O setor de combustíveis no Brasil enfrenta um dos maiores desafios de sua história recente: a sonegação fiscal, particularmente do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), que drena bilhões de reais dos cofres públicos anualmente e distorce a concorrência leal entre as empresas. Em um cenário onde o combustível é essencial para a economia, especialmente para o agronegócio e o transporte, entidades do setor, como o Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis e de Lubrificantes (Sindicom) e o Instituto Combustível Legal (ICL), têm pressionado autoridades federais e estaduais por medidas mais rigorosas. Essa pressão ganhou destaque com ações pioneiras em São Paulo, onde a Secretaria da Fazenda e Planejamento (Sefaz-SP) recuperou R$ 210 milhões em ICMS sonegado por distribuidoras consideradas devedoras contumazes. Paralelamente, a Petrobras avança em estratégias no Centro-Oeste, focando no agronegócio, para expandir vendas diretas de diesel e fortalecer a logística, promovendo um mercado mais justo e sustentável.

Essa matéria explora o contexto da sonegação, as iniciativas em São Paulo, o posicionamento do setor, as ações da Petrobras, a interligação entre esses temas, os impactos para o consumidor e dados relevantes. Com base em estimativas recentes, as perdas totais por ilegalidades no setor chegam a R$ 29 bilhões ao ano, sendo R$ 14 bilhões em fraudes tributárias. Essa realidade não só afeta a arrecadação, mas também desestimula investimentos e eleva custos para o consumidor final. Vamos aprofundar cada aspecto para entender como o combate à sonegação pode transformar o setor.
1. Contexto Inicial
O que é ICMS e por que é importante
O ICMS é um imposto estadual incidente sobre a circulação de mercadorias e serviços, incluindo combustíveis, energia elétrica, telecomunicações e transporte. Criado pela Constituição Federal de 1988, ele é o principal tributo arrecadado pelos estados, representando cerca de 20% da receita total em muitos casos. No setor de combustíveis, o ICMS é cobrado em regime de substituição tributária, onde o imposto é recolhido na origem (refinarias ou distribuidoras) e repassado ao longo da cadeia.
Para simplificar: imagine que você abastece seu carro com gasolina a R$ 5,50 por litro. Desse valor, aproximadamente 25% a 30% pode ser ICMS, dependendo do estado – em São Paulo, por exemplo, a alíquota para gasolina é de 25%, o que significa cerca de R$ 1,38 por litro indo para os cofres estaduais. Esse imposto é vital porque financia serviços públicos essenciais: saúde, educação, segurança e infraestrutura. Dos recursos arrecadados com ICMS, 25% são destinados aos municípios, e parte vai para fundos como o Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) e o Fundo de Participação dos Estados (FPE).
No preço final dos combustíveis, o ICMS pesa significativamente. Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), os tributos representam cerca de 40% do preço da gasolina, com o ICMS sendo o maior componente estadual. Em 2024, com a alíquota unificada para combustíveis fósseis definida pelo Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz), o imposto incide de forma monofásica (uma única vez na cadeia), visando reduzir volatilidade. No entanto, variações no preço do petróleo e câmbio ainda impactam o consumidor. Em 2025, o Confaz anunciou alta no ICMS para combustíveis, o que pode elevar o custo em até R$ 0,10 por litro de gasolina.
A importância do ICMS vai além da arrecadação: ele promove equilíbrio federativo, permitindo que estados mais pobres recebam repasses via fundos. Sem ele, investimentos em rodovias – cruciais para o escoamento de grãos no Centro-Oeste – seriam comprometidos. No entanto, a sonegação ameaça essa estrutura, criando desigualdades e pressionando orçamentos públicos.
Panorama da sonegação no setor de combustíveis
A sonegação de ICMS nos combustíveis é um problema crônico no Brasil, estimado em bilhões de reais anuais. Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) de 2017 apontou perdas de R$ 4,8 bilhões por ano apenas na distribuição, representando 5,7% do potencial de arrecadação de R$ 84 bilhões em 2016. Em 2019, o valor subiu para R$ 7,2 bilhões. Mais recentemente, o ICL estima R$ 14 bilhões anuais em fraudes tributárias, parte de R$ 29 bilhões totais em ilegalidades, incluindo adulteração e roubo. Em São Paulo, as perdas mensais com ICMS sobre combustíveis chegam a R$ 1 bilhão, conforme levantamento da Sefaz-SP em 2022.
Esquemas comuns incluem fraudes em notas fiscais eletrônicas (NF-e), onde empresas emitem documentos falsos para simular operações e evitar o pagamento. Empresas de fachada, ou “laranjas”, são criadas para acumular débitos e depois fechadas, transferindo o estoque para novas entidades. Adulteração de combustíveis é outra tática: misturar solventes ou etanol em proporções erradas para pagar menos imposto, já que alíquotas variam por produto. No diesel, por exemplo, fraudadores adicionam óleo vegetal para reduzir a base de cálculo.
Exemplos abundam: em 2018, a Justiça Federal decretou prisão de um empresário por sonegar R$ 566 milhões em ICMS no setor. Em 2021, a Operação Arinna, envolvendo Receita Federal e Polícia Rodoviária Federal (PRF), combateu adulteração em São Paulo e Mato Grosso. No Triângulo Mineiro, o Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (Cira) deflagrou operação contra sonegação de ICMS em 2023. Nacionalmente, o “sonegômetro” do ICL indicou R$ 11 bilhões em perdas de janeiro a outubro de 2023.
Essas fraudes não só reduzem arrecadação – impactando R$ 100 bilhões nos últimos anos, segundo o ICL – mas também afetam a qualidade do produto, danificando veículos e poluindo mais. O crime organizado, como o PCC, infiltra-se no setor, lavando dinheiro via postos clandestinos, com lucros superando o tráfico de drogas.
2. Ação Pioneira em São Paulo
O que motivou a medida
São Paulo, maior consumidor de combustíveis do país, tem sido palco de irregularidades que distorcem o mercado. A Sefaz-SP identificou distribuidoras acumulando débitos milionários via esquemas de devedores contumazes – empresas que usam a inadimplência como estratégia competitiva. Em 2025, uma ação recuperou R$ 210 milhões de duas distribuidoras do Grupo Refit, multadas por fraude no ICMS. Isso motivou-se por perdas anuais de R$ 12 bilhões com desonerações e sonegação, agravadas pela lei complementar 194/2022, que limitou alíquotas a 17-18%.
Irregularidades incluem notas frias e adulteração, impactando a concorrência: empresas honestas perdem mercado para fraudadoras que vendem mais barato. Em 2019, a Sefaz-SP deflagrou operação contra sonegação de R$ 400 milhões em 27 cidades. A motivação é restaurar equilíbrio, garantindo recursos para infraestrutura.
Mecanismos de combate à evasão fiscal
A Sefaz-SP usa fiscalizações intensas, cruzamento de dados via SPED (Sistema Público de Escrituração Digital) e rastreamento de NF-e. Tecnologias como rastreadores GPS em cargas e sistemas antifraude, como o “Sonegômetro”, monitoram transações em tempo real. Em parceria com ANP e PRF, operações como Arinna integram esforços. Leis como a 194/2022 e projetos contra devedores contumazes (PLP 164/22) fortalecem o arsenal.
Recentemente, postos receberam cobranças de ICMS sonegado por distribuidoras, promovendo responsabilidade solidária. Integração com MPF e PF intensifica o combate ao crime organizado.
Impactos esperados
Espera-se aumento na arrecadação: em SP, R$ 210 milhões recuperados sinalizam bilhões a mais. Reduz desigualdades competitivas, estimulando investimentos. A médio prazo, preços podem estabilizar com concorrência leal, beneficiando consumidores. Nacionalmente, replicação em estados como MG e RJ pode elevar arrecadação total em R$ 10-15 bilhões anuais.
3. Papel e Posicionamento do Setor de Combustíveis
Por que o setor apoia a medida
O setor apoia porque a sonegação prejudica empresas regulares: fraudadores vendem abaixo do custo, erodindo margens e desestimulando investimentos. O Sindicom vê a ação de SP como pioneira, servindo de exemplo. O ICL, com associadas como Vibra e Raízen, defende que ilegalidades custam R$ 29 bilhões/ano, afetando inovação e sustentabilidade.
Empresas honestas arcam com custos fiscais integrais, enquanto sonegadores lucram indevidamente, reduzindo empregos e qualidade.
Histórico de reivindicações
Há anos, o setor reivindica melhor fiscalização. Em 2017, o movimento Combustível Legal reuniu entidades para combater sonegação. Apoiam reformas como monofasia no ICMS, proposta em 2021 pelo governo Bolsonaro. O IBP defende simplificação tributária para reduzir fraudes. Em 2022, o ICL apoiou leis contra devedores e roubo de combustíveis.
4. Estratégia da Petrobras no Centro-Oeste
Foco no agronegócio
O Centro-Oeste é polo consumidor de diesel, essencial para transporte e maquinário agrícola. O agro representa 70% do consumo de diesel na região, com safra recorde impulsionando demanda. A Petrobras foca nisso para “monetizar” petróleo nacional.
Diesel move colheitadeiras e caminhões, e o Centro-Oeste, com PIB crescendo 2,8% em 2025, é estratégico.
Expansão de vendas e logística
A Petrobras expande vendas diretas de diesel, inaugurando polos em Goiás para atender grandes consumidores. Investimentos em bases de distribuição e parcerias logísticas visam novas rotas. No Plano Estratégico 2025-2029, US$ 111 bilhões incluem baixo carbono e expansão.
Efeito na concorrência
Isso pressiona distribuidoras privadas, potencialmente reduzindo preços via competição. Vendas diretas evitam intermediários, beneficiando agro com estabilidade.
5. Relação entre os Dois Temas
Mercado mais justo e competitivo
Combater sonegação em SP fortalece empresas como a Petrobras, que investem em logística no Centro-Oeste. Um ambiente sem fraudes atrai investimentos, promovendo concorrência leal.
Segurança de abastecimento
Medidas antifraude garantem fornecimento estável para o agro, evitando interrupções por produtos ilegais. Isso estabiliza preços e suporta exportações.
6. Possíveis Impactos para o Consumidor
A curto prazo
Efeitos limitados nos preços, mas melhora na concorrência pode conter altas. Em 2025, alta no ICMS pode adicionar R$ 0,10/litro, mas recuperação de sonegado mitiga.
A médio/longo prazo
Arrecadação maior financia infraestrutura, reduzindo custos logísticos. Fiscalização contínua contém abusos, estabilizando mercado.
Impacto indireto no agronegócio
Custos previsíveis de diesel mantêm produção agrícola estável, afetando alimentos e exportações positivamente.
7. Dados e Referências Úteis
Estatísticas ANP: Consumo de diesel no Brasil é de 60 bilhões de litros/ano, com Centro-Oeste consumindo 15-20%, majoritariamente agro.
Sefaz-SP: Arrecadação ICMS combustíveis R$ 30 bilhões/ano, perdas R$ 12 bi em 2022.
Histórico: Operações em MG (Cira, 2023), RJ (redução alíquotas etanol). Em outros países, como EUA, IRS combate fraudes com rastreamento digital; na Europa, UE harmoniza IVA para combustíveis.
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