A polêmica em torno do fim dos carros a combustão voltou ao centro do noticiário brasileiro e europeu quase simultaneamente, reacendendo um debate que parecia adormecido desde a pandemia.
No Brasil, o Projeto de Lei do Senado (PLS) 304/2017, que propõe proibir a venda de veículos novos movidos a gasolina, diesel ou outros combustíveis fósseis a partir de 1º de janeiro de 2030 e sua circulação total em 2040, saiu do arquivo morto e ganhou velocidade. Após aprovação na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em fevereiro de 2025, o texto retornou à Comissão de Meio Ambiente (CMA) para votação final, com audiências públicas marcadas e pressão crescente para que avance ainda este ano – exatamente quando o país se prepara para sediar a COP30, em Belém.
Enquanto isso, na Europa, a Alemanha – maior potência automotiva do continente – apresentou pedido formal à Comissão Europeia para suspender ou flexibilizar a proibição de motores a combustão prevista para 2035. O chanceler Friedrich Merz, apoiado por executivos da Volkswagen, Mercedes e BMW, argumentou que a meta “não é mais realista” diante da queda nas vendas de elétricos, do aumento dos custos de energia e da concorrência chinesa. França, Itália e Reino Unido já revisam ou adiaram seus próprios cronogramas.
O contraste é evidente: países desenvolvidos, com redes de carregamento consolidadas e subsídios bilionários, recuam; o Brasil, com frota 99,3% dependente de combustão e menos de 17 mil pontos de recarga públicos, discute acelerar o banimento. O episódio expõe a distância entre metas climáticas anunciadas e a capacidade real de execução – e coloca o país no centro de uma equação global que envolve empregos, investimentos, infraestrutura e competitividade industrial.
1. Por que o assunto explodiu agora?
O debate sobre o fim dos carros a combustão não é novo – ele vem fervendo desde os Acordos de Paris em 2015, quando o mundo acordou para a urgência climática. Mas em novembro de 2025, algo mudou: o fogo se espalhou como gasolina em chamas. No Brasil, o estopim foi a reaparição do Projeto de Lei do Senado (PLS) 304/2017 no centro das discussões públicas. Apresentado pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI) em 2017, o projeto propõe proibir a venda de veículos novos a combustão a partir de 2030 e sua circulação em 2040. Após anos engavetado, ele ganhou novo fôlego em 2025, com audiências públicas marcadas na Comissão de Meio Ambiente (CMA) do Senado em abril e maio, impulsionadas por requerimentos de senadores como Leila Barros e Cid Gomes. Relatórios indicam que, em decisão terminativa, o texto foi aprovado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) em fevereiro de 2025, com emendas que suavizam exceções para veículos de coleção e diplomáticos. Agora, ele volta à CMA para votação final, reacendendo temores e esperanças.
Mas o Brasil não está sozinho nessa dança. Do outro lado do Atlântico, a Alemanha – berço da indústria automotiva europeia – pediu formalmente à União Europeia (UE) para flexibilizar a meta de banir motores a combustão em 2035. O chanceler Friedrich Merz, em declarações em setembro e novembro de 2025, defendeu a suspensão da proibição, argumentando que a transição para elétricos está “lenta demais” e ameaçando empregos em gigantes como Volkswagen e Mercedes. “Precisamos de flexibilidade para híbridos e range extenders”, disse ele em Berlim, ecoando pressões de CEOs como Oliver Blume (VW), que chamou 2035 de “meta inatingível”. Essa “rebelião alemã” ganhou aliados na França, Itália e Reino Unido, que revisam metas semelhantes, citando quedas nas vendas de elétricos e concorrência chinesa.
Aqui entra a conexão global que torna o choque ainda maior: o Brasil exporta bilhões em etanol e soja para a Europa, que usa esses insumos em biocombustíveis. Mas enquanto o Velho Continente recua – com dados mostrando queda de 58% nas vendas da Tesla na França e 49% na Dinamarca em 2025 –, o Brasil discute acelerar o banimento. É um paradoxo: países ricos, com infraestrutura avançada, pisam no freio; emergentes como nós, com frota 99% a combustão, querem pisar no acelerador. Por quê? Pressões climáticas da COP30 (em Belém, 2025) e incentivos do programa Mover (que subsidia híbridos flex) impulsionam o otimismo brasileiro. Mas o risco? Deslocar investimentos para nações mais preparadas, como México ou Índia. O debate explodiu porque revela: a transição não é linear, e o Brasil pode ser vítima ou herói dessa trama global.
2. O que diz o PLS 304/2017 (e por que causa tanta controvérsia)
Para entender a controvérsia, vamos voltar no tempo. O PLS 304/2017 nasceu em um mundo pré-pandemia, quando o aquecimento global já era urgente. Apresentado em julho de 2017 pelo senador Ciro Nogueira, o projeto institui a “Política de Substituição dos Automóveis Movidos a Combustíveis Fósseis”, alterando o Código de Trânsito Brasileiro (Lei 9.503/1997). Sua linha do tempo é um roteiro de novela: tramitou na CCJ em 2020, com aprovação em fevereiro, mas foi engavetado pela pandemia e eleições. Em 2023, requerimento de desarquivamento (nº 116) o reviveu. Em 2025, audiências em abril (REQ 19/2024-CMA) e relatórios de Cid Gomes (com emendas para exceções) o colocaram em decisão terminativa na CMA. Se aprovado, vai à Câmara dos Deputados – mas já enfrenta resistência.
Na prática, o que ele propõe? Duas proibições radicais: a partir de 1º de janeiro de 2030, zero vendas de carros novos a gasolina, diesel ou outros fósseis. Em 2040, adeus circulação – exceto para colecionáveis, oficiais e visitantes estrangeiros (até 180 dias). O foco é substituir por elétricos, híbridos ou biocombustíveis, alegando que veículos respondem por 1/6 das emissões globais de CO2. Mas por que tanta briga? Críticos dizem que ignora a realidade: frota brasileira de 50 milhões de veículos, 99% a combustão, e infraestrutura precária para elétricos.
Comparado a outros países, o PLS é ambicioso. A UE mira 2035 para zero CO2 (com brechas para sintéticos); Noruega, 2025; França e UK, 2040 (mas revisando). Índia, 2030. O Brasil seria pioneiro entre emergentes, mas sem rede de carregadores ou produção local de baterias. Opiniões divergem: ambientalistas como o Instituto Socioambiental aplaudem, citando redução de 80% em emissões urbanas. Montadoras como Anfavea (VW, GM) alertam para “choque econômico”, com risco de fechamento de fábricas. Sindicatos, como o dos Metalúrgicos de SP, temem 200 mil demissões em motores a combustão, mas veem chance em “requalificação para baterias”. Especialistas como o engenheiro ambiental José Goldemberg defendem: “É factível com etanol híbrido, nossa vantagem”. A controvérsia? Equilíbrio entre clima e empregos – e o medo de que o Brasil pague a conta sem colher os frutos.
3. O cenário global: a Europa não aguenta o próprio cronograma
Enquanto o Brasil sonha alto, a Europa – pioneira em metas verdes – está tropeçando nos próprios pés. O “caso Merz” na Alemanha é o epicentro: em setembro de 2025, o chanceler Friedrich Merz pressionou a UE por “flexibilização total” da proibição de 2035, defendendo híbridos e combustíveis sintéticos para salvar 50 mil empregos no setor automotivo (perdidos em 2024-2025, per EY). “2035 não é atingível”, ecoou Oliver Blume (VW). A França, sob Macron, revisa metas para 2040, culpando subsídios cortados e inflação. O Reino Unido adiou de 2030 para 2035, e a Itália pede “biocombustíveis inclusos”.
Dados são implacáveis: vendas de elétricos caíram em 2025. Tesla despencou 58% na França (de 5.200 para 2.200 unidades em abril) e 49% na Dinamarca (KBA). BYD cresceu 169% na Europa (7.231 unidades em abril), mas VW liderou com +61% graças a descontos. No acumulado, elétricos subiram 22% na UE (869 mil unidades no 1º semestre), mas ritmo desacelerou de 37% em 2024 para 26% em 2025 (ACEA). Por quê? Correlações claras: preços de energia subiram 20% pós-Ucrânia, subsídios cortados (Alemanha reduziu €3 bi), inflação automotiva (elétricos +15% caros) e chineses como BYD inundando com modelos 30% mais baratos. Na Alemanha, setor perdeu 51.500 vagas; na França, Renault e Stellantis enfrentam multas de €10 bi por emissões.
O ritmo de adoção de EVs? De 12,5% em 2024 para 15,6% no 1º semestre de 2025 na UE – longe dos 20% meta. Híbridos plug-in cresceram 19,5% (469 mil unidades), mostrando que a transição é híbrida, não puramente elétrica. Europa, berço do Green Deal, revela: metas rígidas colidem com economia real.
4. Por que o banimento dos carros a combustão virou um problema tão grande
Explicando simples: banir combustão soa verde, mas na prática é como trocar de casa sem mobília. Vamos descomplicar os obstáculos, um por um.
Primeiro, infraestrutura de recarga: Europa tem 330 mil pontos públicos (2025, ACEA), mas Brasil? Pouco mais de 16 mil (ABVE, setembro 2025), concentrados em SP e RJ. Na UE, 1 carregador por 10 EVs; no Brasil, 1 por 30. Recarga rápida (DC) é rara fora de capitais – imagine rodovias como BR-116 sem opções.
Segundo, preço: elétricos custam caro. No Brasil, médio R$ 150-200 mil (BYD Dolphin Mini a R$ 118 mil); na Europa, €35-45 mil (R$ 200-250 mil). Comparado à renda média (R$ 2.500/mês no BR vs €2.500 na UE), um elétrico é 5-7 anos de salário no Brasil – insustentável para classes C/D. Híbridos flex aliviam, mas ainda premium.
Terceiro, escassez de matérias-primas: lítio, cobalto, níquel. Mineração em Congo (cobalto) e Austrália (lítio) gera poluição; China domina 80% da produção de baterias. Uma bateria de 60 kWh emite 10-15 toneladas de CO2 na fabricação – mais que um carro a combustão em 10 anos.
Quarto, dependência da China: 70% das baterias globais vêm de lá, com energia de carvão (emite 1.000 g CO2/kWh vs 50 g no Brasil). Risco geopolítico: tarifas Trump em 2025 elevaram custos 20%.
Quinto, mão de obra: Europa treina 100 mil técnicos/ano para EVs; Brasil, zero programas nacionais. Sindicatos alertam: 1 milhão de mecânicos a combustão desempregados.
Sexto, tempo de recarga vs abastecimento: 5 min no posto vs 30-60 min em wallbox (220V) ou 20 min em DC (mas raro). Para 400 km, gasolina: 5 min; EV: 40 min + espera.
Sétimo, range anxiety: medo de ficar na mão. EVs médios: 300-500 km; mas no frio (-10°C), Tesla Model 3 perde 40% (de 500 para 300 km, AAA). No Brasil tropical, calor degrada baterias 20% mais rápido.
Esses problemas não são intransponíveis, mas mostram: banir sem preparar é receita para caos.
5. Brasil: o país está preparado para banir combustão?
Dados crus: não, e isso dói. Frota total: 115 milhões de veículos (Denatran, 2025), 99,3% a combustão (80% flex). Elétricos/híbridos: 0,7% (481 mil unidades, NeoCharge, junho 2025) – crescimento de 28%, mas de base baixa. Logística desigual: 70% da frota em Sudeste/Sul, mas Norte/Nordeste sem rede.
Carregadores: 16.880 públicos/semipúblicos (ABVE, set/2025), vs 110 mil na Alemanha (2025). SP tem 40%; Amazônia, 2%. Preço médio EVs: R$ 180 mil (Fenabrave), vs R$ 120 mil combustão. Dólar a R$ 5,80 encarece importados 25%. Indústria: zero cadeia de baterias nacional – dependemos de China.
Comparação Europa: Alemanha, 1,2 milhão EVs (2% frota), 110 mil carregadores (1/11 EVs). Brasil: 1/30. Europa investiu €100 bi em subsídios; Brasil, R$ 5 bi no Mover. Frota brasileira emite 200 milhões t CO2/ano; banir aceleraria, mas sem plano, vira bolha.
6. Impactos econômicos caso o projeto avance
Se o PLS virar lei, o baque é multifacetado – mas com oportunidades.
Para o consumidor: carros novos +30% caros (elétricos premium). Frota atual desvaloriza 40% em 5 anos (sem peças pós-2040). Inflação automotiva: +5-7% no IPC. Manutenção de combustão? Escassa, +20% preços.
Para a indústria: montadoras pressionadas – Anfavea estima R$ 50 bi em adaptações. Risco: fechamento de 5-10 plantas (ex: Betim-MG). Perda competitividade: exportações caem 15% sem flex. Investimentos migram: China atrai US$ 10 bi/ano.
Para o trabalho: extinção de 500 mil vagas em motores (ICCT, 2025). Mas +200 mil em baterias/técnicos – se requalificados. Desafio: 70% mão de obra baixa qualificação.
7. Comparação global: quem está realmente banindo combustão — e quem desistiu
Vamos listar didaticamente:
Países que mantêm metas rígidas:
- Noruega: 2025 – 80% EVs hoje, meta zero fósseis.
- Holanda: 2030 – subsídios altos, 25% EVs.
- Irlanda: 2030 – €5 bi em carregadores.
Países que flexibilizaram:
- Reino Unido: De 2030 para 2035, híbridos OK.
- Alemanha: Pressão por sintéticos pós-2035.
- Itália: Biocombustíveis inclusos.
Países que desistiram (por enquanto):
- Hungria: Sem data, foca carvão.
- Romênia: Adiou indefinidamente.
- Polônia: Carvão domina, resiste UE.
Países que nunca consideraram banir:
- EUA: Metas voluntárias (CAFE), Trump revoga.
- Brasil: Híbridos flex via Mover.
- México: Foco exportação combustão.
Mundo revê – não acelera.
8. Alternativas tecnológicas mais realistas
Banir combustão? Talvez híbridos sejam o meio-termo.
Híbridos (HEV/PHEV): Combinam elétrico + combustão, eficiência +50%. No Japão, Toyota vende mais híbridos que EVs há 10 anos – Prius: 25 km/l.
Híbridos flex: Vantagem BR! Etanol + elétrico: 90% menos CO2 (Stellantis). Fiat Pulse Bio-Hybrid: 18 km/l etanol.
Etanol transição: RenovaBio credita 80% redução vs gasolina.
Baterias sódio: Baratas, sem lítio – China testa 2025, autonomia 300 km.
Hidrogênio verde: Para pesados – ônibus SP testam, emissão zero (água).
Motores híbridos eficientes: Cummins HELM: diesel/etanol/hidrogênio.
Curiosidade: Toyota híbridos no Japão superam EVs em vendas há 12 anos – 1,5 milhão unidades/ano.
9. O papel estratégico do Brasil na transição energética
Brasil brilha aqui: maior matriz limpa (83% renovável, EPE 2025) entre grandes economias – hidrelétrica 60%, eólica/solar 20%. Etanol: mais sustentável que EVs em carvão (China emite 1 kg CO2/l EV vs 0,2 kg etanol BR). Podemos liderar mobilidade híbrida flex: exportar tech para biocombustíveis crescerá US$ 10 bi/ano (Embrapa). Mover subsidia R$ 19 bi até 2027 – viramos referência, não dependentes.
10. Curiosidades e comparações para deixar a matéria mais leve e didática
- CO2 na bateria: Uma de 60 kWh emite 10-15 t CO2 na produção – como 100 mil km de carro a gasolina (IEA).
- Recarga vs gasolina: EV: 30-60 min para 80%; gasolina: 3-5 min. Mas EV custa R$ 0,15/km vs R$ 0,50 etanol.
- Custo recarga Europa: Hoje €0,20/kWh (+50% vs 2020); BR: R$ 0,90/kWh estável.
- Fato curioso: Tesla Model 3 perde 40% autonomia no frio (-20°C perde 50%, AAA) – imagine inverno europeu!
11. Conclusão analítica
A transição energética é inevitável – mas não pode ser apressada. O Brasil tem vantagens únicas, como etanol e matriz limpa, mas precisa de políticas claras, prazos realistas e infraestrutura sólida. O debate de 2025 mostra que emergentes e potências europeias enfrentam os mesmos desafios: custo, infraestrutura, tecnologia e ritmo. Em vez de banir às cegas, apostemos em híbridos flex: verde, acessível e brasileiro. O futuro roda, mas devagar e com sabedoria.