O gás de cozinha é um dos itens mais básicos da vida de qualquer família brasileira. Está na cozinha de mansões e de barracos, serve para fritar o ovo do café da manhã e para preparar o feijão do almoço. Por isso, quando o preço do botijão sobe, todo mundo sente. E quando ele dobra de preço em um único dia, em um leilão que durou mais de seis horas, o assunto vai parar na boca do presidente da República.

Foi exatamente isso que aconteceu no dia 31 de março de 2026. A Petrobras realizou um leilão de GLP, sigla de Gás Liquefeito de Petróleo, com 70 mil toneladas disponíveis para venda. O resultado surpreendeu até os especialistas do setor: em alguns polos de distribuição, o preço do botijão de 13 kg chegou a dobrar em relação ao valor de referência que a estatal praticava. No polo de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, o gás saiu por R$ 72,77 quando o preço tabelado era de R$ 33,37. Um ágio de 117%. No dia seguinte, o presidente Lula foi a público classificar o leilão como “cretinice” e “bandidagem”, prometendo anulá-lo.
Mas o que é exatamente esse leilão? Por que ele aconteceu? O preço do gás vai subir para o consumidor? O que a guerra no Oriente Médio tem a ver com isso? E o que significa a possível recompra de uma refinaria privatizada no governo anterior? Esta matéria responde a todas essas perguntas, do começo ao fim, sem complicar.
O que é o GLP e por que ele é tão sensível
GLP é a sigla técnica para o gás que usamos na cozinha. É uma mistura de propano e butano, dois derivados do petróleo, que fica em estado líquido dentro do botijão por causa da pressão, mas vira gás assim que a válvula é aberta. O botijão mais comum no Brasil é o de 13 kg, o famoso P-13, que abastece fogões residenciais em todo o país.
O GLP é um produto com alto grau de sensibilidade social. Ao longo da história, o Brasil adotou políticas de subsídio e controle de preços para esse combustível justamente porque ele afeta diretamente as famílias de menor renda, que dependem do fogão a gás para cozinhar. Quando o preço sobe, ele pode representar uma parcela significativa do orçamento mensal de quem vive com pouco. Em 2022, por exemplo, o botijão chegou a representar cerca de 9% das despesas de uma família com a cesta básica. Não é pouco.
Por essa razão, qualquer movimento de alta no preço do gás de cozinha tem efeito imediato na percepção popular e no termômetro político do país. É um produto que aparece no noticiário, nas redes sociais e nas conversas de mercado assim que o valor se mexe.
Como o preço do botijão é formado: mais do que você imagina
Antes de entender o que aconteceu com o leilão, é preciso entender como o preço do botijão chega ao consumidor. Ele não é formado por apenas um fator. Na verdade, são quatro grandes componentes que se somam até chegar ao valor que você paga na revenda.
O primeiro é o preço cobrado pelo produtor ou importador, que no caso brasileiro é basicamente a Petrobras. A estatal controla a maior parte da produção nacional de GLP. Esse é o ponto de partida. O segundo componente é a margem das distribuidoras, as empresas que compram o gás da Petrobras em grande volume e o entregam às revendas regionais. O terceiro é a margem das revendas, os estabelecimentos que você conhece no bairro, onde você pega ou recebe o botijão em casa. E o quarto são os impostos, principalmente o ICMS estadual.
Um levantamento que analisou o período entre maio de 2019 e maio de 2024 mostrou que o preço médio do botijão de 13 kg foi de R$ 69,29 para R$ 101,61, um aumento de R$ 32,32 em cinco anos. Desse total, a parcela de produção cresceu R$ 6,54. Já a margem dos distribuidores e revendedores cresceu R$ 19,38. Os impostos estaduais subiram R$ 8,38. Isso significa que, enquanto a Petrobras respondia por menos de R$ 7 do aumento, distribuidoras e revendedores eram responsáveis por quase R$ 20. É um dado que costuma surpreender quem pensa que o preço do gás sobe apenas quando a Petrobras reajusta a tabela.
Esse é um detalhe fundamental: mesmo quando a Petrobras não faz reajuste, o preço final do botijão pode subir porque as margens ao longo da cadeia aumentam independentemente. O consumidor paga por toda essa cadeia.
O sistema de cotas e o que são os leilões da Petrobras
A Petrobras não vende GLP de uma única forma. Ela opera com dois mecanismos distintos, e entender isso é essencial para compreender a polêmica do leilão de março de 2026.
O primeiro mecanismo são as cotas. Distribuidoras que têm contratos com a estatal podem comprar volumes mensais de GLP de acordo com a média histórica de retiradas. Nesses contratos, vale o preço de tabela publicado pela Petrobras em seu site. Esse é o preço “oficial”, que ficou congelado desde julho de 2024.
O segundo mecanismo são os leilões. Neles, as distribuidoras disputam volumes adicionais, acima do que está previsto nas cotas, pagando um prêmio, ou seja, um valor extra sobre o preço de tabela. Esse valor extra é o famoso ágio. Quanto maior a disputa, maior o ágio. A Petrobras iniciou essa prática de leilões mensais em novembro de 2024, inicialmente com volumes pequenos e ágios modestos.
No primeiro leilão, em novembro de 2024, foram ofertadas 10 mil toneladas, o equivalente a cerca de 2% do mercado mensal. O ágio era baixo. Mas ao longo dos meses, o volume leiloado foi crescendo. No leilão realizado em julho de 2025, foram leiloadas 80 mil toneladas, algo em torno de 13% da demanda mensal. A lógica do mecanismo é simples: as distribuidoras disputam o pagamento de um prêmio, o valor adicional a ser pago sobre a tabela para retirada de volumes extras de combustíveis. Na prática, é como se a Petrobras deixasse de garantir 100% da cota das distribuidoras e forçasse essas empresas a buscar o volume restante via leilão, pagando mais caro. O custo extra acaba sendo repassado ao consumidor.
O setor critica essa estratégia porque ela permite que a estatal eleve suas margens sem precisar anunciar oficialmente um reajuste de preços. A tabela continua a mesma, mas o preço real pago pelas distribuidoras sobe por causa do ágio.
O leilão de 31 de março: o que aconteceu
O leilão que provocou a crise começou na manhã de terça-feira, 31 de março de 2026, e durou mais de seis horas. A Petrobras ofertou 70 mil toneladas de GLP, volume que representa cerca de 11% do consumo mensal de gás de cozinha no Brasil. Todo o volume foi arrematado, mas com ágios que surpreenderam o mercado.
O aumento mais expressivo foi em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, onde o botijão de 13 kg saiu por R$ 72,77, contra o preço de tabela de R$ 33,37, um ágio de 117%. Os números dos outros polos também mostram a magnitude do evento. Em São José dos Campos (SP), o gás saiu de R$ 34,74 para R$ 58,14. Em Paulínia, também em São Paulo, de R$ 34,74 para R$ 59,18. Em Araucária, no Paraná, de R$ 35,52 para R$ 64,64. Em Ipojuca, em Pernambuco, de R$ 33,35 para R$ 60,65. Em Belém, no Pará, de R$ 35,10 para R$ 56,88.
A variação é grande de polo para polo porque o mercado leva em conta fatores logísticos, como frete e distância de abastecimento. Mas em todos os casos, o preço mais que dobrou ou ficou muito próximo disso.
Vale destacar que o GLP não havia sofrido reajuste nas refinarias da Petrobras desde julho de 2024. O preço de tabela estava congelado há mais de um ano. Esse congelamento prolongado, somado à pressão internacional dos preços, criou um represamento que explodiu no leilão.
No mesmo dia do leilão, a Refinaria de Mataripe, na Bahia, controlada pelo fundo árabe Acelen, também anunciou reajuste de 15,3% no GLP para distribuidoras, a partir de 1º de abril. A pressão sobre o preço vinha de todos os lados da cadeia ao mesmo tempo.
A reação de Lula e a promessa de anulação
No dia seguinte ao leilão, o presidente Lula foi a público em entrevista à TV Record da Bahia e não poupou palavras. Classificou o leilão de “cretinice” e “bandidagem”, afirmando que o evento aconteceu contra a orientação do governo e contra a vontade da própria direção da Petrobras. Prometeu rever e anular o leilão, com a declaração de que o povo pobre não pagaria pelo conflito no Oriente Médio.
A declaração levantou uma questão relevante: se a Petrobras é uma empresa controlada pelo Estado, como um leilão pode acontecer contra a vontade do governo? A resposta está na estrutura de governança da estatal. A Petrobras é uma sociedade de economia mista, com ações negociadas em bolsa e obrigações com acionistas minoritários e com o mercado de capitais. Suas decisões operacionais são tomadas por uma diretoria executiva, com autonomia técnica. O governo é o acionista majoritário, mas não dita o preço de cada operação comercial.
Esse arranjo cria tensões recorrentes. Quando os preços internacionais sobem e a Petrobras precisa reajustar seus produtos para manter paridade com o mercado externo, o governo enfrenta a pressão política de segurar os preços. Quando segura por muito tempo, o represamento se acumula. O leilão de março de 2026 foi, em parte, o resultado desse represamento de mais de um ano sem reajuste. O setor questiona se a estratégia dos leilões seria mais um instrumento comercial legítimo ou um jogo de narrativa para a estatal dizer que cuida do preço do botijão enquanto eleva suas margens por outra via.
Por que a guerra no Oriente Médio afeta o preço do gás no Brasil
Para entender a pressão sobre o GLP brasileiro, é preciso olhar para o que está acontecendo do outro lado do mundo. O conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã, que se intensificou em março de 2026, provocou uma das maiores altas do petróleo em anos. O petróleo subiu 35% na última semana de conflito e 103% em comparação a dezembro de 2025. Uma alta dessa magnitude tem efeito imediato sobre todos os derivados de petróleo, incluindo o GLP.
O mecanismo é direto. O Brasil produz a maior parte do petróleo que consome, sendo o nono maior produtor mundial. Mas na produção de derivados, como gasolina, diesel e GLP, o país ainda depende de importações para cobrir parte da demanda interna. Segundo especialistas do setor, o Brasil importa cerca de 23% da demanda por combustíveis, entre gasolina, diesel e GLP. Toda essa parcela importada é comprada no mercado internacional, em dólares, aos preços vigentes lá fora. Quando esses preços sobem, o custo de reposição dos estoques aumenta para as importadoras e refinarias.
Em 2025, cerca de 21% do mercado brasileiro de gás de cozinha foi abastecido com produtos importados. Isso significa que um em cada cinco botijões que chegam ao consumidor vem de fora do país. Quando o GLP no mercado internacional fica mais caro, o custo de abastecer esse quinto do mercado sobe junto.
O Estreito de Ormuz é outro fator crítico. Essa passagem de água estreita, localizada na costa do Irã, é por onde passa uma parte significativa do petróleo exportado por países do Oriente Médio. O Irã, em represália aos ataques dos Estados Unidos e de Israel, sinalizou possibilidade de bloqueio do estreito. Um bloqueio real, ou mesmo a ameaça dele, já é suficiente para provocar alta nas cotações internacionais, porque reduz a oferta esperada no mercado global.
O presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis explicou que o impacto da guerra no Oriente Médio nos preços pagos pelo consumidor pode demorar a chegar porque toda refinaria mantém estoques de petróleo, mas que se o preço permanecer alto, as refinarias vão comprar o produto mais caro gradualmente, e esse custo chega ao consumidor.
Além do GLP, a guerra impacta fertilizantes, frete marítimo e a cadeia de exportações do agronegócio brasileiro. O Oriente Médio absorve cerca de 25% das exportações brasileiras de frango, além de 33% do milho e 19% do açúcar. Qualquer perturbação nessa rota comercial tem consequências para a balança comercial do Brasil.
Brasil produz ou importa GLP? Entendendo a dependência
Uma confusão comum é achar que, como o Brasil produz petróleo em grandes quantidades, ele está protegido das oscilações internacionais. Não é bem assim.
O Brasil é autossuficiente na produção de petróleo bruto, mas não na produção de todos os derivados que consome. O parque de refino nacional, gerido majoritariamente pela Petrobras, não tem capacidade de processar todo o petróleo necessário para abastecer a demanda interna de produtos como diesel, gasolina e GLP ao mesmo tempo.
A situação se agravou nos últimos anos com a privatização de refinarias durante o governo Bolsonaro. A venda da Refinaria de Mataripe, na Bahia, em 2021, retirou do controle da Petrobras uma unidade que refina 300 mil barris por dia, o equivalente a 14% da capacidade total de refino do país. Com menos refinarias sob controle estatal, a capacidade de ajuste interno do governo fica mais limitada.
Para cobrir essa diferença entre produção nacional de derivados e demanda interna, o Brasil importa. O GLP vem principalmente dos Estados Unidos e de países do Oriente Médio. Quando o mercado internacional pressiona os preços, o Brasil sente na cadeia de abastecimento.
O mercado global de GLP foi significativamente impactado pela guerra no Irã, que é um grande fornecedor de matérias-primas petroquímicas para a Ásia. Países como China e Índia enfrentaram forte queda nas importações, com relatos de escassez e formação de mercado negro de botijões. Quando grandes consumidores como China e Índia correm para garantir estoque, o preço sobe no mercado global e o Brasil, que também precisa importar, compete nesse mercado mais disputado.
O Programa Gás do Povo: quem é atendido e o que está em risco
Em novembro de 2025, o governo federal lançou o Programa Gás do Povo, substituindo o antigo Auxílio Gás dos Brasileiros. A mudança foi significativa: enquanto o programa anterior pagava um valor em dinheiro a cada dois meses para as famílias comprarem o gás, o novo programa entrega o botijão diretamente, de forma gratuita, em revendas credenciadas.
O Gás do Povo foi projetado para atender 15,5 milhões de famílias brasileiras, beneficiando cerca de 50 milhões de pessoas. Com 100% dos beneficiários atendidos, seriam distribuídos cerca de 65 milhões de botijões por ano, com expectativa de 58 milhões entregues em 2026. Para ter acesso ao benefício, a família precisa estar inscrita no Cadastro Único com renda per capita de até meio salário mínimo. Famílias com dois ou três integrantes recebem até quatro botijões por ano. Famílias com quatro ou mais integrantes recebem até seis botijões por ano. O benefício é resgatado diretamente na revenda credenciada, com o CPF do responsável familiar, sem pagamento em dinheiro no ato.
O programa se tornou lei permanente em fevereiro de 2026, o que representa um compromisso de longo prazo do Estado com essa política. Para 2026, está prevista uma necessidade orçamentária de R$ 5,1 bilhões para garantir o atendimento às 15,5 milhões de famílias.
O funcionamento do programa depende de um preço de referência regionalizado, que é o valor que o governo repassa às revendas credenciadas por cada botijão entregue. É aqui que o leilão da Petrobras criou uma crise dentro da crise. A Associação Brasileira das Entidades de Classe das Revendas de Gás alertou que revendedores estavam avaliando deixar o programa porque os valores de referência adotados já estavam muito abaixo do praticado nos mercados regionais, e o resultado do leilão agravaria esse cenário.
Se as revendas saem do programa porque o preço de referência do governo não cobre seus custos, as famílias beneficiadas ficam sem onde retirar o botijão gratuito. O risco é que o programa perca cobertura justamente quando a pressão sobre o preço é maior. O Sindigás enviou ofício ao Ministério de Minas e Energia pedindo atualização imediata dos preços de referência do programa, apontando que o GLP subiu cerca de 16% desde o início do conflito no Irã e citando mudanças relevantes no cenário econômico e de mercado da cadeia de distribuição.
A cadeia do gás: quem são as distribuidoras e como o gás chega até você
Entre a Petrobras e o consumidor, existe toda uma cadeia de intermediários que compram, transportam, envazam e revendem o GLP. Entender essa cadeia ajuda a compreender por que o preço final do botijão pode subir mesmo sem que a estatal anuncie reajuste.
A Petrobras produz o GLP nas refinarias e vende às distribuidoras. As principais distribuidoras no Brasil são empresas de grande porte, como Liquigás, Ultragaz, Supergasbras e Copa Energia, entre outras. Elas compram o gás em grandes volumes, transportam em caminhões-tanque e abastecem as revendas locais, aquelas empresas menores, geralmente familiares, que você conhece no bairro.
O GLP vendido pela Petrobras é comprado pelas distribuidoras a granel, em toneladas. Depois, é transferido para botijões nas plantas de envaze e distribuído pela região. Cada elo dessa cadeia tem seus custos e suas margens. O frete, por exemplo, varia muito dependendo da distância entre o polo de produção e o destino final. Por isso, o preço do botijão em Belém é diferente do preço em São Paulo.
Quando a Petrobras vende em leilão com ágio de 100%, as distribuidoras pagam o dobro pelo produto. Esse custo extra precisa ir para algum lugar, e ele vai para o preço final do botijão. Mesmo que a estatal mantenha sua tabela de preços oficial inalterada, o custo real pago pelas distribuidoras subiu, e isso eventualmente chega ao consumidor.
Comparativo histórico: o preço do botijão ao longo dos anos
O preço do botijão de 13 kg no Brasil passou por momentos muito diferentes nas últimas décadas. Até 2001, o GLP tinha preço controlado pelo governo federal. Com a abertura do mercado de combustíveis e a adoção do Preço de Paridade de Importação, o chamado PPI, pela Petrobras a partir de 2016, os preços passaram a oscilar de acordo com o mercado internacional e a taxa de câmbio.
Entre 2019 e 2022, o Brasil viveu um período de alta intensa nos preços do GLP. A combinação de alta do dólar, alta do petróleo e adoção do PPI levou o botijão a valores recordes. Em 2022, durante o pico da crise energética global pós-pandemia, o botijão chegou a ser vendido por mais de R$ 120 em algumas regiões do país.
A partir de 2023, com a mudança de governo e uma série de reduções de impostos federais sobre combustíveis, os preços recuaram. A Petrobras também promoveu reduções sucessivas no preço do GLP nas refinarias. Em julho de 2024, o preço foi reduzido e depois mantido congelado por mais de um ano. Segundo levantamento da ANP, o preço médio do botijão de 13 quilos estava em R$ 109,91 no mercado no período anterior ao leilão. Esse é o preço que o consumidor paga na revenda, já incluindo as margens de distribuição, revenda e impostos.
O congelamento que durou de julho de 2024 até o leilão de março de 2026 gerou uma defasagem acumulada. Com o petróleo em alta, a diferença entre o preço médio do GLP brasileiro e o mercado internacional foi se abrindo. O leilão foi uma forma da Petrobras começar a recuperar essa defasagem sem um reajuste oficial de tabela.
A privatização da Refinaria de Mataripe e o que está em jogo na recompra
No mesmo dia em que prometeu anular o leilão de GLP, o presidente Lula também falou sobre a Refinaria de Mataripe, na Bahia. Disse que o governo estuda a recompra do ativo, mas que isso só seria possível a partir de 2029.
A refinaria, oficialmente chamada de Refinaria Landulpho Alves, é a mais antiga do Brasil em operação. Iniciou suas atividades em setembro de 1950. É a segunda maior refinaria do país, com capacidade de refinar 300 mil barris de petróleo por dia, o equivalente a 14% da capacidade de refino nacional.
A refinaria foi vendida em 2021, durante o governo de Jair Bolsonaro, para a Mubadala Investment Company, fundo de investimento dos Emirados Árabes Unidos, que opera a planta por meio da empresa Acelen. De acordo com a Controladoria-Geral da União, a transação de US$ 1,65 bilhão foi realizada abaixo do preço de mercado pela Petrobras. A venda gerou críticas porque a refinaria é estratégica para o abastecimento do Nordeste e do Norte do país. O ministro de Minas e Energia afirmou que a privatização fez muito mal ao povo da Bahia e de Sergipe, com o combustível nessa região ficando mais caro do que no restante do Brasil.
A recompra é desejada pelo governo, mas enfrenta obstáculos. A proposta inicial envolve a retomada da refinaria pela Petrobras, enquanto o Mubadala ficaria apenas com a Acelen Renováveis, que reúne projetos de energia limpa. O processo é complexo porque envolve negociação de valor, além da transferência dos terminais logísticos associados, como os terminais terrestres de Jequié, Itabuna e Candeias, e o terminal marítimo de Madre de Deus.
O contrato de privatização incluiu cláusulas que dificultam e encarecem a recompra pela Petrobras ou que impedem a estatal de atuar em novos processos de distribuição até 2029, o que explica a data citada por Lula. Esse é um dos pontos mais criticados da operação original: além de ter sido vendida por um valor considerado abaixo do mercado, a refinaria foi transferida com condições contratuais que travam a atuação do Estado no setor por anos.
Para o contexto do botijão, a recompra de Mataripe importa porque significaria devolver ao Estado o controle sobre uma refinaria que processa 14% da capacidade de refino do país. Com mais capacidade própria, o Brasil seria menos dependente de importações para abastecer regiões do Nordeste e Norte, que são justamente as áreas com mais famílias vulneráveis e que mais dependem do Gás do Povo.
O embate político: quem manda no preço do gás?
A polêmica do leilão de março de 2026 reacendeu um debate antigo no Brasil: até que ponto o governo pode ou deve interferir na política de preços da Petrobras?
A Petrobras é uma empresa de capital misto. O governo federal detém o controle acionário, mas a companhia tem obrigações com acionistas minoritários, com o mercado de capitais e com regras de governança corporativa. Suas decisões precisam ser tomadas por critérios técnicos e comerciais, não apenas políticos.
Na prática, ao longo dos anos, os governos sempre buscaram influenciar os preços da Petrobras, mas com estratégias diferentes. O governo Dilma usou o congelamento de preços entre 2011 e 2014, o que prejudicou gravemente as finanças da empresa. O governo Bolsonaro adotou o PPI, vinculando os preços ao mercado internacional, o que levou a alta intensa durante a crise energética de 2021 e 2022. O governo Lula, desde 2023, tem oscilado entre cortes e congelamentos, buscando equilibrar as finanças da estatal com a proteção ao consumidor.
O mecanismo dos leilões surgiu como uma solução intermediária: a Petrobras mantém a tabela de preços oficial congelada, evitando o impacto político de um reajuste formal, mas vende parte do produto em leilões com ágios que refletem o mercado real. O resultado prático, no entanto, é que o preço real pago pelas distribuidoras sobe de qualquer forma. O Sindigás avalia que a Petrobras, ao contrário do objetivo inicial dos leilões, acabou gerando escassez de forma calculada, transferindo a responsabilidade do custo extra do botijão para as distribuidoras e, por extensão, para o consumidor.
A promessa de Lula de anular o leilão coloca em evidência a tensão entre a autonomia comercial da estatal e os interesses do governo como acionista majoritário. Juridicamente, anular um leilão já concluído é um processo complexo, com implicações contratuais para as distribuidoras que arremataram o produto. Os desdobramentos dessa decisão ainda estão por se definir.
O que esperar: cenários para o preço do botijão
Com tantas variáveis em jogo, o que pode acontecer com o preço do gás de cozinha nos próximos meses?
O primeiro fator determinante é o conflito no Oriente Médio. Se a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã se prolongar ou escalar, os preços do petróleo podem continuar pressionados, mantendo a defasagem entre o mercado internacional e os preços praticados no Brasil. Se houver uma solução diplomática e o petróleo recuar, a pressão sobre o botijão diminui.
O segundo fator é a decisão do governo sobre o leilão. Se Lula conseguir anulá-lo e a Petrobras voltar a vender todo o GLP pela tabela congelada, o preço ao consumidor fica estável no curto prazo. Mas a defasagem acumulada continua existindo e precisará ser resolvida em algum momento. Uma hora, o represamento volta.
O terceiro fator é o Programa Gás do Povo. Se o preço de referência do programa não for atualizado, revendas podem sair do cadastro, comprometendo o atendimento às famílias beneficiárias. O governo avalia soluções para conter a alta do GLP, incluindo uma possível subvenção temporária, ajustes na gestão da Petrobras e uma atualização da metodologia de cálculo do programa.
O quarto fator é a recompra de Mataripe. Se a negociação avançar e a Petrobras recuperar o controle da refinaria baiana, o governo ganha mais um instrumento para influenciar o abastecimento de combustíveis no Nordeste e Norte. Mas o processo é longo e não resolve o problema no curto prazo.
Para o consumidor que não é beneficiário do Gás do Povo, a perspectiva no cenário atual é de pressão. O preço do botijão no mercado livre tende a subir à medida que os custos das distribuidoras aumentam. A magnitude e o ritmo dependem dos desdobramentos geopolíticos e das decisões que o governo e a Petrobras tomarem nas próximas semanas.
Curiosidades sobre o gás de cozinha no Brasil
Alguns dados ajudam a dimensionar a importância do GLP no dia a dia do país. O Brasil consome em torno de 600 mil toneladas de GLP por mês, o que equivale a cerca de 46 milhões de botijões de 13 kg mensalmente. É um dos maiores mercados de GLP do mundo.
A quase totalidade da produção nacional de GLP fica com a Petrobras. Atualmente, a maior parte do GLP consumido no país, cerca de 75%, é produzida pela estatal. Os 25% restantes vêm de importações e da produção de refinarias privadas como a própria Mataripe.
Famílias que usam lenha para cozinhar, por não terem acesso ao gás, gastam em média 18 horas por semana na coleta de lenha. Essa realidade ainda afeta milhões de brasileiros em regiões mais remotas, e foi um dos principais argumentos para a criação do Gás do Povo: garantir que o acesso ao botijão gratuito reduza essa dependência da lenha, que além de trabalhosa, é prejudicial à saúde por causa da fumaça dentro de casa.
Em torno de 90% dos lares beneficiados pelo programa de auxílio ao gás têm mulheres como chefes de família. São elas que mais sofrem os efeitos da pobreza energética, já que são as principais responsáveis pela preparação dos alimentos.
A Petrobras saiu da distribuição de GLP em 2021, quando vendeu a Liquigás para a Copagaz e para a Itagas. Com isso, a estatal passou a ser apenas produtora e vendedora para as distribuidoras, sem atuar no varejo. Os leilões recentes e o interesse da empresa em retornar ao varejo reabrem um debate sobre essa saída ter sido benéfica ou não para o mercado e para o consumidor.
Conclusão
O que parece uma briga sobre o preço de um botijão é, na verdade, um reflexo de várias camadas de tensão simultâneas: a geopolítica do Oriente Médio, a estrutura de governança de uma estatal estratégica, o desenho de um programa social recém-criado, e o debate permanente sobre o papel do Estado na formação de preços de combustíveis.
O gás de cozinha é o combustível mais democrático do Brasil. Ele está na cozinha de quem tem muito e de quem tem pouco. E é justamente por isso que qualquer perturbação no seu preço tem consequências que vão muito além do que aparece no recibo da revenda.
Entender de onde vem o gás, como o preço é formado, quem são os atores da cadeia e quais são as forças externas que pressionam esse mercado é o primeiro passo para acompanhar com mais clareza o que está acontecendo e o que pode acontecer. Porque o botijão, por mais simples que pareça, carrega dentro dele uma história bem mais complexa do que se imagina.