Há poucas semanas, o mercado financeiro brasileiro vivia um momento raro. O Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, havia batido recordes em série — 13 vezes só em fevereiro. Dinheiro estrangeiro entrava no país num ritmo que não se via há anos. Analistas começavam a falar em 200 mil pontos como questão de tempo. O otimismo era palpável.
Então chegou a notícia dos ataques de EUA e Israel ao Irã, na madrugada de 28 de fevereiro de 2026, e o clima mudou em questão de horas.
O que aconteceu depois foi um estudo em tempo real sobre como guerras mexem com dinheiro — não apenas o das grandes instituições financeiras, mas o de qualquer pessoa que tenha ações, fundo de investimento, previdência privada ou até uma conta no Tesouro Direto.
Nesta matéria, vamos percorrer toda essa história: de onde vinha o otimismo, o que o conflito provocou na bolsa, quais ações subiram e quais despencaram, como ouro, dólar e bitcoin se comportaram, o que pode mudar nos juros e na renda fixa — e o que a história nos ensina sobre como atravessar esses momentos com o patrimônio mais intacto possível.
A festa que a guerra interrompeu: o que era o mercado antes do conflito
Para entender o impacto, é preciso primeiro entender de onde o mercado vinha — e a resposta é: de um momento excepcionalmente bom.
Janeiro de 2026 foi o melhor mês do Ibovespa desde novembro de 2020. O índice subiu 12,56%, liderando o ranking de todos os investimentos do período. Em fevereiro, continuou o rali, acumulando mais 4% e chegando ao recorde histórico de 191.490 pontos, registrado no pregão do dia 25 de fevereiro — apenas três dias antes dos ataques.
O motor desse desempenho tinha nome e sobrenome: o investidor estrangeiro. Os dados da consultoria Elos Ayta mostram que, em apenas dois meses, o capital externo injetou R$ 42,56 bilhões na bolsa brasileira — superando em 58% todo o fluxo registrado ao longo de 2025. Para ter dimensão desse número: ele equivale ao valor de mercado inteiro da RD Saúde (Raia Drogasil), uma das maiores empresas de saúde do país.
Só em janeiro, a entrada líquida de estrangeiros foi de R$ 26,47 bilhões — o maior fluxo mensal registrado desde janeiro de 2022. Em fevereiro, chegaram mais R$ 16,09 bilhões. Em dois meses, o Ibovespa quebrou 13 recordes históricos, contra 32 ao longo de todo o ano de 2025.
Por que esse dinheiro todo estava vindo para cá? A principal explicação está numa rotação global de portfólio. Após anos concentrado nas gigantes de tecnologia dos EUA, especialmente em empresas de inteligência artificial como a Nvidia, parte do capital passou a buscar mercados emergentes e commodities.
O contexto doméstico ajudava: expectativas de início do ciclo de cortes de juros pelo Banco Central, superávit comercial recorde de fevereiro de US$ 4,2 bilhões e um ambiente político relativamente estável completavam o quadro favorável. Para o analista da XP que acompanha o fluxo, “o capital estrangeiro está passando por cima de todos os nossos problemas porque é um fator global muito maior do que a eleição.” O Ibovespa mirava os 200 mil pontos. E então, a guerra chegou.
O choque: o que aconteceu com a bolsa nos primeiros dias
A reabertura dos mercados na segunda-feira (2 de março) já foi marcada pela tensão. O Ibovespa começou o dia em queda, mas conseguiu se recuperar parcialmente ao longo da sessão, fechando em leve alta de 0,28% — sustentado principalmente pelas ações da Petrobras, que subiram quase 5% com a disparada do petróleo. As petro juniores também avançaram: PRIO (PRIO3) disparou 5,12%, PetroRecôncavo (RECV3) subiu 3,33% e Brava (BRAV3) avançou 2,84%.
Mas a terça-feira (3 de março) foi outra história. À medida que o conflito escalou, com o Irã confirmando o bloqueio do Estreito de Ormuz e novos ataques se multiplicando pela região, o mercado finalmente “acordou” para a dimensão do problema. O Ibovespa fechou em queda de 3,27%, aos 183.104 pontos. Na mínima do dia, tocou 180.518 pontos — recuo de 4,64%. Quase todas as ações do índice caíram. A bolsa brasileira, que no último dia 24 fechara acima dos 191 mil pontos em nível recorde, atingiu o menor patamar desde 6 de fevereiro em um único pregão.
Foi a maior desvalorização do índice desde o dia 5 de dezembro de 2025. O dólar encerrou o pregão em alta de mais de 2%, cotado a R$ 5,28.
Nos Estados Unidos, o cenário foi igualmente negativo. O Dow Jones abriu com tombo de mais de 800 pontos. O S&P 500 recuou 1,66% e o Nasdaq caiu 2%. O analista Adam Crisafulli, da Vital Knowledge, resumiu o estado de espírito dos mercados: “A ansiedade do mercado aumentou consideravelmente durante a noite, em meio a preocupações de que um governo e um exército iranianos decapitados e sem liderança executem uma resposta retaliatória prolongada, visando semear o caos em toda a região.”
O gás natural entrou em cena de forma abrupta quando o Catar anunciou a suspensão temporária da produção de GNL — gás natural liquefeito. Os contratos futuros de gás natural na Europa subiram 70% em dois dias. Um item menos visível também chamou atenção dos especialistas: o valor do frete para contratar um navio do Oriente Médio para o Leste Asiático chegou a US$ 12,26 por barril, o dobro do registrado antes do conflito. O custo de frete para um petroleiro de grande porte passou a representar quase 16% do preço do petróleo — historicamente, esse percentual fica entre 2,5% e 3,5%.
As vencedoras: quem lucrou com o caos
Num mercado em que quase tudo caiu, algumas ações nadaram na contramão. Entender por que elas subiram revela muito sobre como funciona a lógica dos investimentos em tempos de crise.
Um levantamento do TradeMap com cotações entre 27 de fevereiro e 4 de março mostrou que, enquanto o Ibovespa recuou 1,81%, algumas ações avançaram com destaque. A maior alta foi da Braskem (BRKM5), com +13,24%. No setor de óleo e gás: PETR3 subiu 3,11%, PETR4 avançou 2,97%, PRIO3 ganhou 1,89% e RECV3 teve alta de 1,46%. No setor de energia elétrica, Copel (CPLE3) subiu 1,98%, Auren (AURE3) avançou 1,52%, e Vibra (VBBR3), distribuidora de combustíveis, teve alta de 1,27%.
Por que empresas de petróleo sobem quando o mundo cai? A lógica é direta, mas vale explicar com cuidado. Quando o preço do barril dispara, as receitas das empresas que produzem petróleo aumentam na mesma proporção — ou até mais, dependendo do custo de extração. A Petrobras e suas concorrentes nacionais produzem petróleo do pré-sal a um custo relativamente baixo, em torno de US$ 6 a US$ 7 por barril em campos como Búzios, enquanto vendem a US$ 80, US$ 85 ou mais. A diferença entre o custo e o preço de venda — a margem — se expande com a alta do barril. Mais margem significa mais lucro. Mais lucro significa mais capacidade de pagar dividendos. E mais dividendos atraem investidores que buscam renda, sustentando e elevando o preço das ações.
Há também um segundo mecanismo: em momentos de forte aversão ao risco, investidores que precisam se proteger contra a inflação futura buscam empresas que se beneficiam dessa inflação. As produtoras de petróleo funcionam, nesses momentos, como um “hedge natural” dentro da própria bolsa.
O BTG Pactual foi preciso em seu relatório: “Uma escalada de curta duração provavelmente adiciona um prêmio geopolítico ao Brent, mas sem alterar de forma fundamental o balanço entre oferta e demanda de 2026.” Em outras palavras: a alta das petroleiras é real, mas pode ser temporária — e apostar nela como tendência estrutural envolve o risco de o conflito se resolver antes do esperado.
PETR4 em foco: ação, dividendos e o que dizem os analistas
A Petrobras (PETR4) merece um capítulo próprio porque é a empresa mais relevante da bolsa brasileira — e porque o conflito no Irã torna seu caso especialmente interessante para quem investe ou quer entender o mercado.
No dia 5 de março, PETR4 estava sendo negociada a R$ 40,35, com variação de 52 semanas entre R$ 28,86 e R$ 42,00. Isso significa que, ao longo do último ano, quem comprou na mínima e segurou até o recorde registrou valorização de 45% apenas no preço da ação — sem contar os dividendos. Dos 9 analistas que cobrem o papel, todos recomendam compra, com preço-alvo médio de R$ 42,58 — potencial de valorização de +5,54% em relação ao preço da data.
Os dividendos da Petrobras são, de longe, o item mais relevante para o investidor de longo prazo. Nos últimos 12 meses, a empresa pagou R$ 3,67 por ação em proventos, resultando num Dividend Yield de aproximadamente 8% ao ano. Com o Brent subindo 12% em apenas três dias, o Itaú BBA avalia que a Petrobras ganhou fôlego para reforçar caixa e sustentar proventos. Em linguagem simples: petróleo mais caro significa mais receita, mais caixa e, potencialmente, mais dinheiro distribuído aos acionistas nos próximos trimestres.
O principal risco no caso da Petrobras não é operacional — é político. A empresa tem histórico de usar sua política de preços como instrumento de controle inflacionário em anos eleitorais, o que pode comprimir suas margens se o governo decidir não repassar a alta do petróleo para os combustíveis. Esse fator adiciona incerteza sobre o tamanho dos dividendos futuros, mesmo num cenário de petróleo elevado.
Vale também observar as chamadas “petro juniores” — empresas menores do setor, como PRIO (PRIO3) e PetroRecôncavo (RECV3). Em fevereiro, ações desse grupo subiram entre 7% e 12%, impulsionadas pela valorização da commodity. São empresas com menor exposição ao risco político da Petrobras, mas com maior risco operacional e menor liquidez — mais adequadas para perfis arrojados.
Os três “refúgios” do momento: ouro, dólar e bitcoin
Toda crise financeira de grande magnitude desencadeia o mesmo movimento reflexo: investidores migram para o que chamam de “ativos de proteção” — aqueles que historicamente mantêm ou aumentam valor quando o caos domina os mercados. Em março de 2026, três deles dominaram a discussão. Mas cada um se comportou de forma muito diferente — e essa diferença diz muito sobre o que cada um realmente é.
O ouro: o refúgio clássico que voltou ao centro do palco
O ouro já vinha em trajetória de alta robusta antes da guerra. Em 2025, o metal precioso valorizou 38%, atingindo uma nova máxima anual e superando o recorde anterior de 2024. No início de março de 2026, os contratos futuros já estavam cotados acima de US$ 5.300 por onça-troy — um patamar que teria parecido improvável há poucos anos.
Com os ataques de 28 de fevereiro, o ouro reagiu exatamente como sua função histórica prevê. Na reabertura dos mercados no dia 2 de março, os contratos futuros subiram mais de 3%, chegando a US$ 5.404 por onça-troy. O fechamento foi a US$ 5.311,60, alta de 1,21% no dia.
O movimento faz sentido. Em crises geopolíticas, o ouro funciona como uma espécie de “seguro universal” — uma commodity que não é passivo de nenhum governo, não pode ser impressa e tem demanda estrutural de bancos centrais, joalherias e investidores ao redor do mundo. Especialistas do ING ressaltaram que cada nova rodada de risco geopolítico tem adicionado um prêmio crescente ao metal — o que sugere que os patamares elevados de preço refletem uma mudança estrutural na percepção de risco global, e não apenas reação temporária.
No entanto, o comportamento do ouro nos dias seguintes foi instável. Na terça-feira (3), quando o pânico se aprofundou e investidores precisaram levantar caixa para cobrir perdas em outros ativos, o ouro sofreu uma queda brusca de US$ 168 — de US$ 5.128 para perto de US$ 4.960 —, enquanto, curiosamente, o bitcoin caiu apenas 0,7% no mesmo dia. Na quarta-feira (4), o ouro voltou a se recuperar para perto de US$ 5.180. Esse comportamento é típico de momentos de crise aguda: o metal sobe com o medo inicial, cai quando há “liquidação forçada” de portfólios, e volta a subir quando a incerteza se consolida.
Para o investidor brasileiro, o ouro pode ser acessado de diversas formas: ETFs de ouro listados na B3 (como o GOLD11), fundos de investimento em ouro, contratos futuros na BM&F e até compra física em barras e moedas. Cada modalidade tem custos e liquidez diferentes, mas todas oferecem exposição ao mesmo ativo subjacente.
O dólar: proteção cambial em tempos de saída de capital
O dólar foi o outro vencedor imediato da crise. Em apenas dois dias, a moeda americana foi de R$ 5,13 para R$ 5,34 — alta de mais de 4%. No fechamento da terça-feira, estava em R$ 5,26.
A lógica é simples: em momentos de aversão ao risco global, investidores internacionais saem de países emergentes, levando seu dinheiro de volta para economias percebidas como mais seguras, especialmente os Estados Unidos. Esse fluxo de saída pressiona as moedas emergentes para baixo e eleva o dólar. Para o investidor brasileiro, ter parte do patrimônio em dólar funciona como proteção contra exatamente esse tipo de cenário — quando o mercado cai e o real se desvaloriza, quem tem dólar na carteira vê esse ativo se valorizar em reais, compensando ao menos parcialmente as perdas em outras posições.
As formas de ter exposição ao dólar no Brasil são variadas: fundos cambiais, BDRs (recibos de ações estrangeiras listadas na B3), ETFs atrelados ao dólar, contas em moeda estrangeira em bancos digitais, ou compra direta de dólares. O ponto de atenção é que o dólar também pode cair se o Federal Reserve decidir cortar juros em resposta a um enfraquecimento da economia americana. A proteção cambial funciona bem em crises agudas de aversão ao risco, mas não é garantida em todos os cenários.
O bitcoin: o “ouro digital” que não se comportou como ouro
O bitcoin foi o ativo que gerou mais debate em março de 2026 — e por uma razão inesperada: ele não se comportou como refúgio.
Quando os ataques ao Irã foram confirmados na madrugada de sábado, o bitcoin foi o primeiro ativo financeiro global a reagir — simplesmente porque os mercados tradicionais estavam fechados. O BTC caiu de cerca de US$ 65.500 para uma mínima perto de US$ 63.000 em poucas horas, ampliando as perdas para quase 7%. Mais de US$ 250 milhões em posições de criptomoedas foram liquidados naquele fim de semana, com aproximadamente US$ 100 milhões em posições compradas sendo zeradas.
O comportamento foi o oposto do que a narrativa do “ouro digital” preconizava. Enquanto o ouro subia, o bitcoin caía. E isso acendeu o debate novamente. Nos últimos meses anteriores ao conflito, a correlação entre bitcoin e ouro praticamente se havia desfeito. Enquanto o metal precioso avançou impulsionado pela busca global por proteção, o bitcoin enfrentou dificuldades, acumulando queda superior a 50% em relação ao pico de US$ 125 mil registrado em outubro de 2025.
Ray Dalio, um dos investidores mais influentes do mundo, aproveitou o momento para argumentar que o bitcoin não deve ser comparado ao ouro porque não conta com o respaldo de um banco central, não oferece privacidade e pode ser ameaçado pela computação quântica. Curiosamente, no dia em que fez essa declaração, o ouro caiu cerca de 3% enquanto o bitcoin recuou menos de 1% — o que fez analistas observarem que o momento havia ironicamente “enfraquecido a tese” do próprio Dalio.
O consenso entre especialistas é pragmático: o ouro é o pilar defensivo principal em crises geopolíticas; o dólar entra como diversificação cambial; e o bitcoin pode complementar para quem aceita volatilidade alta — mas em tamanho menor, e com consciência de que ele não funciona como “seguro” no momento exato do choque.
Juros, Selic e renda fixa: o que muda para quem está fora da bolsa
Nem todo investidor brasileiro está na bolsa. Uma parcela relevante do patrimônio das famílias está em produtos de renda fixa: Tesouro Direto, CDBs, LCIs, LCAs, fundos DI, previdência conservadora. Para esse público, a pergunta central é: o que a guerra no Irã muda nos juros?
A resposta curta é: por ora, não muito — mas o risco existe.
No início de março, o mercado ainda não trabalhava com mudanças imediatas nas expectativas para o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central). André Valério, economista sênior do Inter, resumiu o consenso: “Para o Copom, acreditamos que nada muda a princípio, e continuamos esperando o início do ciclo de cortes para a reunião de março. Porém, a incerteza causada pelo conflito pode levar o Copom a encerrar o ciclo de cortes antes da hora — mas isso dependerá da duração e tamanho do conflito.”
O mecanismo de transmissão que o investidor precisa entender é este: petróleo mais caro pressiona a inflação. Inflação mais alta obriga o Banco Central a ser mais cauteloso na redução dos juros — ou até a reverter a direção. Se a Selic para de cair, quem tem títulos prefixados ou IPCA+ com prazo longo sofre perda de marcação a mercado. Por outro lado, quem tem títulos pós-fixados, como o Tesouro Selic, se beneficia — pois esses títulos acompanham a taxa básica.
O Brasil chegou ao início de março de 2026 com o IPCA acumulado em 4,10% nos últimos 12 meses — acima do teto da meta de 3,5% fixada pelo Conselho Monetário Nacional. Esse cenário já tornava o Banco Central cauteloso antes mesmo da guerra. Com a pressão adicional do petróleo, o espaço para cortes agressivos na Selic ficou ainda mais estreito.
Para o investidor conservador, o cenário pede atenção ao prazo e ao tipo dos títulos. Prefixados de longo prazo ficam mais arriscados em ambientes de inflação incerta. Títulos indexados ao IPCA protegem contra a inflação, mas também sofrem volatilidade de preço no curto prazo. O Tesouro Selic, mais conservador de todos, preserva o capital e acompanha os juros — sendo a opção mais defensiva em momentos de incerteza elevada.
O investidor estrangeiro e o Brasil: a tese que a guerra colocou à prova
O Brasil havia se tornado, no primeiro bimestre de 2026, um dos destinos favoritos do dinheiro internacional. A tese era atraente: o real estava barato em termos históricos, a bolsa tinha valuation abaixo do potencial, o país era exportador relevante de commodities, e a perspectiva de queda dos juros tornava as empresas mais interessantes do ponto de vista de avaliação financeira.
O conflito colocou essa tese à prova. A reação inicial foi a esperada: o ETF brasileiro EWZ, que replica a bolsa brasileira nas bolsas americanas, recuou cerca de 3% no pré-market dos EUA, em meio à forte aversão global ao risco. O fluxo estrangeiro que havia sustentado 13 recordes históricos em dois meses começou a hesitar.
No entanto, especialistas fazem uma distinção importante. Há dois tipos de investidor externo na bolsa brasileira: o trader de curto prazo, que entra e sai com base no humor do mercado global; e o alocador institucional de longo prazo — fundos de pensão, fundos soberanos, grandes gestoras globais — que decide onde colocar dinheiro com horizonte de anos, não semanas. Para esse segundo tipo, uma guerra de poucas semanas raramente muda a tese estrutural.
Na leitura da consultoria Elos Ayta, o padrão observado sugere “não apenas ajuste tático, mas possível reprecificação estrutural de risco Brasil”. Após um 2024 negativo, o fluxo voltou em 2025 e acelerou significativamente em 2026. Se essa reprecificação se sustenta dependerá, em grande parte, de quanto tempo dura o conflito e se ele provoca uma desaceleração global que reduza o apetite por emergentes de forma generalizada.
Um fator adicional joga a favor do Brasil nesse contexto: o presidente da Shell Brasil afirmou que a percepção de maior instabilidade no Oriente Médio pode redirecionar investimentos globais em exploração de petróleo para o Brasil, que tem histórico de estabilidade geopolítica, produção com menor intensidade de carbono no pré-sal e competitividade fiscal. Conflitos que tornam o Oriente Médio menos atraente para investimento em energia tendem a beneficiar o Brasil no médio prazo — uma ironia que o mercado já começou a precificar.
O que a história ensina: crises geopolíticas e bolsa ao longo do tempo
Antes de qualquer decisão de investimento em momentos de crise, vale olhar para o que os dados históricos mostram sobre o comportamento da bolsa em episódios similares.
O padrão mais consistente é que crises geopolíticas — mesmo as aparentemente catastróficas — tendem a produzir reações de curto prazo nos mercados que se revertem com mais velocidade do que o senso comum sugere. O ataque ao World Trade Center em 2001 derrubou o S&P 500 em 11,6% em uma semana, mas o índice recuperou toda a perda em menos de dois meses. A invasão da Ucrânia pela Rússia em fevereiro de 2022 causou volatilidade acentuada, mas o mercado americano havia se recuperado em menos de quatro semanas.
Isso não significa que toda crise se resolve rapidamente. A crise financeira de 2008 e o choque do COVID-19 em 2020 foram muito mais duradouros — porque envolveram problemas sistêmicos no sistema financeiro ou na economia real, não apenas choques geopolíticos externos. A distinção importante é esta: uma guerra que afeta os preços das commodities mas não paralisa o sistema bancário ou o consumo interno tende a produzir correções menores e mais breves do que crises de origem financeira ou sanitária.
No caso atual, o Bradesco BBI ponderou que “assumir exposição adicional ao setor de petróleo por causa de uma guerra que poderia durar não mais do que uma semana seria uma medida arriscada” — e que “os comentários de Trump de que a guerra provavelmente durará até quatro semanas podem ajudar o mercado a ancorar expectativas e esfriar o movimento dos preços.”
Para o investidor brasileiro de longo prazo, o histórico internacional e o próprio histórico da B3 sugerem que os momentos de queda acentuada por fatores externos tendem a ser pontos de entrada interessantes — desde que o investidor tenha perfil, prazo e capacidade financeira de atravessar a volatilidade sem precisar vender no pior momento.
O que fazer agora: orientações para diferentes perfis
Este não é um espaço de recomendação de investimento. Mas é possível — e útil — oferecer orientações de postura baseadas nos dados disponíveis e no que especialistas do mercado vêm dizendo.
Para o investidor conservador, que tem a maior parte do patrimônio em renda fixa, o principal movimento recomendado é atenção à composição dos títulos. Prefixados de longo prazo ficam mais vulneráveis se a inflação pressionar os juros para cima. O Tesouro IPCA+ protege contra a inflação, mas sofre oscilação de preço no curto prazo. O Tesouro Selic é o mais defensivo em momentos de incerteza. Quem tem CDB pós-fixado está bem posicionado para esse ambiente.
Para o investidor moderado, com carteira diversificada entre renda fixa e variável, a guerra cria dois movimentos simultâneos que podem se compensar: se você tem ações de petrolíferas, elas tendem a subir com o conflito. Se tem empresas que dependem de insumos importados ou logística, essas podem ser pressionadas. A Vale (VALE3) despencou mais de 6% com o temor de desaceleração da China — cujo PIB é fortemente afetado por choques energéticos. Rebalancear a carteira em direção a setores defensivos, como energia, utilidades e commodities exportadoras, faz sentido em períodos de volatilidade geopolítica.
Para o investidor arrojado, que já tem exposição significativa à renda variável, a pergunta central é de timing. O mercado caiu de 191 mil para 183 mil pontos em poucos dias. Se o conflito for de curta duração — como o cenário base sugere —, essa queda pode representar uma janela de compra em empresas de qualidade que sofreram por contágio do humor geral do mercado, e não por problemas próprios.
Em todos os perfis, o principal alerta dos especialistas é o mesmo: não tome decisões baseadas apenas no noticiário de curto prazo. Guerras geram manchetes intensas e mercados voláteis. Mas a maioria das crises geopolíticas, quando olhadas em retrospecto de cinco ou dez anos, aparece como pequenos solavancos numa trajetória de crescimento mais longa. Manter o plano, revisar a alocação com cabeça fria e não vender no pânico são, historicamente, as condutas que preservam mais patrimônio.
O Brasil no mapa do investidor global
Uma última perspectiva merece atenção: a posição relativa do Brasil no contexto global desse conflito.
Diferentemente de economias europeias ou asiáticas — que dependem fortemente do petróleo do Golfo Pérsico para funcionar —, o Brasil é exportador líquido de energia. Quando o barril sobe, o país, em termos macro, ganha: mais receita em dólares, mais dividendos da Petrobras para o Estado, mais saldo na balança comercial. O JPMorgan apontou em relatório que o Brasil aparece como “relativamente protegido de um choque energético” por ser exportador líquido.
Esse posicionamento explica por que, mesmo no pior dia da bolsa brasileira desde dezembro de 2025, as ações da Petrobras e das petro juniores se mantiveram no campo positivo. E por que o EWZ caiu menos do que ETFs equivalentes de países importadores de petróleo.
O desafio do Brasil, nesse contexto, é o de sempre: transformar a riqueza do subsolo em prosperidade distribuída, sem deixar que a volatilidade dos mercados globais comprometa a trajetória de crescimento de longo prazo. Para o investidor, isso significa entender que o Brasil tem ativos reais relevantes — mas que está inserido num sistema financeiro global interligado, em que, quando o mundo tosse, mesmo quem está bem disposto sente o vento.
A guerra no Irã é mais um capítulo nessa história. O que acontece depois depende de fatores que nenhum analista controla. Mas o que o investidor controla — o quanto tem em cada tipo de ativo, o horizonte de tempo, a capacidade de manter a cabeça fria em momentos de manchete intensa — é exatamente o que, ao longo do tempo, define quem sai bem de episódios como este.