O Irã recusou negociar, a guerra se espalhou por toda a região e a China observa em silêncio enquanto sua economia sangra. Enquanto isso, o mundo começa a procurar petróleo em outro lugar — e o Brasil está no centro dessa corrida
Cinco dias. É o tempo que passou desde que os Estados Unidos e Israel lançaram a Operação Fúria Épica contra o Irã na madrugada de 28 de fevereiro de 2026. Em menos de uma semana, o líder supremo de um dos países mais poderosos do Oriente Médio foi morto, o Estreito de Ormuz foi fechado, navios foram atacados, mísseis caíram em pelo menos dez países da região e o preço do petróleo disparou nos mercados globais.
Mas o que aconteceu depois? Qual é o estado atual da guerra? Quem está no comando do Irã agora que Khamenei está morto? Por que a China, que mais tem a perder com esse conflito, ainda não agiu? E onde o mundo vai buscar petróleo se o Golfo Pérsico continuar bloqueado?
Nas últimas edições, o Baratão Combustíveis explicou o que é o Estreito de Ormuz, como ele funciona e por que seu fechamento ameaça o abastecimento global. Agora, é hora de atualizar o mapa — porque a guerra evoluiu, e as perguntas mais importantes já não são sobre o que aconteceu, mas sobre o que vem a seguir.
O Irã recusou negociar. E agora?
Na terça-feira, 3 de março, Trump foi às suas redes sociais com uma afirmação bombástica: a liderança iraniana havia “acabado” e Teerã estaria propondo voltar à mesa de negociações. Parecia que a guerra poderia ter uma saída diplomática rápida.
Horas depois, o presidente do Conselho de Segurança Nacional do Irã, Ali Larijani, desmentiu publicamente a afirmação: “Não negociaremos com os EUA.”
E na quarta-feira, quinto dia do conflito, o recado foi ainda mais duro. O principal conselheiro do falecido líder supremo Ali Khamenei, Mohammad Mokhbar, declarou à televisão estatal iraniana: “Não temos nenhuma confiança nos americanos e não temos nenhuma base para negociar com eles. Podemos continuar a guerra pelo tempo que desejarmos.”
Ao mesmo tempo, o funeral de Estado de Ali Khamenei — que governou o Irã durante quase quatro décadas — começou na noite desta quarta-feira e vai durar três dias. O regime usa o velório como demonstração de unidade e resistência — o líder morreu como “mártir da nação”, segundo a retórica oficial, e seu enterro é o primeiro grande ato simbólico da nova fase do conflito.
Mas quem está no comando?
A morte de Khamenei criou um vácuo de poder sem precedente na história recente do Irã. O país não enfrentava uma transição de liderança em circunstâncias tão extremas desde a morte do aiatolá Khomeini, em 1989 — e naquela ocasião, não havia nenhuma guerra em curso.
A Constituição diz que um novo líder deve ser escolhido dentro de três meses. Até lá, o presidente Masoud Pezeshkian, o membro do Conselho dos Guardiões aiatolá Alireza Arafi e o chefe do Judiciário aiatolá Gholamhossein Mohseni-Ejei assumiram o comando como um conselho de liderança temporário. A escolha de um novo líder é de responsabilidade da Assembleia de Especialistas, um órgão composto por cerca de 90 clérigos seniores eleitos a cada oito anos.
O problema é que os ataques americanos e israelenses continuam. Com os ataques ainda tendo como alvo aiatolás, comandantes dos Guardas Revolucionários e conselheiros veteranos de Khamenei, não está claro como ou quando a Assembleia de Especialistas poderá se reunir para eleger um novo líder.
A figura mais importante na hierarquia política atual do Irã é Ali Larijani, amplamente considerado o principal operador político do regime. O filho de Khamenei, Mojtaba, tem sido visto como possível sucessor, mas seu destino é incerto após os ataques — sua esposa foi confirmada como morta num ataque no Iraque.
O nome de Hassan Khomeini, neto do fundador da República Islâmica, também foi mencionado. Ele é ligado à facção reformista e poderia ser visto como mais capaz de amenizar a inimizade ocidental. Arafi e Mohseni-Ejei são possibilidades menos proeminentes que provavelmente continuariam a postura linha-dura de Khamenei.
Analistas traçam três cenários para o futuro político do Irã. No primeiro, a Guarda Revolucionária amplia sua influência política, fortalecendo uma ala ainda mais radical dentro de Teerã. No segundo, disputas internas pelo poder geram crise política e fragmentação institucional. No terceiro, o Irã poderia optar por uma liderança mais pragmática que buscasse negociar com o Ocidente para obter alívio de sanções — embora não haja sinais de que essa possibilidade esteja sendo considerada internamente.
Um pesquisador aponta para uma provável resolução “à la Venezuela”, na qual a República Islâmica poderia oferecer às empresas petrolíferas americanas o retorno ao Irã em troca de alguma forma de estabilização. Seria uma ironia histórica — mas conflitos produzem ironias às dezenas.
O que já está claro é que o regime iraniano não vai desmoronar como um castelo de cartas, como parte dos estrategistas americanos esperava. Um Conselho de Liderança Interino foi nomeado rapidamente para assumir os poderes de Khamenei, e o embaixador iraniano no Brasil destacou que o país conseguiu substituir o líder supremo sem prejudicar a defesa. A estrutura do Estado iraniano — construída ao longo de décadas para sobreviver precisamente a esse tipo de ataque — se manteve de pé.
A guerra que não ficou no Irã: como o conflito se espalhou por toda a região
Quando os ataques começaram em 28 de fevereiro, muitos analistas apostavam num conflito bilateral: EUA e Israel de um lado, Irã do outro. O que aconteceu nos cinco dias seguintes foi bem diferente.
O Irã ativou sua rede de aliados regionais — o chamado “Eixo da Resistência” — e transformou o conflito numa guerra com múltiplas frentes simultaneamente abertas. O mapa do conflito se expandiu de forma dramática.
O Líbano volta ao centro
Fontes israelenses relataram projéteis lançados de dentro do Líbano contra o território israelense nas primeiras horas de 2 de março, acionando sirenes em Haifa e na Galileia Superior. As IDF disseram ter interceptado um foguete, enquanto outros atingiram áreas abertas.
A inteligência israelense acredita que o ataque foi resultado de uma ordem de Teerã, e o porta-voz das IDF emitiu uma declaração de emergência, dizendo que o ataque deve ser considerado “uma declaração oficial de guerra pelo Hezbollah”. Israel respondeu com bombardeios ao Líbano e avanço de tropas terrestres. O Líbano já havia sido palco de uma guerra devastadora em 2024 — o país entrava no conflito de 2026 economicamente destruído, com o Hezbollah enfraquecido mas não eliminado.
A embaixada dos EUA na Arábia Saudita é atacada
Um dos episódios mais simbólicos do conflito ocorreu no quarto dia: o Irã atingiu a embaixada dos Estados Unidos em Riade com drones. O ataque à representação diplomática americana na capital saudita era um recado triplo — ao governo Trump, à Arábia Saudita (que teria pressionado por uma ação militar contra o Irã) e ao mundo, de que o Irã tem alcance para atacar onde quiser na região.
O Golfo em alerta máximo
Em retaliação aos ataques iniciais, o Irã lançou ofensivas sobre múltiplos países da região: Catar, Bahrein, Kuwait, Abu Dhabi, Jordânia, Síria, Dubai e Israel. Em Tel Aviv, uma pessoa morreu e 21 ficaram feridas. Um ataque a um aeroporto de Abu Dhabi causou mais uma morte.
Washington tomou a decisão drástica de pedir aos americanos que deixem o Oriente Médio — do Egito para o leste — por motivos de segurança. A medida engloba 14 países. É um passo raramente dado, que sinaliza que o governo americano não vê como garantir a segurança de seus cidadãos numa região inteira.
A Europa entra na equação
O Irã advertiu as potências europeias contra um envolvimento no conflito depois que Alemanha, Reino Unido e França afirmaram que poderiam adotar “ações defensivas” para neutralizar as capacidades de lançamento de mísseis da República Islâmica. “Seria um ato de guerra”, disse o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano. O sistema automatizado de alerta das forças britânicas declarou que havia uma “ameaça de segurança em curso” após um suposto ataque com drone à base aérea britânica de Akrotiri, no Chipre — horas depois de o Reino Unido permitir que os EUA usassem suas instalações para operações contra o Irã.
O conflito deixou de ser bilateral. É regional — e com riscos reais de se tornar algo muito maior.
O papel da China nessa guerra
Há uma potência que observa esse conflito com uma mistura de indignação e desconforto que raramente vemos no campo diplomático: a China.
Pequim condenou os ataques publicamente. A porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, afirmou que a prioridade imediata é cessar as operações militares e evitar que o conflito se espalhe. “A segurança do Estreito de Ormuz e das áreas adjacentes é de interesse comum da comunidade internacional. Pedimos que todas as partes cessem imediatamente as ações militares”, declarou.
Mas palavras são uma coisa. Ações são outra. E a China, até o momento, não agiu de forma contundente para parar a guerra — mesmo tendo mais a perder com ela do que qualquer outro país no mundo.
Por que a China é a maior vítima econômica desse conflito
A China importa cerca de 10,27 milhões de barris de petróleo por dia. Desse total, entre 40% e 50% vêm dos países do Golfo Pérsico — Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos — e praticamente todo esse volume transita por Ormuz.
O impacto econômico para a China é brutal. Se o petróleo saltar de US$ 73 — valor pré-ataque — para US$ 130, o impacto potencial no PIB seria de 1,2 a 1,5 ponto percentual. Isso em uma economia que já projetava crescer apenas 4,2% em 2026. Em outras palavras: o conflito pode cortar pela metade o crescimento econômico da China neste ano.
E tem mais. Há uma ironia dolorosa nessa história: ao fechar Ormuz em resposta aos ataques americanos e israelenses, o Irã prejudicou mais seu principal parceiro comercial do que os próprios agressores. Os Estados Unidos são hoje o maior produtor de petróleo do mundo — cerca de 13 milhões de barris por dia. São exportadores líquidos de energia. Um petróleo mais caro, no curto prazo, até beneficia as empresas americanas do setor. A China, ao contrário, não tem esse amortecedor.
A guerra comercial que virou guerra de petróleo
Para entender por que os EUA atacaram o Irã agora, é preciso ver o quadro maior. O ataque ao Irã não aconteceu no vácuo. É o mais recente capítulo de uma estratégia americana de contenção da China que vem se desenhando há anos: primeiro as tarifas comerciais em 2018, depois as restrições a semicondutores e à Huawei, depois as tarifas do segundo mandato Trump, depois a interrupção do fluxo de petróleo venezuelano para a China, e agora os ataques ao Irã. Cada passo dessa sequência atinge, direta ou indiretamente, a cadeia produtiva, o crescimento e a segurança energética chinesa.
Analistas brasileiros foram diretos na avaliação. Para o historiador de geopolítica Rodolfo Queiroz Laterza, os EUA tentam retirar o Irã da rota econômica e comercial construída pela China e pela Rússia na Eurásia. O cientista político Ali Ramos foi ainda mais preciso: “O Irã é o coração do mundo no projeto geoeconômico chinês.”
Então por que a China não intervém?
A resposta é complexa, mas tem uma lógica clara: a China não quer uma guerra aberta com os EUA — nem pode se dar ao luxo de ter uma. Pequim está economicamente fragilizada, com crescimento desacelerando e exportações em queda. Uma escalada militar com Washington destruiria o que resta de estabilidade econômica global.
A China é um dos principais destinos do petróleo iraniano e a estabilidade da região é questão estratégica para sua segurança energética. Especialistas avaliam que nos próximos dias ficará mais claro se o país adotará uma postura mais ativa, seja participando diretamente do diálogo diplomático ou utilizando sua posição nas Nações Unidas para defender a continuidade do fluxo energético.
O tabuleiro é cruel para Pequim: se não age, perde economicamente. Se age com força, arrisca um confronto com os EUA que pode ser ainda mais devastador. O resultado por enquanto é um silêncio calculado, declarações de paz e uma diplomacia frenética nos bastidores — especialmente com os países do Golfo, que também dependem da China como comprador de seu petróleo.
A corrida pelo petróleo fora do Oriente Médio
Com o Estreito de Ormuz fechado e o Golfo Pérsico em chamas, uma pergunta começa a circular em salas de reunião de empresas de energia pelo mundo inteiro: onde conseguimos petróleo que não passe por ali?
A resposta aponta para uma lista curta de países — e o Brasil está no topo dela.
O pré-sal como trunfo estratégico
A produção brasileira em águas profundas — especialmente nas reservas do pré-sal — é vista como um fator relevante de estabilidade no mercado global. Segundo o engenheiro Décio Oddone, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo (ANP), o crescimento da extração em países como Brasil e EUA reduz a sensibilidade do mercado a crises regionais e ajuda a conter saltos mais acentuados no preço internacional.
O pré-sal tem características únicas que o tornam especialmente atraente num momento de crise: fica no Atlântico Sul, a milhares de quilômetros de qualquer zona de conflito, com rotas de exportação completamente livres. Para a China, que precisa urgentemente de fontes alternativas ao Golfo, o Brasil é uma opção lógica e geograficamente acessível. O presidente do IBP, Roberto Ardenghy, foi direto: se houver restrições ao fluxo do Golfo, isso pode ampliar o mercado asiático para as vendas de petróleo do Brasil e de outros países da América Latina.
O trio sul-americano que pode mudar o mapa do petróleo
O Brasil não está sozinho nessa oportunidade. O JPMorgan estima que Brasil, Guiana e Argentina poderão adicionar entre 750.000 e 1 milhão de barris por dia à oferta global em 2026. A Rystad Energy indica que os três países deverão liderar o crescimento sul-americano com mais de 700.000 barris adicionais em 2026.
A Guiana merece atenção especial. Em novembro de 2025, o país alcançou produção de 900.000 barris por dia, resultado de sucessivas descobertas em blocos offshore considerados entre os mais produtivos do mundo. As projeções indicam que a Guiana poderá ultrapassar 1 milhão de barris por dia até 2027. Um país com menos de 1 milhão de habitantes que virou, quase do nada, uma potência petrolífera — e fica no Atlântico, longe de qualquer conflito.
A Argentina contribui com Vaca Muerta, o maior campo de shale oil fora dos EUA. Em dezembro de 2025, Vaca Muerta atingiu 589.000 barris diários, crescimento de 31% em relação a 2024. Juntos, Brasil, Guiana e Argentina formam um eixo alternativo de fornecimento que, em tempo normal, seria apenas uma nota de rodapé na geopolítica do petróleo. Num momento em que o Golfo Pérsico está em chamas, esse eixo vira protagonista.
A Margem Equatorial: o curinga brasileiro
O Brasil ainda tem uma carta que não jogou completamente: a Margem Equatorial. O trecho que vai do Rio Grande do Norte ao Amapá é chamado de Margem Equatorial brasileira, e as estimativas mais conservadoras do Ministério de Minas e Energia são de que a área tenha aproximadamente 10 bilhões de barris recuperáveis comercialmente — volume próximo ao das reservas provadas do pré-sal.
Para o fundador do CBIE, Adriano Pires, a região pode abrigar entre 7,5 e 10 bilhões de barris de petróleo recuperável, o que colocaria o país diante de uma nova fronteira exploratória comparável ao pré-sal. “O potencial é tão expressivo que já desperta o interesse da Petrobras e de analistas internacionais”, avalia Pires. A Margem Equatorial não resolve a crise de hoje — explorar uma nova fronteira leva anos. Mas sinaliza que o Brasil tem reservas estratégicas para as próximas décadas que, num cenário de Oriente Médio instável, valem cada vez mais.
O limite dessa corrida
É importante não superestimar a capacidade de substituição. Brasil, Guiana, Argentina, EUA e Noruega juntos não cobrem, no curto prazo, o volume que passa pelo Estreito de Ormuz todos os dias. A corrida pelo petróleo alternativo resolve parte do problema no médio prazo — mas não há substituto imediato para 20 milhões de barris diários que simplesmente pararam de fluir.
O que muda é o preço do que esse petróleo alternativo vai custar. O mercado avalia que a existência de múltiplos polos produtores e o avanço tecnológico na exploração energética reduziram a vulnerabilidade estrutural que historicamente ligava crises regionais a choques globais imediatos no preço do petróleo. O petróleo brasileiro, neste cenário, vai para o mercado com um prêmio de segurança: está em rota limpa, é produzido com custos competitivos no pré-sal e vem de um país com estabilidade política suficiente para honrar contratos. Para a China e para a Ásia, que precisam urgentemente de alternativas, o Brasil nunca valeu tanto.
O que observar nos próximos dias
Cinco dias de guerra produziram um cenário muito mais complexo do que qualquer dos dois lados havia previsto. O Irã não desmoronou. Os EUA não conseguiram interromper rapidamente as capacidades militares iranianas. A guerra se regionalizou. E o mundo está recalibrando em tempo real sua dependência energética do Golfo Pérsico.
As três variáveis mais críticas para acompanhar são: se o Irã consegue manter o Estreito efetivamente fechado ou apenas parcialmente perturbado; se a China decide usar seu peso diplomático de forma mais ativa para pressionar por um cessar-fogo; e se a Assembleia de Especialistas consegue eleger um novo líder supremo — e se esse líder será linha-dura ou pragmático.
Cada uma dessas variáveis tem implicação direta no preço do petróleo. E o preço do petróleo tem implicação direta no que você paga para abastecer o carro. A guerra está longe do fim — mas o mundo já não é mais o mesmo de uma semana atrás.