O estudo da StoneX e o cenário de 2025
Imagine um país onde os carros podem “escolher” entre dois combustíveis principais: um derivado do petróleo, a gasolina, e outro feito de plantas, o etanol. Esse é o Brasil, pioneiro em biocombustíveis, mas que, segundo um recente estudo da consultoria StoneX, pode ver a gasolina tomando a frente no consumo em 2025. Vamos entender isso passo a passo, de forma clara e sem complicações.
A StoneX, uma empresa global de consultoria em commodities, revisou suas projeções para o mercado de combustíveis no Brasil. De acordo com o relatório divulgado em agosto de 2025, o consumo de gasolina C (que já inclui etanol anidro misturado) deve alcançar um recorde de 46,7 bilhões de litros neste ano, representando um aumento de 5% em relação a 2024. Isso significa que, pela primeira vez em anos recentes, a gasolina deve superar o etanol hidratado (o que usamos puro nos postos) em termos de preferência e volume consumido nos veículos flex. O etanol hidratado, por sua vez, deve sofrer uma retração, com projeções apontando para uma queda no seu consumo direto.
Por que isso é relevante? O Brasil é referência mundial em matriz energética renovável, com mais de 45% da energia vindo de fontes como hidrelétricas, eólica, solar e, claro, biocombustíveis. O etanol, produzido principalmente da cana-de-açúcar, representa uma fatia importante dessa sustentabilidade. No entanto, mesmo nesse contexto, a gasolina está ganhando uma vantagem competitiva. Isso não significa que o etanol vai desaparecer – longe disso –, mas reflete mudanças no mercado que afetam preços, eficiência e políticas públicas.
Para contextualizar, a concorrência entre gasolina e etanol no Brasil é como uma balança que oscila com base em três pilares principais: preço nos postos, rendimento por litro e incentivos governamentais. Nos veículos flex, que dominam o mercado desde os anos 2000, o motorista decide o que abastecer com base no custo-benefício. A gasolina, importada ou refinada localmente, é mais densa energeticamente, rendendo mais quilômetros por litro. Já o etanol é mais barato de produzir internamente, mas seu preço varia com a safra agrícola e impostos. Incentivos como o RenovaBio, que premia a redução de emissões, favorecem o etanol, mas fatores como a alta do dólar ou problemas climáticos podem inclinar a balança para a gasolina.
Em 2025, com a economia se recuperando de oscilações globais, como a inflação pós-pandemia e instabilidades no petróleo, esse cenário aponta para um ano onde a gasolina se destaca. Mas vamos aprofundar: o que levou a essa projeção? Como chegamos aqui historicamente? E o que isso significa para o dia a dia? Continue lendo para uma análise completa e didática.
Histórico da disputa entre gasolina e etanol
Para entender por que a gasolina pode superar o etanol em 2025, precisamos voltar no tempo. A história da disputa entre esses combustíveis no Brasil é como uma novela cheia de reviravoltas, envolvendo crises globais, inovações tecnológicas e políticas visionárias. Vamos contar isso de forma leve, como se estivéssemos conversando sobre o passado do nosso carro.
Tudo começou na década de 1920, quando o Brasil já experimentava misturar etanol à gasolina para esticar o combustível importado. Mas o grande marco foi o Programa Nacional do Álcool, o Proálcool, lançado em 14 de novembro de 1975 pelo decreto 76.593. Criado em resposta à Crise do Petróleo de 1973, quando os preços do óleo dispararam devido a embargos árabes, o Proálcool incentivou a produção de etanol da cana-de-açúcar como alternativa renovável. O governo subsidiou usinas, expandiu plantações e até obrigou misturas: começou com 10% de etanol na gasolina, variando para até 25% em anos posteriores.
Na década de 1980, o Brasil se consolidou como referência global em etanol. Milhões de carros movidos só a álcool foram produzidos – lembre-se daqueles Fiat 147 ou VW Fusca “a álcool”? A produção saltou de poucos bilhões para mais de 11 bilhões de litros por ano. Economicamente, isso gerou empregos no campo, reduziu importações de petróleo e evitou emissões equivalentes a bilhões de barris de óleo. No entanto, nos anos 1990, com a queda nos preços do petróleo e problemas na oferta de etanol (devido a safras ruins), o programa enfrentou crises. Muitos motoristas ficaram sem combustível, e a confiança no etanol abalou.
A virada veio nos anos 2000 com a tecnologia flex-fuel. Lançado em 2003 pela Volkswagen com o Gol 1.6 Total Flex, esse motor permite usar gasolina, etanol ou mistura em qualquer proporção. Rapidamente, os flex dominaram: hoje, mais de 80% da frota leve é flex. Isso revitalizou o etanol, especialmente entre 2008 e 2012, quando seu preço caiu abaixo de 70% da gasolina, tornando-o mais competitivo. Em 2010, por exemplo, o consumo de etanol hidratado superou o da gasolina em alguns meses, graças a safras recordes e incentivos fiscais.
Mas nem sempre o etanol levou a melhor. Em períodos de alta no açúcar (que compete com etanol pela cana), como 2015-2016, ou crises climáticas, a gasolina ganhou espaço. A mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina subiu para 27% em 2015, ajudando o setor, mas o consumo direto de etanol variou. Em 2020, com a pandemia, ambos caíram, mas a recuperação pós-2021 favoreceu o etanol em regiões produtoras. Agora, em 2025, a StoneX aponta uma inversão: gasolina crescendo enquanto etanol hidratado retrai.
Essa disputa reflete o equilíbrio brasileiro: um país tropical, com solo fértil para cana, mas dependente de petróleo. O Proálcool não só economizou divisas – estimadas em trilhões de dólares ao longo dos anos – como posicionou o Brasil na vanguarda da bioenergia. Hoje, com 100 anos de pesquisas em etanol (desde 1925), e 50 anos do Proálcool, estamos em um momento de transição. Mas o que explica a vantagem da gasolina agora? Vamos ao próximo tópico.
Principais fatores que explicam a vantagem da gasolina em 2025
Agora que conhecemos o passado, vamos ao presente: por que a gasolina deve superar o etanol em consumo este ano? A StoneX destaca vários fatores, e vamos explicá-los de forma didática, como se estivéssemos analisando uma conta de posto de combustível. São elementos econômicos, técnicos e regulatórios que se somam para dar essa “vitória” temporária à gasolina.
Primeiro, o preço nas bombas. Em 2025, a diferença de valor entre gasolina e etanol diminuiu. Historicamente, o etanol precisa custar até 70-75% da gasolina para compensar seu menor rendimento (falaremos mais disso adiante). Mas com a estabilização do petróleo em torno de US$ 70-80 o barril e importações facilitadas, a gasolina C ficou mais acessível. Em julho de 2025, o preço médio da gasolina era R$ 5,80 por litro, enquanto o etanol hidratado estava em R$ 3,90 – uma paridade de cerca de 67%, mas variando por região. No entanto, em muitos estados, essa diferença não é suficiente para tornar o etanol atraente, especialmente com a inflação pressionando o bolso.
Segundo, o rendimento energético. Aqui está um ponto chave e fácil de entender: a gasolina tem mais “energia” por litro. Em média, um carro flex rende 30% mais quilômetros com gasolina do que com etanol. Por exemplo, se você faz 10 km/l com etanol, com gasolina pode chegar a 13 km/l. Isso porque o etanol, sendo um álcool, tem menor densidade calórica. Em 2025, com motores mais eficientes, essa vantagem se acentua, fazendo a gasolina “durar mais” no tanque.
Terceiro, a política tributária. O ICMS unificado para combustíveis, implementado em 2022 e ajustado em 2025, impactou os preços relativos. A alíquota única de 18% para gasolina e etanol reduziu distorções, mas beneficiou mais a gasolina em estados importadores, onde o etanol encarece com frete. Além disso, incentivos fiscais para exportação de açúcar (que usa a mesma cana) desviaram produção do etanol, elevando seu custo.
Quarto, a safra de cana-de-açúcar. Variações climáticas, como secas no Centro-Sul em 2024-2025, reduziram a oferta. A moagem de cana caiu 4-5% na safra 2024/25, afetando o etanol. Chuvas irregulares e pragas aumentaram custos, tornando o etanol menos competitivo. Projeções para 2025 indicam recuperação parcial, mas não suficiente para inverter a tendência.
Por fim, o aumento da mistura de etanol na gasolina de 27% para 30% (E30), vigente desde agosto de 2025. Paradoxalmente, isso consome mais etanol anidro (o misturado), reduzindo a oferta de hidratado puro. Embora ajude o setor canavieiro, mantém a vantagem da gasolina C, que se torna “mais verde” sem perder eficiência. Resultado: consumo de gasolina sobe 1,1 bilhão de litros, para 46,5-46,7 bilhões. Esses fatores se entrelaçam, criando um cenário favorável à gasolina.
Impactos econômicos e setoriais
A supremacia da gasolina em 2025 não é só uma estatística – ela mexe com setores inteiros da economia brasileira. Vamos explorar os impactos de forma clara, como se estivéssemos traçando um mapa econômico, destacando ganhadores, perdedores e ripple effects.
Para os produtores de etanol, o setor sucroenergético sente o baque. Com o consumo de etanol hidratado em retração, usinas enfrentam estoques elevados e preços pressionados. A safra 2025/26 projeta moagem de 580-590 milhões de toneladas no Centro-Sul, queda de 5% devido a clima adverso e custos altos (R$ 166/tonelada agrícola). Isso afeta 400 usinas, que empregam milhões no interior de SP, MG e GO. O setor, que fatura bilhões, pode ver redução na produção de etanol total (de cana e milho), com foco maior em açúcar exportável para compensar.
Por outro lado, a demanda por gasolina aumenta pressão sobre refinarias da Petrobras e importações. Com consumo recorde, o Brasil, que já importa 10-15% da gasolina, pode elevar isso, impactando a balança comercial. Refinarias como a de Paulínia (SP) operam no limite, e investimentos em expansão, como o Refino 2.0, ganham urgência. Economicamente, isso impulsiona o PIB do setor de óleo e gás, mas eleva riscos com volatilidade do dólar.
Na arrecadação de impostos, a gasolina tem peso relevante. Com ICMS, PIS/Cofins e CIDE, cada litro gera mais receita que o etanol (que tem isenções parciais). Em 2025, o aumento no consumo pode adicionar bilhões aos cofres públicos, ajudando estados como RJ e SP. No entanto, se o etanol cair muito, perdas no setor agrícola compensam.
Finalmente, reflexos no IPCA e inflação. Combustíveis representam 5-6% do índice de preços. Com gasolina em alta, mas etanol estável, a inflação pode subir 0,2-0,5% se o petróleo oscilar. Isso afeta o custo de vida, frete e alimentos. No geral, o setor sucroenergético alerta para “efeito dominó”, com tarifas globais (como as de 50% dos EUA) piorando o quadro. É um equilíbrio delicado entre fósseis e renováveis.
Impactos ambientais e na transição energética
Enquanto a economia sente os efeitos, o meio ambiente também entra na equação. O aumento no consumo de gasolina em 2025 pode ser um passo para trás na luta contra as mudanças climáticas. Vamos explicar isso de maneira simples, como se estivéssemos discutindo o futuro do planeta no jantar.
Primeiro, emissões de CO₂. A gasolina emite mais gases de efeito estufa que o etanol: cerca de 2,3 kg de CO₂ por litro, versus 0,7 kg para etanol de cana (considerando o ciclo completo). Com 46,7 bilhões de litros de gasolina, isso pode adicionar milhões de toneladas de CO₂ à atmosfera, agravando aquecimento global e eventos extremos como secas no Pantanal ou enchentes no RS.
Isso desafia as metas de descarbonização. O Brasil se comprometeu na COP com redução de 59-67% nas emissões até 2035 (base 2005). Biocombustíveis como etanol reduzem até 90% das emissões comparado a fósseis. Uma retração no etanol hidratado atrasa essa transição, especialmente nos transportes, que respondem por 50% das emissões energéticas.
Mas há esperanças: o RenovaBio, lançado em 2017, incentiva biocombustíveis via créditos de descarbonização (CBIOs). Em 2025, com E30 e B15 (15% biodiesel no diesel), evita-se 2 milhões de toneladas de CO₂ anuais. Políticas públicas, como o Mover (Programa de Mobilidade Verde), estimulam etanol, biodiesel e biometano. O biometano, de resíduos, pode substituir gás natural, e híbridos flex ampliam opções.
No fim, o aumento da gasolina destaca a necessidade de aceleração: mais investimentos em etanol de segunda geração (de bagaço) e eletrificação. O Brasil, com 50% de matriz renovável, pode liderar, mas precisa equilibrar economia e sustentabilidade.
E o bolso do consumidor?
Agora, o que mais interessa: como isso afeta você no posto? O consumidor flex é o juiz dessa disputa, e a decisão vem da “regra dos 70%”. Vamos descomplicar isso com exemplos práticos.
A regra é simples: divida o preço do etanol pelo da gasolina. Se o resultado for menor que 0,70 (70%), o etanol compensa, pois rende menos mas é mais barato. Por quê? Porque o etanol rende 70-75% da gasolina. Exemplo: gasolina a R$ 6,00, etanol a R$ 4,00 (67%). Abasteça etanol. Se etanol for R$ 4,50 (75%), gasolina é melhor.
Mas atenção: essa regra evoluiu. Motores flex modernos rendem mais com etanol (até 75-80% da gasolina), graças a injeção direta e maior octanagem. Teste no seu carro: encha o tanque com cada um e meça km rodados.
Diferenças regionais importam. Em SP, GO e MS, produtores de cana, etanol é vantajoso (paridade 65-68%). Em RJ ou Norte, gasolina domina por logística. Em 2025, com E30, gasolina pode cair R$ 0,13/litro, mas etanol sobe ligeiro.
Perspectiva: preços estáveis no resto do ano, mas safra fraca pode encarecer etanol. Monitore apps como o da ANP para decidir.
Projeções futuras
Olhando para frente, o que vem após 2025? As projeções indicam recuperação, mas com desafios. Vamos projetar como um futurólogo acessível.
Para a safra de cana 2025/26, espera-se moagem de 668,8 milhões de toneladas no Brasil todo, queda de 1,2%. No Centro-Sul, 590 milhões, com etanol caindo 3% para 39 bilhões de litros. Clima seco e custos altos persistem, mas investimentos em irrigação podem ajudar até 2026.
Híbridos flex (etanol + elétrico) ganham tração. Modelos como Toyota Corolla Hybrid usam etanol para carregar baterias, reduzindo emissões em 90%. Até 2030, podem representar 20% das vendas.
Retomada do etanol? Com incentivos fiscais (redução ICMS) ou melhor oferta, sim. Taxas dos EUA podem desviar açúcar para etanol local. Até 2026, consumo de combustíveis leves cresce 1,6%, com etanol recuperando.
A vantagem da gasolina em 2025, segundo a StoneX, mostra que a disputa com o etanol está longe de acabar. É um equilíbrio dinâmico entre custos, eficiência energética e políticas públicas que moldam o mercado. Enquanto a gasolina bate recordes, o etanol permanece vital para sustentabilidade.
Consumidores podem esperar preços voláteis nos próximos meses, com possíveis quedas na gasolina via E30, mas alertas para safras. O setor, por sua vez, busca inovações como biometano. No fim, o Brasil continua líder em bioenergia – basta equilibrar o jogo para um futuro mais verde.