Petrobras Tenta Recomprar Refinaria Que Privatizou em 2021

A Refinaria de Mataripe nasceu antes mesmo da Petrobras existir. Inaugurada em 17 de setembro de 1950, às margens do Recôncavo Baiano, ela foi a primeira refinaria de petróleo do Brasil, um país que ainda tentava provar para o mundo que tinha petróleo no seu solo. Hoje, mais de sete décadas depois, essa mesma refinaria está no centro de uma das negociações mais comentadas do setor energético brasileiro: a Petrobras quer recomprar o ativo que ela mesma vendeu em 2021, por US$ 1,65 bilhão, a um fundo soberano dos Emirados Árabes Unidos.

A história parece simples, mas tem camadas. Envolve política, dinheiro, soberania energética, o preço do gás de cozinha no Nordeste, uma pandemia, um fundo árabe trilionário e a complexa governança de uma empresa listada na Bolsa de Nova York. Para entender o que está em jogo nessa negociação, é preciso começar pelo começo.

A refinaria que nasceu antes do petróleo virar símbolo nacional

Quando a Refinaria Nacional do Petróleo deu a partida em setembro de 1950, o Brasil ainda não tinha a Petrobras. A estatal só seria criada três anos depois, em 1953, e logo incorporou a refinaria baiana ao seu patrimônio, rebatizando-a de Refinaria Landulpho Alves, em homenagem ao engenheiro e político baiano que lutou pelo petróleo nacional.

Localizada em São Francisco do Conde, no Recôncavo Baiano, a refinaria nasceu diretamente ligada à descoberta dos primeiros poços de petróleo do país, na região de Candeias. Sua construção transformou a economia local: uma classe operária surgiu onde antes havia pescadores e trabalhadores da cana-de-açúcar. A refinaria virou o motor de um novo ciclo econômico para a Bahia.

No começo, processava apenas 2.500 barris de petróleo por dia. Um número modesto, mas suficiente para mudar uma crença que dominava os especialistas da época: a de que não havia petróleo no solo brasileiro. A refinaria não apenas provou o contrário, como manteve a Bahia como o único estado produtor de petróleo do país por quase três décadas.

Com o tempo, foi crescendo. Hoje, a refinaria possui capacidade instalada para processar mais de 300 mil barris de petróleo por dia, o que a torna a segunda maior do Brasil, atrás apenas da Replan, em Paulínia (SP), que pertence à Petrobras. Sua área ocupa 6,4 quilômetros quadrados e ela responde por 14% da capacidade total de refino do país, por mais de 40% do abastecimento de todo o Nordeste e por 80% do abastecimento da Bahia.

Em termos econômicos, o peso da refinaria para o estado é impressionante. Ela responde por 17% do ICMS arrecadado na Bahia e por cerca de 10% do PIB estadual. Para o município de São Francisco do Conde, onde está instalada, contribui com cerca de R$ 750 milhões por ano em ICMS, o que representa 80% da arrecadação do município e explica por que a cidade é uma das mais ricas do estado em termos de receita per capita.

Como funciona uma refinaria de petróleo

Antes de continuar, vale um parêntese didático: o que exatamente uma refinaria faz?

O petróleo bruto extraído do subsolo é uma mistura complexa de hidrocarbonetos. Por si só, ele não serve diretamente para abastecer um carro, voar um avião ou cozinhar um feijão. É preciso um processo industrial chamado refino para separar e transformar o petróleo em produtos úteis.

Dentro de uma refinaria, o petróleo cru passa por uma série de etapas. A primeira é a destilação atmosférica, onde o óleo é aquecido a altas temperaturas e suas frações mais leves sobem em forma de vapor, enquanto as mais pesadas ficam na parte inferior. Em seguida, vêm processos como o craqueamento catalítico, que quebra moléculas maiores em moléculas menores, aumentando a produção de gasolina e diesel.

O resultado final é uma variedade enorme de produtos. Da Refinaria de Mataripe saem gasolina, diesel, gás de cozinha (GLP), querosene de aviação, nafta petroquímica, óleo combustível, asfalto e mais de 30 tipos de produtos ao todo. Todos esses derivados são essenciais para o funcionamento da economia, do transporte de mercadorias ao gás que aquece a panela de milhões de famílias brasileiras.

É por isso que uma refinaria não é apenas uma fábrica. Ela é uma infraestrutura estratégica. Países que controlam sua capacidade de refino têm muito mais autonomia energética do que países que dependem de importar combustíveis já processados. E é exatamente esse argumento que está no centro do debate sobre Mataripe.

O Projeto Phil e a venda no governo Bolsonaro

Em 2019, sob a presidência de Jair Bolsonaro, a Petrobras lançou o chamado Projeto Phil: um programa de desinvestimento que previa a venda de oito refinarias, além de outras unidades como a planta de lubrificantes do Ceará e a fábrica de xisto do Paraná. O conjunto representava cerca de 50% da capacidade de refino da estatal.

A justificativa apresentada na época era dupla. Primeiro, reduzir o endividamento da Petrobras e melhorar a alocação de capital. Segundo, estimular a concorrência no setor de refino, seguindo diretrizes do Conselho Nacional de Política Energética e compromissos firmados com o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para abertura do mercado.

A RLAM foi a primeira das oito refinarias a ter o processo de venda concluído. Em março de 2021, o Conselho de Administração da Petrobras aprovou a transação. O valor acordado foi de US$ 1,65 bilhão. Em dezembro do mesmo ano, o processo foi finalizado com o pagamento efetivo de US$ 1,8 bilhão pela parte compradora, valor ajustado em função de correção monetária e variações no capital de giro até o fechamento da operação.

A refinaria trocou de mãos oficialmente em 1º de dezembro de 2021, deixou de se chamar Refinaria Landulpho Alves e passou a ser Refinaria de Mataripe, operada pela Acelen, empresa criada especialmente pelo comprador para gerir o ativo.

E quem é esse comprador? O Mubadala.

Quem é o Mubadala e o que ele faz no Brasil

O Mubadala Investment Company é o fundo soberano do emirado de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos. Fundos soberanos são veículos de investimento controlados por governos, que reúnem as reservas de riqueza de um país e as aplicam em ativos pelo mundo para multiplicá-las. O Mubadala existe para que a riqueza gerada pelo petróleo de Abu Dhabi trabalhe a favor do emirado mesmo quando os poços um dia secarem.

Com patrimônio superior a US$ 300 bilhões, o Mubadala é um dos maiores fundos soberanos do planeta. Em 2024, foi o fundo soberano mais ativo do mundo, com US$ 29,2 bilhões investidos em um único ano, um crescimento de 67% em relação a 2023, segundo a consultoria Global SWF.

No Brasil, o Mubadala opera por meio da Mubadala Capital, uma gestora de ativos que acumula portfólio diversificado de investimentos. Desde que chegou ao país em 2012, comprou participação na holding EBX de Eike Batista, assumiu o controle do Metrô Rio, adquiriu a concessionária Rota das Bandeiras (quase 300 quilômetros de rodovias em São Paulo), entrou no capital da Atvos (usinas de açúcar e álcool), assumiu o controle da Zamp (empresa que opera Burger King, Starbucks e Popeyes no Brasil), comprou academias de ginástica e faculdades de medicina na Bahia.

A estratégia da gestora no Brasil é clara: comprar ativos em dificuldade financeira por preços menores do que valeriam em condições normais e transformá-los em negócios rentáveis. Quando o Mubadala comprou a refinaria da Petrobras, estava aplicando exatamente essa lógica, mas desta vez não havia dificuldade financeira da vendedora: era uma decisão política de desinvestimento.

A Acelen, criada para operar a Refinaria de Mataripe, passou a gestionar o ativo com foco em modernização e eficiência operacional. Desde que assumiu, investiu mais de R$ 3 bilhões na planta, realizou recordes de produção em 2025, ampliou o portfólio para mais de 30 produtos e está construindo um parque solar em João Dourado, no semiárido baiano, com 161 megawatts de capacidade e capacidade de evitar a emissão de 128 mil toneladas de CO₂ por ano.

A conta que não fechou: a venda abaixo do preço de mercado

Um detalhe da venda que nunca foi pacificamente aceito é o valor pago. Os US$ 1,65 bilhão pagos pelo Mubadala sempre foram questionados por especialistas do setor.

O Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep) analisou o valor da refinaria em três cenários diferentes. Nos três, o preço justo estaria entre US$ 3,12 bilhões e US$ 3,92 bilhões. Ou seja, a refinaria teria sido vendida por praticamente metade do que valia. Uma auditoria da Controladoria-Geral da União (CGU) chegou a apontar fragilidades no processo, indicando que a decisão de concluir a venda em meio à pandemia de Covid-19 pode ter contribuído para que o valor de mercado fosse subestimado. O TCU analisou a denúncia, mas não encontrou irregularidades formais na transação.

Se o raciocínio estiver correto, significa que o Brasil vendeu um ativo estratégico por menos da metade do preço real. E agora, para recomprar o que foi vendido, precisaria pagar bem mais caro. Quanto mais caro? Aí está o nó da negociação atual.

O que mudou no preço dos combustíveis no Nordeste

Para quem mora na Bahia, os efeitos da privatização foram sentidos na hora de ir ao posto de gasolina ou comprar um botijão de gás. Os dados contam uma história bastante clara.

Em 2021, último ano sob gestão da Petrobras, a Bahia ocupava a terceira posição entre os estados com o gás de cozinha mais barato do país. O preço médio do GLP estava em R$ 94,65, enquanto a média nacional era de R$ 102,32. A Bahia era, portanto, mais barata do que o resto do Brasil.

Três meses depois da privatização, o cenário havia se invertido completamente. Em março de 2022, a gasolina comum na Bahia custava R$ 7,69 por litro, 15% acima da média nacional de R$ 6,68 registrada pela ANP na mesma semana. A Bahia havia se tornado o estado com o combustível mais caro do Brasil.

Entre 2022 e 2024, enquanto o preço médio do GLP no Brasil ficou em R$ 107,41, na Bahia o preço saltou para R$ 123,09, uma diferença de 14,6%. Em outubro de 2024, o botijão de gás chegou a custar em média R$ 115,13 na Bahia, contra R$ 106,57 de média nacional. Em algumas regiões do estado, o botijão foi vendido a R$ 135,00.

Em termos percentuais, um levantamento do Observatório Social da Petrobras mostrou que a gasolina vendida pela Acelen a distribuidoras chegou a ser 27,4% mais cara do que nas refinarias da Petrobras. Outro dado revelador: a Acelen vendia o mesmo combustível para distribuidoras de estados como Pernambuco por preços mais baixos do que cobrava na Bahia. O motivo é simples: em Pernambuco, a Petrobras faz concorrência. Na Bahia, a Acelen é praticamente monopolista.

Isso porque cerca de 95% dos combustíveis vendidos em postos baianos são produzidos na Refinaria de Mataripe. Com a saída da Petrobras do refino no estado, não há outra fonte relevante de abastecimento. O estudo da PUC-Rio havia antecipado exatamente esse risco antes da privatização: a RLAM era uma das refinarias com maior potencial de formação de monopólio regional, o que inevitavelmente pressionaria os preços para cima.

Além do combustível mais caro, houve impacto na arrecadação. O Fator de Utilização da refinaria, que sob a Petrobras chegou a operar próximo de 90%, caiu para 63% em certos períodos sob a gestão privada. Essa redução, somada à queda no volume de combustíveis produzidos, diminuiu a arrecadação de ICMS da Bahia em cerca de R$ 500 milhões por mês. A refinaria, que chegou a responder por 27% do ICMS do estado, passou a ter contribuição bem menor. Distribuidores baianos começaram a comprar combustível em outros estados para fugir dos preços, levando ainda mais arrecadação para fora da Bahia.

Por que o governo Lula quer recomprar a refinaria

A intenção do governo Lula de recuperar a Refinaria de Mataripe está conectada a um argumento central: soberania energética. O presidente declarou publicamente, em março de 2026, que a Petrobras pretende retomar o controle do ativo: a Bahia voltará a ter sua refinaria de volta, mesmo que demore um pouco.

O argumento tem base nos números. Uma refinaria que abastece 80% de um estado tão grande quanto a Bahia é uma peça crítica de infraestrutura. Quando ela está nas mãos de um agente privado estrangeiro, sem obrigação de seguir políticas de preço nacionais, as consequências são sentidas diretamente no bolso dos consumidores.

Há também um componente político relevante. O Nordeste é a base eleitoral mais sólida do PT. Combustível mais caro, gás de cozinha inacessível para famílias de baixa renda, problemas de abastecimento: tudo isso se traduz em desgaste político e econômico para a região. Recomprar a refinaria é, ao mesmo tempo, um projeto de política energética e um gesto político em direção ao eleitorado nordestino.

Além disso, o governo argumenta que o controle estatal sobre refinarias permite que a Petrobras calibre melhor sua política de preços, absorvendo parte das oscilações internacionais sem repassar tudo imediatamente ao consumidor. A Acelen, que não produz petróleo próprio e precisa comprar no mercado internacional em dólar, não tem essa flexibilidade: quando o preço sobe lá fora, o reajuste vem logo.

O impasse no preço e a complexidade da negociação

O problema é que querer recomprar e conseguir recomprar são coisas muito diferentes. O ministro Alexandre Silveira explicou com clareza o ponto central do impasse: a negociação existe há cerca de dois anos e meio, mas ainda não avançou porque Petrobras e Mubadala não chegaram a um consenso sobre o valor do ativo.

O Mubadala investiu mais de R$ 3 bilhões na modernização da refinaria desde que assumiu. Realizou o maior programa de modernização da história do ativo em sete décadas, ampliou a capacidade de produção, lançou novos produtos, buscou eficiência ambiental e tem planos ousados de expansão, como o projeto de biorrefinaria com investimento previsto de US$ 3 bilhões para produzir combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel verde a partir da macaúba, uma palmeira nativa que pode produzir até dez vezes mais óleo do que a soja, a um custo 70% menor.

O diretor executivo do fundo já declarou que os investimentos contínuos que o Mubadala faz na refinaria não são atitude de quem quer vender. Em 2024, foram aportados US$ 150 milhões no ativo, com mais US$ 100 milhões previstos para 2025. Isso eleva o preço que o fundo considera justo para qualquer negociação de venda.

Do lado da Petrobras, a situação é igualmente delicada. A empresa é listada na Bolsa de Nova York e tem acionistas privados que precisam ser respeitados. Qualquer aquisição precisa passar por comitês internos e pelo Conselho de Administração, com critérios rigorosos de viabilidade econômica e financeira. O governo federal pode sinalizar interesse político na recompra, mas não pode simplesmente ordenar à Petrobras que compre: a governança corporativa impede esse tipo de interferência direta.

Como o próprio ministro Silveira resumiu, a Petrobras só avançará na negociação se o preço for considerado adequado do ponto de vista comercial. A decisão não é política. É financeira. E o valor que o Mubadala pede parece, por ora, estar acima do que a Petrobras considera razoável.

O que significa ser listada na Bolsa e por que isso importa

Esse ponto merece uma explicação mais detalhada, porque é central para entender por que a recompra não acontece simplesmente porque o presidente quer.

Quando uma empresa abre capital na Bolsa de Valores, ela passa a ter acionistas que investiram seu dinheiro esperando retorno. A Petrobras, que negocia suas ações tanto na B3 (Bolsa brasileira) quanto na NYSE (Bolsa de Nova York), tem milhões de acionistas ao redor do mundo. Qualquer decisão grande que a empresa toma afeta o valor das ações e, por consequência, o patrimônio desses acionistas.

Por isso, empresas listadas em bolsa precisam seguir regras rígidas de governança corporativa. Decisões relevantes de investimento e aquisição passam por comitês técnicos, são avaliadas pela diretoria executiva e precisam ser aprovadas pelo Conselho de Administração, que tem representantes dos acionistas. Uma aquisição motivada por interesse político, sem justificativa econômica sólida, pode gerar processos judiciais de acionistas que se sintam lesados.

No caso da Petrobras, esse aspecto é ainda mais sensível porque a empresa tem histórico de interferência política que gerou prejuízos bilionários no passado, levando a investigações e a uma queda brutal no valor das ações. O mercado observa com lupa qualquer movimento que pareça repetir esse padrão.

Isso não significa que a recompra seja impossível. Significa que ela precisa fazer sentido como negócio, não apenas como gesto político. Se o preço for justo e a operação tiver viabilidade econômica demonstrável, o Conselho de Administração pode aprovar. Se não for, não aprova.

O panorama do desinvestimento: o que restou do Projeto Phil

Das oito unidades que o governo Bolsonaro planejava vender via Projeto Phil, a RLAM foi a única que de fato concluiu o processo de transferência completa para um comprador externo. As demais enfrentaram resistências regulatórias, políticas e de mercado, e com a chegada do governo Lula em 2023, o programa de desinvestimento foi formalmente encerrado.

Isso significa que, atualmente, a Petrobras mantém controle sobre a maioria das suas refinarias. A capacidade de refino da estatal segue sendo dominante no Brasil, respondendo por parcela significativa do processamento nacional de petróleo. Mataripe é, de certa forma, a exceção: o único ativo de refino de grande porte que saiu completamente do guarda-chuva da Petrobras.

Essa condição de exceção é um dos argumentos usados por quem defende a recompra: restituir Mataripe ao controle estatal completaria o quadro que o governo atual considera ideal para a segurança energética nacional.

Soberania energética: uma questão global

O debate sobre Mataripe reflete uma discussão que acontece em vários países ao redor do mundo: até que ponto um Estado deve manter controle sobre ativos de energia considerados estratégicos?

Em diferentes momentos históricos e em diferentes países, a resposta oscilou. Nos anos de liberalização econômica dos anos 1990 e 2000, a tendência global era privatizar e confiar no mercado para organizar o setor. A ideia era que a concorrência privada seria mais eficiente e que os preços para o consumidor seriam menores.

A experiência prática, no entanto, mostrou que em setores com características de monopólio natural ou regional, como o refino de petróleo em áreas geográficas específicas, a privatização pode criar poder de mercado concentrado, com efeitos negativos sobre preços e abastecimento. O caso da Bahia é um exemplo bastante concreto desse fenômeno.

Países como a França e a Noruega nunca abriram mão do controle sobre suas infraestruturas energéticas essenciais. A Noruega, em particular, é um exemplo frequentemente citado: usou o petróleo como base para criar o maior fundo soberano do mundo, preservando o controle estatal sobre a produção e garantindo que a riqueza natural beneficiasse o conjunto da população por gerações. A Venezuela e o México, por outro lado, são exemplos de como o controle estatal excessivo e ineficiente pode levar à deterioração dos ativos.

O ponto de equilíbrio está no meio: controle estatal sobre infraestruturas críticas, com gestão profissional e critérios comerciais rigorosos. A Petrobras, listada em bolsa e com governança corporativa consolidada, representa exatamente essa tentativa de equilíbrio.

O cenário geopolítico do petróleo e seu impacto na negociação

Qualquer discussão sobre o valor de uma refinaria em 2025 e 2026 precisa levar em conta o contexto do mercado global de petróleo, e esse contexto está longe de ser estável.

A escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã trouxe de volta o fantasma da interrupção no fornecimento pelo Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% de todo o petróleo comercializado no mundo. Sanções, ameaças militares e instabilidade regional criaram um ambiente de volatilidade que afeta diretamente o preço do barril de petróleo e, por consequência, toda a cadeia de combustíveis ao redor do planeta.

Para o Brasil, essa volatilidade tem efeitos diretos. O país é grande produtor de petróleo bruto, especialmente no pré-sal, mas ainda depende de importações para certos tipos de óleo necessários no refino. A oscilação do dólar, combinada com a volatilidade do preço do barril, cria pressão constante sobre os preços dos derivados no mercado interno.

Nesse cenário, o controle sobre a capacidade de refino se torna ainda mais estratégico. Uma refinaria que depende 100% de petróleo comprado no mercado internacional, em dólar, como é o caso da Acelen em Mataripe, está mais exposta às flutuações externas do que uma refinaria integrada ao sistema Petrobras, que tem produção própria de petróleo e pode gerenciar melhor as oscilações.

Por outro lado, a volatilidade geopolítica também complica a negociação. Em momentos de incerteza, é muito difícil precificar um ativo como uma refinaria. O comprador quer pagar menos porque o futuro é incerto. O vendedor quer receber mais pelo mesmo motivo. Esse impasse de percepção de valor é exatamente o que está travando as conversas entre Petrobras e Mubadala.

Há outro fator que torna o Mubadala menos apressado para vender: o fundo árabe está investindo pesado em biocombustíveis a partir de Mataripe. O projeto da Acelen Renováveis, voltado para a produção de SAF e diesel verde com macaúba, representa US$ 3 bilhões em investimentos planejados. Se esse projeto decolar, o valor da refinaria aumenta consideravelmente. Vender agora, antes de colher os frutos desse investimento, seria um mau negócio do ponto de vista do Mubadala.

O que muda no abastecimento se a Petrobras recomprar

Se a negociação avançar e a Petrobras de fato recuperar o controle de Mataripe, quais seriam os efeitos práticos?

O mais imediato seria a integração da refinaria à política de preços da estatal. A Petrobras tem maior flexibilidade para absorver oscilações internacionais sem repassar tudo ao consumidor de uma vez, porque produz petróleo próprio e tem uma estrutura de custos integrada. Isso poderia aliviar a pressão sobre os preços dos combustíveis no Nordeste e na Bahia especificamente, especialmente no gás de cozinha, que é o produto que mais impacta as famílias de baixa renda.

Haveria também um efeito sobre a arrecadação estadual. Com a refinaria operando com mais regularidade e dentro da política de abastecimento da Petrobras, a tendência seria de recuperação da participação da refinaria no ICMS baiano, que havia caído significativamente desde a privatização.

Do ponto de vista do abastecimento regional, a reintegração ao sistema Petrobras poderia reduzir os riscos de desabastecimento que ocorreram em alguns períodos sob a gestão da Acelen, quando problemas operacionais deixaram distribuidores baianos sem gasolina ou gás de cozinha suficientes.

Por outro lado, há riscos que precisam ser considerados. Se a recompra for feita por um preço muito acima do razoável apenas para satisfazer um objetivo político, o impacto para os acionistas da Petrobras seria negativo. E se a gestão da refinaria retroceder em termos de eficiência operacional, os benefícios para o consumidor podem não se materializar da forma esperada.

A Acelen, é preciso reconhecer, investiu pesado em modernização e obteve resultados operacionais relevantes. A refinaria registrou recordes de produção em 2025 e foi classificada entre as três melhores da América Latina pela World Refining Association em 2023. Qualquer gestão futura precisaria, no mínimo, manter esse patamar de eficiência.

Uma questão aberta

A história da Refinaria de Mataripe é um retrato fiel das tensões que marcam o debate energético brasileiro. De um lado, a lógica do mercado, que defende que a gestão privada é mais eficiente e que a concorrência beneficia o consumidor. Do outro, a realidade de que em mercados com características de monopólio regional, essa lógica nem sempre funciona como esperado.

O que os dados mostram, no caso específico de Mataripe, é que a privatização resultou em combustíveis mais caros para o consumidor baiano, queda na arrecadação do estado e episódios de desabastecimento. Se isso é consequência inevitável de qualquer gestão privada ou resultado de escolhas específicas da Acelen é um debate que ainda não tem resposta definitiva.

O que é certo é que a negociação está em curso, que o impasse é real e que o desfecho depende de uma equação que envolve preço, governança, cenário geopolítico e vontade política de todas as partes. O governo quer. A Petrobras pode querer, se o preço compensar. O Mubadala pode vender, se a oferta for boa. E os brasileiros, especialmente os nordestinos, acompanham de perto, porque o resultado dessa negociação vai aparecer diretamente no preço que pagam para encher o tanque e acender o fogão.

Mais de 75 anos após a sua primeira partida, a Refinaria de Mataripe continua sendo, acima de tudo, uma questão de Estado.

Perguntas frequentes

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