta ainda com uma garantia adicional: a MP incluiu motoristas de app e taxistas entre as categorias elegíveis ao FGI-PEAC, o Fundo Garantidor para Investimentos vinculado ao Programa Emergencial de Acesso a Crédito, que cobre até 80% do risco de crédito das operações. Na prática, isso significa que o governo assume boa parte do risco da operação, o que reduz as exigências das instituições financeiras e facilita o acesso ao crédito para quem teria dificuldade em obter aprovação pelo mercado convencional.
Os tipos de veículo elegíveis: sustentabilidade como condição
O Move Aplicativos não financia qualquer carro. Há uma condição ambiental clara: os veículos precisam atender a critérios de sustentabilidade ambiental, social e econômica e devem estar habilitados no Programa Mover, que é a política governamental de transição energética e inovação na indústria automotiva brasileira.
Na prática, os modelos aceitos são: veículos flex (que rodam tanto com gasolina quanto com etanol), híbridos flex, elétricos e movidos exclusivamente a etanol. Veículos movidos apenas a gasolina ou diesel não se enquadram nos critérios do programa.
O limite de valor para o veículo é de R$ 150 mil. Acima disso, o financiamento não se aplica, pelo menos não com as condições especiais do Move Aplicativos.
As montadoras interessadas em participar precisarão ser previamente habilitadas pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). Esse processo de habilitação não é automático: o ministério poderá exigir contrapartidas das fabricantes, incluindo a concessão de descontos mínimos nos veículos ofertados aos beneficiários do programa. Ou seja, além das condições favoráveis de financiamento, o governo pretende pressionar as montadoras para que os próprios preços dos carros sejam mais acessíveis dentro do programa.
A expectativa do governo é que o programa viabilize a comercialização de pelo menos 200 mil veículos, segundo o presidente do BNDES. Caso essa meta seja atingida, o impacto econômico será significativo não apenas para os motoristas, mas também para a indústria automotiva nacional.
Como se cadastrar no programa: passo a passo
O processo de adesão foi desenhado para ser digital e relativamente simples. Confira como funciona na prática:
1. Acesse a plataforma gov.br/movebrasil. É por lá que começa o cadastro. O motorista precisa ter conta no gov.br com nível de acesso adequado para acessar os serviços disponíveis.
2. Preencha o cadastro. As informações solicitadas incluem dados pessoais, documentação profissional e dados relacionados à atividade de transporte. Para motoristas de app, a própria plataforma em que o motorista atua confirma as informações diretamente com o governo.
3. Aguarde o retorno. Em até cinco dias úteis após o cadastro, o motorista será informado se está apto a participar do programa.
4. Procure uma instituição financeira credenciada. A partir do dia 18 de junho de 2026, quem recebeu confirmação pode buscar bancos e financeiras habilitadas para dar início à análise de crédito. Essa análise segue os critérios da instituição financeira, e a aprovação não é automática. O programa facilita o acesso, mas a decisão final de crédito ainda passa por avaliação individualizada.
5. Escolha o veículo. O carro precisa ser novo, de montadora habilitada no Programa Mover e enquadrado nos critérios de sustentabilidade. Vale pesquisar quais modelos e marcas estão disponíveis dentro das condições do programa antes de fechar negócio com a concessionária.
6. Assine o contrato. O financiamento precisa ser contratado em até 120 dias após a publicação da MP, ou seja, até meados de setembro de 2026. Após a assinatura, começa a contagem dos seis meses de carência.
Condições especiais para mulheres motoristas
O Move Aplicativos traz um capítulo dedicado às motoristas mulheres, reconhecendo que esse grupo enfrenta desafios específicos dentro da categoria. As condições diferenciadas foram negociadas com atenção às demandas que vêm sendo levantadas por representantes de mulheres no setor.
A taxa de juros para motoristas e taxistas do sexo feminino é de 11,5% ao ano, um ponto percentual abaixo da taxa aplicada aos homens (12,6%). No acumulado de 72 meses de financiamento, essa diferença pode representar uma economia relevante no custo total do crédito.
Além da taxa mais favorável, a MP autoriza o CMN a estabelecer prazos e períodos de carência específicos para operações contratadas por mulheres. Na prática, isso abre espaço para que as condições para esse grupo sejam ainda mais flexíveis do que as já previstas para a categoria como um todo.
Outro ponto importante é que os equipamentos de segurança específicos para mulheres motoristas podem ser incluídos no valor financiado. A medida atende a uma demanda recorrente da categoria, já que muitas motoristas precisam adaptar seus veículos com itens como câmeras internas, travas adicionais e outros recursos que aumentam a segurança durante as corridas.
A inclusão dessas condições específicas para mulheres no texto da MP é um passo relevante porque formaliza, em lei, o reconhecimento de que a experiência das motoristas de app vai além das condições econômicas gerais da categoria e envolve questões de segurança que precisam de resposta estrutural.
O que o programa financia além do carro
Além do valor do veículo em si, a Medida Provisória prevê que alguns itens adicionais podem ser incluídos no financiamento, o que amplia a utilidade prática do programa para quem está começando do zero com um carro novo.
Os itens extras financiáveis incluem:
Seguro do veículo. Ter o seguro incluído no financiamento facilita a vida do motorista que, muitas vezes, precisa comprometer uma parcela considerável da renda mensal para manter a proteção do carro que é seu principal instrumento de trabalho.
Seguro prestamista. Essa modalidade de seguro garante o pagamento das parcelas do financiamento em situações como morte ou invalidez do titular. É uma proteção importante para quem depende exclusivamente da atividade de motorista para sustentar a família.
Equipamentos de segurança. Como mencionado anteriormente, itens voltados à segurança do motorista durante as corridas também podem entrar no financiamento, com atenção especial às demandas das motoristas mulheres.
A possibilidade de incluir esses itens no valor total financiado não aumenta o limite de R$ 150 mil, mas permite que o motorista organize melhor seu orçamento sem precisar pagar por esses itens à parte, no ato da compra do veículo.
Mototaxistas e motoboys: o que muda para essa categoria
O evento de lançamento do Move Aplicativos também marcou a assinatura de uma segunda medida provisória voltada especificamente para mototaxistas, motoboys e profissionais de motofrete: a MP nº 1.360/2026.
Essa MP caminha em uma direção diferente. Em vez de facilitar o acesso ao crédito, ela simplifica as exigências legaispara o exercício da profissão. As mudanças são significativas para quem atua ou pretende atuar nesse segmento.
As principais alterações são três. A primeira é o fim da obrigatoriedade do curso de motofrete como pré-requisito para trabalhar na atividade. A segunda é a eliminação da obrigatoriedade da placa vermelha, que antes distinguia visualmente os veículos de profissionais de transporte e impunha custos e burocracia adicionais. A terceira é o fim da exigência de idade mínima de 20 anos para atuar como motofreitista.
Essas três mudanças foram anunciadas pelo ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, durante o evento. Elas reduzem a burocracia de entrada na profissão e podem ampliar o acesso de jovens trabalhadores ao mercado de entregas por plataforma.
No entanto, uma demanda central da categoria, que é o acesso a financiamento de motos em condições similares às previstas para os carros, ainda não foi atendida de forma concreta. O presidente Lula reconheceu publicamente que essa pauta ainda está em negociação. “Conversamos com várias empresas aqui, mas ainda não foi possível acertar o ponto. As motos aqui no Brasil são mais caras. Mas eu ainda sonho em poder dar aos motoqueiros deste país o direito de comprar uma moto boa, de qualidade, e com preço mais acessível financiado pelo governo”, afirmou Lula.
A fala indica que um programa específico para motocicletas pode ser anunciado em breve, mas ainda depende de negociações com as fabricantes e com os agentes financeiros envolvidos.
Outras medidas anunciadas: pontos de apoio e acidente de trabalho
Além das duas medidas provisórias assinadas no evento, o governo anunciou um conjunto de iniciativas complementares que indicam uma abordagem mais ampla em relação às condições de trabalho dos motoristas de plataforma.
Uma das medidas mais concretas é a criação de 100 pontos de apoio destinados exclusivamente a motoristas de aplicativo. Esses espaços serão equipados com banheiros, áreas de descanso e pontos de carregamento de celulares, atendendo a uma necessidade básica que qualquer motorista que já passou horas rodando numa cidade grande conhece bem: a falta de infraestrutura adequada para pausas durante a jornada de trabalho.
Outra medida relevante diz respeito à classificação dos acidentes de trabalho. Boulos anunciou que o governo definiu que acidentes ocorridos com motoristas de aplicativo durante o exercício da função serão classificados como acidentes de trabalho dentro do Sistema Único de Saúde. A partir dessa nova definição, UPAs e prontos-socorros de todo o país serão orientados a registrar esses atendimentos como acidente de trabalho, o que abre ao motorista o direito de buscar amparo jurídico e previdenciário nessa condição.
“Infelizmente é muito frequente o acidente com moto nas grandes cidades e hoje isso é tratado como acidente comum. A partir dessa nova definição, que foi tomada e assinada pelo SUS, todas as UPAs e prontos socorros do país vão estar orientados a colocar o prontuário desse acidente como acidente de trabalho, para que você possa buscar o seu direito pela justiça”, explicou Boulos.
Para uma categoria que historicamente operou em uma zona cinzenta entre o trabalho autônomo e o vínculo empregatício, esse reconhecimento é simbólico e juridicamente relevante.
O contexto: quem é o motorista de app no Brasil hoje
Para entender o impacto real do Move Aplicativos, é preciso olhar para quem são esses trabalhadores e quais são as condições em que operam.
Segundo dados do IBGE divulgados pelo governo no momento do lançamento do programa, quase 1,9 milhão de pessoastrabalhavam como motoristas de automóvel no Brasil em 2024. A renda mensal média dessa categoria era de R$ 2.500. Outros levantamentos, como os do IBGE sobre trabalho por plataformas, apontam uma renda média de R$ 2.766 por mês, com jornadas médias próximas a 46 horas semanais.
Esses números precisam ser lidos com cuidado. O que aparece no aplicativo como faturamento bruto não é o que sobra no bolso no fim do mês. Do valor total gerado pelas corridas, o motorista precisa subtrair combustível, manutenção, pneus, seguro, taxas da plataforma, lavagem e, em muitos casos, o custo do aluguel do próprio carro. O resultado líquido real costuma ser consideravelmente menor do que o faturamento bruto.
Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) intitulado “Plataformização e Precarização do Trabalho de Motoristas e Entregadores no Brasil” mostrou que a renda média da categoria recuou de cerca de R$ 2.250 para aproximadamente R$ 1.800 ao longo dos anos analisados, na contramão do crescimento do setor. Mais gente entrando no mercado, jornadas mais longas, e menor renda média por trabalhador: esse é o retrato que emerge dos dados do Ipea.
Dentro desse cenário, o custo do veículo tem um peso especial. Uma parcela significativa dos motoristas de aplicativo não possui carro próprio e opera com veículos alugados, seja de locadoras parceiras das plataformas, seja de terceiros. O modelo de aluguel tem vantagens operacionais — sem entrada, sem análise de crédito rigorosa, com manutenção incluída — mas tem um custo mensal que pode comprometer boa parte da renda do motorista, especialmente nos momentos de menor demanda.
É exatamente esse ponto que o Move Aplicativos pretende atacar: reduzir o peso do veículo no custo operacional do motorista, transformando uma despesa fixa e recorrente (o aluguel) em um investimento com prazo para terminar (o financiamento), ao final do qual o trabalhador se torna dono de um patrimônio.
O custo real de trabalhar com carro alugado x financiado
Para entender de forma concreta o que o programa pode mudar na vida de um motorista, vale fazer uma simulação comparativa entre o modelo de aluguel e o financiamento pelo Move Aplicativos.
Considere um motorista que hoje aluga um veículo para trabalhar com aplicativo em uma capital brasileira. O custo médio de locação de um carro de passeio adequado para essa atividade, com quilometragem livre e manutenção incluída, gira em torno de R$ 4.000 a R$ 6.000 por mês, dependendo da cidade e do modelo do veículo. Esse valor é pago integralmente todos os meses, sem que o motorista construa nenhum patrimônio com isso. Ao longo de 72 meses, esse custo total pode facilmente ultrapassar R$ 300 mil — para um bem que nunca será seu.
Agora, com o Move Aplicativos, o mesmo motorista pode financiar um veículo de R$ 100 mil com parcelas em torno de R$ 2.500 por mês, ainda com seis meses de carência no início. Ao fim dos 72 meses, ele terá pago o carro e será dono de um bem que ainda tem valor de revenda. A diferença mensal de cerca de R$ 1.500 a R$ 3.500 pode representar, ao longo de seis anos, uma economia ou investimento na casa dos R$ 100 mil a R$ 250 mil.
Além disso, um carro novo oferece outras vantagens econômicas que o aluguel não traz. A manutenção nos primeiros anos é mais barata e previsível. A garantia da fábrica cobre defeitos e problemas mecânicos sem custo adicional. O consumo de combustível tende a ser mais eficiente do que em veículos mais antigos. E, para os modelos flex ou elétricos exigidos pelo programa, o custo do combustível pode ser otimizado conforme o preço do etanol em relação à gasolina, o que adiciona mais uma camada de economia ao dia a dia do motorista.
O próprio ministro do MDIC fez esse cálculo durante o lançamento. Quem financiasse R$ 149 mil em 72 meses pagaria parcelas de aproximadamente R$ 3.850, enquanto a locação do mesmo veículo custaria em torno de R$ 6.000 mensais. “Ou seja, ele vai pagar de prestação ao longo de 72 meses a metade do que pagaria de locação hoje”, resumiu o ministro.
Naturalmente, o financiamento próprio também tem desvantagens que precisam ser consideradas. O motorista passa a ser responsável pela manutenção integral do veículo, sem o suporte da locadora. Em caso de acidente ou problema mecânico grave, o custo cai sobre ele. O financiamento também é uma dívida de longo prazo, e qualquer instabilidade de renda pode tornar o pagamento das parcelas um desafio. Por isso, a decisão entre alugar e financiar precisa ser feita com planejamento e com uma avaliação honesta da própria situação financeira e do volume de trabalho sustentado ao longo do tempo.
O que ainda falta definir e os próximos passos
Apesar da magnitude do programa, ainda há pontos em aberto que os motoristas precisam acompanhar de perto nas próximas semanas.
O primeiro deles é a lista de montadoras e modelos habilitados. A habilitação das fabricantes é feita pelo MDIC, e nem todas as montadoras com veículos no mercado brasileiro necessariamente participarão do programa. Isso significa que o leque de opções pode ser mais restrito do que parece à primeira vista. Antes de ir a uma concessionária, vale verificar se aquele modelo específico está dentro das condições do Move Aplicativos.
O segundo ponto é a lista de instituições financeiras credenciadas. Não são todos os bancos que operarão o programa. O BNDES habilitará um conjunto de instituições, e o motorista precisará procurar exatamente essas casas para obter o crédito com as condições especiais previstas na MP.
O terceiro ponto diz respeito ao Congresso Nacional. Como medida provisória, o Move Aplicativos precisa ser aprovado pela Câmara e pelo Senado em até 120 dias para não perder validade. Se o texto for alterado no processo legislativo, as condições do programa podem mudar. Se não for aprovado, o programa perde o efeito jurídico. Esse é um risco real que os motoristas precisam ter em mente ao planejar a adesão.
Por fim, o prazo para contratação dos financiamentos também é de 120 dias a partir da publicação da MP, o que coloca setembro de 2026 como o horizonte limite para formalizar o contrato. Quem deixar para a última hora pode encontrar fila nas instituições financeiras ou dificuldade em encontrar os modelos desejados disponíveis nas concessionárias.
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