Empresas de combustíveis fósseis estão prestes a encerrar 2026 com lucros que ultrapassam qualquer previsão feita no início do ano. Seis das maiores companhias do setor, Chevron, Shell, BP, ConocoPhillips, Exxon e TotalEnergies, devem acumular juntas cerca de US$ 94 bilhões em lucros somente neste ano, segundo análise da organização sem fins lucrativos Oxfam International. O número impressiona por si só, mas ganha outra dimensão quando colocado em perspectiva: isso representa quase US$ 3 mil de lucro por segundo, todos os dias, durante 365 dias.
Para efeito de comparação, o salário mínimo mensal no Brasil em 2026 é de R$ 1.518. Enquanto um trabalhador brasileiro recebe esse valor em um mês inteiro de trabalho, essas seis empresas juntas lucram o equivalente em menos de um segundo.
Esse número não é fruto de uma gestão extraordinariamente eficiente nem de uma inovação tecnológica que reduziu custos de produção. Ele é, em grande parte, resultado direto de um conflito geopolítico que mantém o mundo em alerta: a guerra entre os Estados Unidos e o Irã, que se arrastou por mais de dois meses e empurrou os preços do petróleo para uma média superior a US$ 100 por barril em março de 2026.
A pergunta que essa reportagem se propõe a responder é simples, mas a resposta é complexa: como a instabilidade no Oriente Médio se transforma em lucro bilionário para um punhado de empresas enquanto famílias no Brasil, na Ásia, na África e nos Estados Unidos pagam cada vez mais caro para encher o tanque?
O Estreito de Ormuz: a comporta que controla o mundo
Há um ponto no mapa que, quando ameaçado, faz economias inteiras tremerem. O Estreito de Ormuz é um corredor marítimo estreito, com apenas 33 quilômetros de largura em seu ponto mais apertado, que separa o Irã, ao norte, de Omã e dos Emirados Árabes Unidos, ao sul. Geograficamente, ele conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e, a partir daí, ao restante do mundo.
O que faz esse estreito tão estratégico é o volume de petróleo que passa por ele todos os dias. Segundo dados da Agência de Informação de Energia dos Estados Unidos, o Estreito de Ormuz é responsável pelo trânsito de aproximadamente 21 milhões de barris de petróleo por dia, o que representa cerca de 20% de todo o comércio global de petróleo. Em outros termos, um em cada cinco barris de petróleo que chegam às refinarias do mundo passou por essa faixa estreita de água.
Os países que mais dependem do petróleo que atravessa Ormuz são os grandes consumidores asiáticos: Japão, China, Índia e Coreia do Sul. Juntos, eles absorvem a maior parte do volume transportado por ali. Qualquer perturbação nessa rota, seja por um conflito militar, por bloqueio deliberado ou por tensões diplomáticas que elevem o risco para os navios-tanque, tem efeito imediato sobre a oferta global de petróleo e, consequentemente, sobre seu preço.
O Irã sabe disso e usa esse conhecimento como instrumento de pressão geopolítica. Ao longo das últimas décadas, sempre que as tensões com o Ocidente escalaram, Teerã ameaçou fechar ou restringir a passagem pelo estreito. Em 2026, com o conflito diretamente envolvendo os Estados Unidos, as restrições impostas pelo Irã foram além da retórica e afetaram de forma concreta o fluxo de petróleo, provocando o salto de preços que alimentou os lucros recordes das petroleiras ocidentais.
A anatomia do preço: do poço ao posto
Para entender como um conflito no Oriente Médio chega ao preço que o consumidor paga na bomba, é preciso percorrer o caminho do petróleo desde sua extração até o momento em que vira combustível no tanque do carro.
O processo começa com a extração, que pode ocorrer em campos terrestres ou em plataformas offshore no mar. O petróleo bruto extraído é então transportado por oleodutos ou por navios-tanque até as refinarias, onde passa por um processo de destilação fracionada que separa seus componentes: gasolina, diesel, querosene de aviação, nafta, óleo combustível e outros derivados.
O preço do petróleo bruto no mercado internacional é determinado por dois benchmarks principais: o Brent, referência para o petróleo produzido no Mar do Norte e negociado em Londres, e o WTI (West Texas Intermediate), referência para o petróleo norte-americano. Ambos são negociados em bolsas de commodities e seus preços variam a cada segundo, influenciados por fatores como oferta e demanda, nível dos estoques globais, decisões de produção da OPEP+, condições climáticas que afetam a logística, conflitos geopolíticos e até expectativas de crescimento econômico.
A OPEP+, grupo que reúne os países da Organização dos Países Exportadores de Petróleo mais aliados como a Rússia, tem papel central nessa equação. Quando o cartel decide cortar a produção, a oferta cai e os preços sobem. Quando aumenta a produção, o efeito é o inverso. Mas em momentos de conflito real, como o que envolve o Estreito de Ormuz, nem a OPEP+ tem controle total sobre a situação: o mercado reage ao medo, e o medo tem seu próprio preço.
Esse preço formado internacionalmente, somado aos custos de refino, transporte, impostos, margens dos distribuidores e dos revendedores, compõe o valor final que o consumidor vê no painel luminoso do posto de gasolina. No Brasil, os tributos representam uma parcela significativa do preço final, o que explica por que, mesmo quando o petróleo cai lá fora, o alívio no posto nem sempre vem na mesma proporção ou na mesma velocidade.
Lucro em tempo de guerra: o histórico que se repete
O fenômeno de petroleiras registrando lucros extraordinários durante crises geopolíticas não é novidade. O que surpreende é a regularidade com que esse padrão se repete.
Em 2022, com a invasão da Ucrânia pela Rússia, o mercado de energia global foi sacudido. A Europa, que dependia fortemente do gás russo, entrou em pânico energético. Os preços do petróleo e do gás dispararam, e as grandes companhias do setor faturaram como poucas vezes na história. Segundo análise da organização Global Witness divulgada em fevereiro de 2026, as principais empresas de combustíveis fósseis acumularam quase meio trilhão de dólares em lucros nos quatro anos desde a invasão russa.
Em 2023 e 2024, com a continuidade do conflito na Ucrânia e as tensões no Oriente Médio envolvendo Israel e Hamas, os preços permaneceram elevados em relação aos padrões pré-pandemia. As empresas aproveitaram esse patamar para registrar resultados acima da média histórica.
Em 2026, o conflito entre EUA e Irã representou mais um degrau nessa escada. Uma análise conjunta da Rystad Energy e do Guardian revelou que, no primeiro mês da guerra com o Irã, as 100 maiores empresas de petróleo e gás do mundo lucraram mais de US$ 30 milhões por hora, o equivalente a US$ 8.333 por segundo. O número é ainda mais alto do que a média anual projetada pela Oxfam para as seis maiores empresas, o que sugere que o pico dos lucros ocorreu justamente nos momentos de maior tensão militar.
O padrão é claro: conflito gera incerteza, incerteza eleva preços, preços altos ampliam margens para quem já tem infraestrutura instalada e produção ativa. As petroleiras não criam a crise, mas estão estruturalmente posicionadas para se beneficiar dela.
Quem paga a conta: o consumidor no centro da tempestade
Enquanto os balanços das petroleiras brilham, a outra face da moeda é o que acontece com quem depende do combustível para trabalhar, se deslocar e aquecer a casa.
Nos Estados Unidos, o preço médio da gasolina chegou a US$ 4 por galão em meio à crise, segundo dados citados pela CNN. Para contextualizar: um galão equivale a aproximadamente 3,78 litros. Isso significa que o americano estava pagando cerca de US$ 1,06 por litro de gasolina, em um país onde o combustível historicamente era mais barato do que na maioria das economias desenvolvidas. Para famílias que já enfrentavam pressão inflacionária nos alimentos e nos custos de moradia, esse aumento no combustível funcionou como mais um peso numa balança já desequilibrada.
Na Europa, o cenário é ainda mais delicado por conta da estrutura tributária e da maior dependência de importações. Países como Alemanha, França e Itália já conviviam com litros de gasolina custando entre 1,80 e 2,20 euros antes da crise de 2026, e a alta adicional decorrente das restrições no Estreito de Ormuz aprofundou a pressão sobre as famílias de renda mais baixa.
No Brasil, o impacto se soma a um contexto de endividamento já preocupante. Análise publicada pela CNN Brasil aponta que o endividamento das famílias brasileiras atingiu quase 50% em 2026. Isso significa que metade da renda das famílias está comprometida com dívidas antes mesmo de pagar as contas básicas do mês. Num cenário assim, qualquer alta adicional no combustível, seja na gasolina do carro ou no diesel que encarece o frete e chega aos alimentos no supermercado, tem efeito cascata sobre o orçamento doméstico.
O custo do combustível não impacta apenas quem tem carro. O diesel é o motor invisível de toda a cadeia de abastecimento: é ele que move os caminhões que transportam alimentos, medicamentos, eletrodomésticos, roupas e todos os demais bens que chegam às prateleiras das lojas. Quando o diesel sobe, o frete sobe, o custo de produção sobe e, no final, o preço de tudo sobe. O trabalhador que não tem carro sente o impacto na feira, no mercado e na farmácia.
O Brasil no meio da tempestade
O Brasil ocupa uma posição peculiar nesse cenário global. Por um lado, é um dos maiores produtores de petróleo do mundo, com a Petrobras como protagonista de uma produção que nos últimos anos tem batido recordes, especialmente com a exploração do pré-sal. Por outro, é também um grande consumidor de derivados e opera num mercado em que a política de preços da estatal tem papel central na transmissão, ou não, dos choques internacionais ao consumidor final.
A política de preços da Petrobras passou por mudanças significativas nos últimos anos. A empresa abandonou o chamado PPI (Paridade de Preço Internacional), que atrelava os preços domésticos diretamente ao mercado internacional, e adotou uma política mais focada no custo de produção e nos custos para clientes brasileiros. Na prática, isso significa que o preço na refinaria não sobe e cai na mesma proporção e velocidade que o mercado internacional, o que protege o consumidor em momentos de alta, mas também reduz o repasse dos benefícios quando o petróleo cai lá fora.
Mesmo com essa política de amortecimento, o Brasil não está imune aos choques externos. O país ainda importa parcela relevante de derivados, especialmente gasolina e diesel, e os preços praticados internamente não podem se descolar indefinidamente do mercado global sem criar distorções que comprometam o abastecimento ou gerem perdas para a empresa estatal.
Para os postos de combustível, especialmente os credenciados que operam sob bandeiras de distribuidoras, a volatilidade internacional significa instabilidade no planejamento. Quando os preços nas refinarias sobem rapidamente, os postos absorvem estoque comprado a preços mais altos sem poder repassar tudo de uma vez ao consumidor, comprometendo margens já apertadas. Quando os preços caem, a concorrência força a transmissão rápida ao consumidor, mas o estoque antigo ainda foi adquirido ao preço anterior. É um jogo de timing que, em momentos de crise aguda, pode representar prejuízo real para o revendedor.
Racionamento de combustível: quando a crise vira realidade cotidiana
Nas economias mais afetadas pelas restrições no Estreito de Ormuz, o impacto não ficou limitado ao preço na bomba. Chegou ao ponto do racionamento, com governos e empresas tomando medidas de emergência para reduzir o consumo de combustível e garantir que os setores essenciais não ficassem desabastecidos.
Os países asiáticos foram os mais duramente atingidos. Japão, Coreia do Sul e Índia, que juntos respondem por uma fatia enorme do petróleo que transita pelo Estreito de Ormuz, viram seus estoques estratégicos pressionados. Alguns governos recorreram a medidas pouco comuns no tempo de paz: ordenaram que parte da população trabalhasse em home office para reduzir o consumo de combustível nos deslocamentos, e testaram semanas de trabalho de quatro dias com o mesmo objetivo.
Postos de gasolina em alguns países asiáticos passaram a racionar o abastecimento, limitando a quantidade de litros que cada veículo podia abastecer por visita. Hospitais relataram dificuldades com o abastecimento de suprimentos que dependem de transporte rodoviário. A cadeia logística de alimentos foi afetada em regiões onde a infraestrutura ferroviária ou hidroviária não existe como alternativa real ao transporte rodoviário.
Na África Subsaariana, a situação foi igualmente grave. Países que dependem de petróleo importado, sem refinarias próprias capazes de processar volumes suficientes para a demanda interna, sentiram a escassez de forma mais direta e mais rápida. O racionamento de combustível afeta de forma desproporcional a população de menor renda, que não tem condições de estocar combustível nem de arcar com os preços elevados que surgem no mercado informal quando o abastecimento oficial falha.
Esses casos concretos de racionamento e escassez revelam uma vulnerabilidade estrutural do sistema energético global: a dependência excessiva de uma única rota de transporte para uma commodity essencial. Quando essa rota é ameaçada, não há solução rápida. Novos pipelines levam anos para ser construídos. Rotas alternativas por mar são mais longas e mais caras. E a transição para fontes de energia renovável, que eliminariam essa dependência, ainda está em andamento em ritmo muito aquém do necessário.
O paradoxo climático: lucro recorde, compromisso zero
Existe uma ironia amarga no centro dessa história. As mesmas empresas que se beneficiam dos conflitos geopolíticos para registrar lucros históricos são as que, em tese, deveriam estar investindo esses recursos na transição para uma economia de baixo carbono, como parte dos compromissos assumidos publicamente nos últimos anos.
O que se vê na prática é o oposto. A BP anunciou uma redução drástica nos investimentos previstos em energia renovável e aumentou os gastos com petróleo e gás. A Shell atenuou suas metas para 2030 de redução da poluição climática, esvaziando compromissos que havia assumido com considerável alarde publicitário. A Exxon cortou os gastos previstos em energia de baixo carbono, priorizando a expansão da produção convencional.
Esse movimento de retrocesso não é acidental nem pode ser explicado apenas pela conjuntura de preços altos. Ele reflete uma decisão estratégica das grandes petroleiras de que o petróleo e o gás ainda têm décadas de rentabilidade pela frente, e que os ativos renováveis, com margens menores e horizontes de retorno mais longos, não competem com a atratividade do negócio fossil em momentos de crise global.
A diretora de políticas climáticas da Oxfam International, Mariana Paoli, colocou isso em palavras diretas: as empresas de combustíveis fósseis lucram com a instabilidade geopolítica e, consequentemente, com a desigualdade, já que essas perturbações levam a preços mais altos e lucros maiores. O modelo de negócio das petroleiras não é compatível com a estabilidade global porque é justamente na instabilidade que ele encontra sua maior rentabilidade.
Isso cria um dilema político complexo. Governos que precisam das receitas tributárias geradas pelas petroleiras têm incentivo para não tributar excessivamente os lucros extraordinários. Consumidores que precisam do combustível para funcionar no dia a dia não têm poder de boicote real de curto prazo. E os acionistas das empresas, satisfeitos com os dividendos recordes, não têm razão para pressionar por uma mudança de estratégia.
Quem está medindo esses números e por que importa
Quando a Oxfam divulga que as petroleiras vão lucrar US$ 3 mil por segundo, ou quando a Global Witness revela meio trilhão de dólares em lucros em quatro anos, ou quando a Rystad Energy calcula US$ 8.333 por segundo no primeiro mês de guerra, esses números não surgem do nada. Eles são resultado de metodologias específicas que merecem ser compreendidas.
A Oxfam International é uma confederação de organizações humanitárias presentes em mais de 90 países. Ela produz análises sobre desigualdade econômica e usa dados financeiros públicos das empresas, como relatórios trimestrais, demonstrações de resultado e projeções de analistas, para estimar os lucros anuais projetados. O cálculo de “lucro por segundo” é uma forma de comunicar o dado de maneira visceral, tornando abstrato compreensível.
A Global Witness é uma ONG britânica focada em recursos naturais, corrupção e crimes ambientais. Sua análise sobre os quatro anos de guerra na Ucrânia e os lucros das petroleiras usou demonstrações financeiras auditadas das próprias empresas.
A Rystad Energy é uma consultoria independente de energia sediada na Noruega, reconhecida pela qualidade de suas análises do mercado global de petróleo e gás. Seus dados são amplamente utilizados por governos, bancos de investimento e empresas do setor.
O fato de organizações com perfis tão diferentes, uma ONG humanitária, uma ONG ambiental e uma consultoria de mercado, chegarem a conclusões similares sobre a magnitude dos lucros das petroleiras em períodos de crise dá mais credibilidade ao quadro geral, mesmo que os números específicos variem de acordo com o escopo de cada análise.
É importante também entender o que o setor diz em sua defesa. Scott Lauermann, porta-voz do American Petroleum Institute, afirmou que as análises interpretam erroneamente os mercados de energia e ignoram os custos reais da volatilidade, incluindo interrupções na produção, transporte, refino e transações de mercado. O porta-voz ressaltou que se trata de uma indústria cíclica que requer investimento sustentado para manter o abastecimento. Essa visão é legítima e merece consideração: as petroleiras também incorrem em custos elevados, em riscos geológicos e em investimentos de longo prazo que não se amortizam rapidamente. O debate sobre o que é lucro extraordinário e o que é retorno adequado sobre capital de risco elevado é genuinamente complexo.
O ciclo que se repete: uma história de crises e preços
Para compreender o presente, vale olhar para o passado. A história do petróleo é inseparável da história dos conflitos geopolíticos, e o padrão de preços altos em momentos de tensão militar é tão antigo quanto o próprio mercado internacional de petróleo.
Em outubro de 1973, os países árabes membros da OPEP decretaram um embargo ao petróleo contra os países ocidentais que haviam apoiado Israel na Guerra do Yom Kippur. O preço do barril quadruplicou em poucos meses, e o mundo desenvolvido conheceu pela primeira vez o conceito de choque do petróleo. Filas nos postos, racionamento, velocidade máxima reduzida em rodovias americanas: o impacto foi profundo e duradouro.
Em 1990, a invasão do Kuwait pelo Iraque provocou outra rodada de alta. O mundo ficou sem 4,3 milhões de barris por dia de produção iraquiana e kuwaitiana, e os preços dispararam antes de a coalizão internacional intervir e restaurar o abastecimento.
Depois dos ataques de 11 de setembro de 2001 e, mais ainda, com a invasão do Iraque em 2003, os preços do petróleo iniciaram uma trajetória de alta que duraria anos. O barril, que valia menos de US$ 30 no início dos anos 2000, chegou a US$ 147 em julho de 2008, pouco antes do colapso financeiro global.
A pandemia de Covid-19 em 2020 inverteu temporariamente essa lógica: a demanda colapsou e os preços chegaram a território negativo por alguns dias, num evento sem precedentes históricos. Mas a recuperação foi rápida, e a invasão da Ucrânia em 2022 voltou a empurrar os preços para cima.
Cada ciclo de crise deixou sua marca na economia global. E cada ciclo demonstrou que o mercado de petróleo é estruturalmente vulnerável a eventos geopolíticos porque a oferta global está concentrada em regiões de alta instabilidade política.
O que pode mudar: tributação, regulação e o futuro da energia
Diante de lucros extraordinários obtidos em contextos de crise humanitária, a pergunta inevitável é: existe algum mecanismo para redistribuir parte desse ganho?
O debate sobre a tributação de lucros de guerra das petroleiras ganhou força na Europa após 2022. O Reino Unido implementou um imposto temporário sobre os lucros extraordinários do setor de energia, chamado de Energy Profits Levy, com alíquota de 25% sobre os ganhos acima de um determinado patamar. A União Europeia adotou medida similar em caráter emergencial para fazer frente à crise energética decorrente do conflito na Ucrânia. Os resultados foram modestos em termos de arrecadação, mas demonstraram que o instrumento é viável e politicamente possível em momentos de pressão social suficiente.
Nos Estados Unidos, o debate existiu, mas não resultou em legislação. As petroleiras americanas investiram recursos significativos em lobby para resistir a qualquer proposta de tributação adicional sobre os lucros extraordinários.
No Brasil, a discussão é diferente porque o principal player do setor é uma empresa de capital misto com controle estatal. Os lucros da Petrobras são parcialmente redistribuídos via pagamento de dividendos ao governo federal, que é acionista majoritário, e esses recursos alimentam o orçamento da União. Isso não significa que a política de preços seja automaticamente favorável ao consumidor, mas cria um mecanismo de retorno que não existe quando se fala de Exxon ou Shell.
A transição energética é, no longo prazo, a única resposta estrutural ao problema. Quanto mais a matriz energética global se diversificar, incorporando solar, eólica, hidrogênio verde e outras fontes, menor será o poder de choques geopolíticos localizados sobre a economia global. Um mundo que gera sua energia localmente, a partir de sol e vento, é um mundo muito menos vulnerável ao que acontece no Estreito de Ormuz.
Mas essa transição exige investimentos imensos e tempo. A Agência Internacional de Energia Renovável estima que seria necessário investir cerca de US$ 5 trilhões por ano até 2030 para colocar o mundo numa trajetória compatível com as metas climáticas do Acordo de Paris. Os lucros acumulados pelas grandes petroleiras nos últimos quatro anos, próximos de meio trilhão de dólares, seriam insuficientes para financiar sequer um décimo desse esforço anual.
Isso não significa que a transição seja impossível, mas revela a escala do desafio e a distância entre o que está sendo investido e o que seria necessário para mudar estruturalmente a dependência global do petróleo.
O que fica quando o barulho passa
No fim, a história das petroleiras lucrando US$ 3 mil por segundo enquanto o mundo enfrenta uma crise de custo de vida não é apenas uma história sobre empresas gananciosas ou sobre guerras distantes. É uma história sobre como o sistema energético global está estruturado, quem se beneficia dessa estrutura e quem paga o preço quando ela falha.
É uma história sobre um estreito de 33 quilômetros de largura que tem o poder de chacoalhar a economia de bilhões de pessoas. Sobre como o preço do barril formado em mercados financeiros em Londres e Nova York se transforma em dificuldade real para uma família que precisa escolher entre abastecer o carro e pagar a conta de luz.
É também uma história sobre escolhas que ainda podem ser feitas. Sobre políticas públicas de transição energética que reduzam a vulnerabilidade dos países a choques externos. Sobre mecanismos de tributação que capturem parte dos lucros extraordinários gerados em momentos de crise e os devolvam à sociedade. Sobre investimentos em fontes renováveis que reduzam, ao longo do tempo, o poder que um conflito no Oriente Médio tem sobre o dia a dia de um brasileiro em Brasília, de um japonês em Tóquio ou de um nigeriano em Lagos.
Enquanto isso não acontece, o padrão se repete. A crise chega, os preços sobem, as petroleiras faturam, e quem está na ponta mais fraca da cadeia absorve o impacto sem ter tido parte alguma na decisão que o gerou.