Petrobras Bate Recorde de Produção no 2º Trimestre de 2026

Um recorde em meio à tensão geopolítica

A Petrobras encerrou o segundo trimestre de 2026 com um resultado que chama atenção não apenas pelos números em si, mas pelo contexto em que foram alcançados. A companhia divulgou, na noite de terça-feira, 28 de julho, o Relatório de Produção e Vendas referente ao período entre abril e junho, e os dados mostram a estatal batendo recorde histórico de produção justamente em um trimestre marcado por forte instabilidade no mercado internacional de petróleo, provocada pelo conflito entre Estados Unidos e Irã e pelas restrições de tráfego no Estreito de Ormuz.

O relatório funciona como uma prévia operacional do balanço financeiro completo da companhia, que será divulgado apenas no dia 6 de agosto. Mas mesmo sem os números de lucro e dividendos, que ainda vão ser apurados e apresentados ao mercado, os dados de produção, refino, importação e exportação já entregam um retrato bastante claro do desempenho da Petrobras nesse período: crescimento expressivo em praticamente todas as frentes operacionais, aproveitamento recorde da capacidade de refino e uma redução significativa na dependência de produtos importados, justamente no momento em que o cenário internacional mais desafiava a segurança do abastecimento.

Esse conjunto de fatores importa não só para investidores acompanhando o desempenho da estatal na bolsa, mas também para o consumidor brasileiro, que sente na pele os efeitos de qualquer instabilidade na cadeia de produção e distribuição de combustíveis. Entender o que a Petrobras conseguiu entregar nesse trimestre ajuda a compreender por que o país conseguiu, até aqui, absorver parte do choque provocado pela guerra no Oriente Médio sem repasses ainda mais agressivos ao preço na bomba.

Os números do trimestre: produção em patamar recorde

Segundo o relatório divulgado pela companhia, a produção total de petróleo e gás, somando as operações no Brasil e no exterior, chegou a 3,34 milhões de barris de óleo equivalente por dia entre abril e junho. Esse volume representa um recorde histórico para a Petrobras, com alta de 14,1% em relação ao mesmo período de 2025 e de 3,4% frente aos três primeiros meses deste ano.

Olhando especificamente para a produção própria de óleo, líquidos de gás natural e gás natural, sem considerar parcerias e volumes de terceiros, o número chegou a 3,308 milhões de boed, um avanço de 14,4% na comparação anual e de 3,5%frente ao trimestre imediatamente anterior. Já a produção comercial de óleo e gás, métrica que desconta volumes usados internamente pela própria operação, somou 2,927 milhões de boed no trimestre, crescimento de 14,3% em 12 meses e de 3,4% frente à média dos três meses anteriores.

No recorte específico de petróleo, o volume produzido foi de 2,689 milhões de barris por dia, um salto de 15,2% em relação ao segundo trimestre de 2025 e de 4,1% frente ao primeiro trimestre deste ano. É um crescimento expressivo em qualquer comparação, ainda mais relevante quando se considera que esse foi o primeiro trimestre integralmente impactado pela escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, que trouxe instabilidade e restrições logísticas relevantes ao comércio global de petróleo.

A Bacia de Campos, região mais antiga e madura de operação da companhia, também surpreendeu. A produção de óleo por lá somou 559 mil barris por dia, o segundo maior volume desde o fim de 2023. É um dado relevante porque a Bacia de Campos vinha em trajetória natural de declínio ao longo dos últimos anos, um comportamento esperado em campos maduros, e a Petrobras conseguiu reverter parcialmente essa tendência com investimento contínuo e gestão mais eficiente dos poços já em operação.

O que impulsionou o recorde: Búzios e as novas plataformas

Boa parte do crescimento registrado no trimestre tem uma explicação concentrada: o avanço da produção no campo de Búzios, no pré-sal da Bacia de Santos, considerado o maior ativo em reservas de toda a companhia e responsável por cerca de metade de tudo o que a Petrobras produz atualmente. O campo respondeu por uma fatia relevante do crescimento total registrado no período, puxado tanto pela maturação de plataformas que já estavam em operação quanto pela entrada de novas unidades.

Entre os destaques específicos citados pela companhia está o ramp-up, ou seja, o processo gradual de aumento de produção até a capacidade plena, das plataformas Maria Quitéria, instalada no campo de Jubarte, e Alexandre de Gusmão, no campo de Mero. Ambas vinham em fase de ativação nos trimestres anteriores e, ao longo do segundo trimestre de 2026, avançaram de forma consistente na curva de produção, contribuindo diretamente para o resultado agregado.

A P-78, também instalada em Búzios, seguiu sua trajetória de aumento de produção, enquanto a grande novidade operacional do trimestre foi a entrada em funcionamento da P-79, a oitava plataforma instalada no campo. A chegada de uma nova unidade de produção sempre representa um salto relevante de capacidade, e o fato de Búzios já somar oito plataformas em operação simultânea dá a dimensão da escala que esse único campo alcançou dentro da estratégia da Petrobras. Segundo a companhia, ainda estão previstas mais quatro plataformas para a região, o que indica que o potencial de crescimento em Búzios está longe de se esgotar.

A diretora de Exploração e Produção da Petrobras, Sylvia Anjos, destacou que o trimestre foi especialmente marcado pela entrada em operação da P-79, reforçando o papel central que Búzios segue exercendo dentro do portfólio da companhia. Esse tipo de expansão contínua, com múltiplas plataformas entrando em diferentes fases de ramp-up ao mesmo tempo, ajuda a explicar por que a Petrobras tem conseguido, trimestre após trimestre, superar suas próprias metas de produção divulgadas ao mercado.

Refino em recorde histórico: o que significa o fator de utilização de 101,2%

Se a produção já surpreendeu, o desempenho do refino talvez tenha sido o dado mais notável do relatório. A Petrobras registrou um fator de utilização das refinarias de 101,2% no trimestre, superando a marca anterior de 101,1%, que era recorde desde 2014. Para quem não acompanha de perto os indicadores técnicos do setor, vale explicar o que esse número representa.

O fator de utilização mede o quanto uma refinaria está processando petróleo em relação à sua capacidade de referência, aquela definida como padrão de operação nominal. Um índice acima de 100% significa que a companhia conseguiu extrair das suas unidades de refino um volume de processamento superior até mesmo ao que seria considerado o teto teórico de operação, algo que só é possível com ganhos reais de eficiência operacional, otimização de processos e, muitas vezes, decisões estratégicas específicas para o momento, como adiar paradas de manutenção programadas.

E foi exatamente isso que a Petrobras fez. Diante do cenário de instabilidade geopolítica e da necessidade de garantir o abastecimento doméstico de combustíveis em meio à guerra no Oriente Médio, a companhia optou por adiar paradas de manutenção em suas unidades de refino, priorizando a manutenção do processamento em nível máximo durante o trimestre. Essa decisão, embora represente um risco operacional que precisa ser gerenciado com cuidado, permitiu à estatal sustentar a produção de derivados essenciais, como diesel e gasolina, justamente no momento em que o mercado internacional estava mais pressionado.

O resultado prático desse esforço aparece de forma clara nos números de importação, que caíram de forma expressiva no período, um reflexo direto da maior capacidade da companhia de suprir a demanda interna com produção própria em vez de recorrer ao mercado externo.

O impacto da guerra EUA-Irã e do Estreito de Ormuz

Vale contextualizar por que esse trimestre específico foi tratado como um teste real de resiliência para a Petrobras. O segundo trimestre de 2026 foi o primeiro período integralmente impactado pela escalada do conflito entre Estados Unidos e Irã, um confronto que trouxe consequências diretas para a navegação no Estreito de Ormuz, uma das rotas mais estratégicas do comércio mundial de petróleo, por onde passa uma fatia relevante de todo o petróleo produzido na região do Golfo Pérsico.

A redução e as restrições no tráfego de embarcações por essa via geraram um efeito imediato sobre os preços internacionais do petróleo, que operaram em patamar elevado ao longo do trimestre, e também sobre a logística global de transporte de petróleo e derivados, com rotas alternativas mais longas, mais caras e, em muitos casos, mais arriscadas do ponto de vista operacional.

A diretora de Logística, Comercialização e Mercados da Petrobras, Angélica Laureano, destacou em nota que esse cenário tornou ainda mais relevante a eficiência operacional e a integração entre os diferentes ativos da companhia. Segundo ela, o maior aproveitamento da produção de derivados, combinado com a menor necessidade de importações, permitiu que a produção própria de diesel sustentasse os compromissos da companhia ao longo do período, mesmo em meio à turbulência externa.

Essa fala resume bem o que os números do trimestre mostram na prática: em vez de um cenário de escassez ou de forte dependência de fornecimento externo justamente no momento mais delicado, a Petrobras conseguiu se apoiar na própria estrutura produtiva, tanto na extração quanto no refino, para atravessar o período com resultados operacionais em alta, não em queda.

Menos importação, mais autossuficiência

Um dos dados mais expressivos do relatório está relacionado à queda nas importações de petróleo e derivados. As importações totais recuaram 41,8% na comparação com o primeiro trimestre deste ano, caindo para uma média de 156 mil barris por dia. Dentro desse total, as compras de petróleo bruto no exterior recuaram 43,3%, enquanto as importações de diesel tiveram uma queda ainda mais acentuada, de 63,3%, chegando a um volume bastante reduzido no período.

Essa redução expressiva na dependência de produtos importados é resultado direto da combinação entre o aumento da produção própria de petróleo e o recorde de utilização das refinarias. Quanto mais a companhia consegue extrair e refinar internamente, menos precisa recorrer ao mercado internacional para complementar a oferta doméstica, especialmente de derivados sensíveis como o diesel, fundamental para o transporte de cargas e para boa parte da matriz produtiva do país.

Esse movimento tem uma importância que vai além do balanço da própria Petrobras. Em um trimestre marcado por instabilidade geopolítica e por preços internacionais mais altos, importar menos significa também menor exposição a esses preços elevados e ao câmbio, já que compras no mercado externo costumam ser feitas em dólar. Uma companhia que consegue suprir mais da própria demanda com produção interna reduz, na prática, parte do risco que normalmente seria repassado ao longo da cadeia, incluindo o consumidor final.

Exportações em alta: novos clientes e a saída parcial da China

Do outro lado da equação, as exportações da Petrobras também tiveram um trimestre de destaque, com crescimento expressivo em relação aos períodos anteriores. A companhia atribuiu parte desse movimento a uma redução nas compras de petróleo brasileiro por parte da China, motivada pelo próprio cenário de preços internacionais mais elevados no período, o que levou a estatal a reposicionar parte da sua produção excedente para outros mercados.

Esse espaço deixado pela redução das compras chinesas foi ocupado principalmente pela Índia, pela Europa e por outros países da Ásia. Além disso, a Petrobras conquistou cinco novos clientes internacionais ao longo do trimestre, entre eles refinarias localizadas em Taiwan, Omã, Polônia, Suécia e África do Sul. A diversificação de mercados compradores é, em si, um dado relevante, porque reduz a dependência de um único grande cliente e amplia a capacidade da companhia de negociar em melhores condições, distribuindo o risco comercial entre diferentes regiões do mundo.

Esse movimento de diversificação também reforça a posição do Brasil dentro do mercado global de petróleo, mostrando que a produção brasileira, cada vez mais concentrada no pré-sal, tem conseguido conquistar espaço em regiões que antes não figuravam entre os principais destinos das exportações da Petrobras.

O que isso significa para o abastecimento interno e o consumidor brasileiro

Para o motorista brasileiro, que sente diretamente no bolso qualquer oscilação no preço dos combustíveis, um trimestre de recorde de produção e refino combinado com queda nas importações traz um sinal relativamente positivo, ainda que precise ser interpretado com cautela. Uma Petrobras que consegue suprir mais da demanda interna com produção própria, sem depender tanto de compras externas em um momento de preços elevados, reduz parte da pressão que normalmente empurraria os preços domésticos para cima em cenários de crise geopolítica como o vivido nesse trimestre.

É importante, no entanto, não confundir desempenho operacional recorde com garantia automática de preço mais baixo na bomba. O preço final pago pelo consumidor depende de uma cadeia bem mais longa, que envolve não apenas a produção e o refino da Petrobras, mas também tributação federal e estadual, margens de distribuição e revenda, logística de transporte até os postos e, claro, a própria política de preços praticada pela companhia, que leva em conta referências internacionais mesmo quando a produção nacional está em alta.

Ainda assim, o resultado operacional divulgado nesse relatório é relevante porque mostra que, mesmo em um trimestre de forte tensão internacional, com o Estreito de Ormuz sob restrição e o petróleo operando em patamar elevado, o Brasil conseguiu sustentar e até ampliar sua capacidade de autoabastecimento. Isso significa menos vulnerabilidade a choques externos justamente nos momentos em que esses choques mais poderiam se refletir no preço pago pelo consumidor brasileiro.

O que vem a seguir: balanço financeiro em 6 de agosto

O relatório de produção e vendas divulgado nesta terça-feira funciona, como o próprio nome sugere, como uma prévia operacional. Os números completos de faturamento, lucro líquido, geração de caixa e distribuição de dividendos só serão conhecidos no dia 6 de agosto, quando a Petrobras divulga o balanço financeiro completo referente ao segundo trimestre de 2026.

O mercado já trabalha com expectativas elevadas para esse resultado financeiro. Analistas do BTG Pactual projetam um Ebitda ajustado de aproximadamente US$ 18,9 bilhões e um lucro líquido em torno de US$ 9,5 bilhões para o trimestre, uma estimativa sustentada justamente pela combinação entre o desempenho operacional forte, evidenciado nesse relatório de produção, e o patamar mais elevado dos preços internacionais do petróleo ao longo do período, resultado direto da instabilidade geopolítica vivida entre abril e junho. O Santander segue linha semelhante, também apostando em um resultado sólido para a companhia nesse trimestre.

Até lá, o relatório de produção e vendas já cumpre seu papel de sinalizar ao mercado, e também ao consumidor final, que a Petrobras atravessou um dos trimestres mais desafiadores do ano do ponto de vista geopolítico entregando recordes operacionais, e não retração. Esse tipo de sinal costuma ser acompanhado de perto por investidores, mas também tem repercussão direta na forma como analistas e formadores de opinião avaliam a resiliência do abastecimento brasileiro diante de crises internacionais.

Produção recorde não é garantia de preço menor: por que a economia real está no seu controle

O relatório divulgado pela Petrobras mostra um cenário tecnicamente positivo: mais produção, mais eficiência no refino, menos dependência de importação e uma companhia que conseguiu crescer justamente durante um dos trimestres mais tensos do ano no mercado internacional de petróleo. Mas, como qualquer motorista brasileiro já aprendeu ao longo dos anos, um bom resultado operacional da Petrobras não se traduz automaticamente em um preço menor no painel do posto. Entre a produção recorde e o valor final na bomba existe uma cadeia longa de tributos, margens e variáveis internacionais que seguem pesando no bolso de quem abastece todos os dias.

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