Usinas Flex de Etanol Atraem Bilhões em Investimentos

O novo mapa do etanol brasileiro em transformação

O Brasil está vivendo uma das transformações mais relevantes da sua história recente na produção de biocombustíveis. Um novo modelo de usina, batizado de usina flex, vem atraindo bilhões de reais em investimentos e redesenhando a geografia energética do país. Diferente das usinas tradicionais, que dependem exclusivamente da cana-de-açúcar, as usinas flex têm a capacidade de produzir etanol tanto a partir da cana quanto do milho, operando de forma contínua ao longo de praticamente todo o ano.

Esse movimento não é um fenômeno isolado nem passageiro. Ele reflete uma mudança estrutural no setor sucroenergético brasileiro, impulsionada por fatores econômicos, tecnológicos e regulatórios que se combinaram nos últimos anos. De um lado, a ampliação da mistura obrigatória de etanol na gasolina, prevista pela Lei do Combustível do Futuro, aumentou a demanda projetada pelo biocombustível. De outro, o amadurecimento da tecnologia de processamento do milho, aliado à disponibilidade crescente do grão em regiões como o Centro-Oeste, criou as condições ideais para que grupos empresariais apostassem pesado nesse novo modelo produtivo.

O resultado é visível nos números. Nos últimos meses, uma sequência de anúncios bilionários colocou o setor no radar de investidores, analistas e do próprio governo federal. Empresas históricas do agronegócio, grupos de logística que nunca haviam atuado na produção de combustíveis e cooperativas de produtores rurais uniram forças para erguer ou converter usinas, todas apostando no mesmo conceito: mais flexibilidade, menos dependência sazonal e maior eficiência produtiva.

Para entender por que esse modelo se tornou tão atrativo e o que ele representa para o futuro do abastecimento no Brasil, é preciso primeiro compreender como uma usina flex funciona na prática e por que ela mudou a equação econômica da produção de etanol no país.

O que é uma usina flex e como ela funciona na prática

Uma usina flex é, em termos simples, uma planta industrial capaz de produzir etanol a partir de duas matérias-primas diferentes: a cana-de-açúcar e o milho. Essa dualidade resolve um dos maiores desafios históricos do setor sucroenergético brasileiro, que é a sazonalidade da cana.

A cana-de-açúcar tem uma safra concentrada, que no Centro-Sul do país costuma se estender de abril a novembro, com o pico de moagem geralmente entre junho e setembro. Fora desse período, boa parte da estrutura industrial das usinas tradicionais fica ociosa, já que não há matéria-prima suficiente para manter a produção em ritmo pleno. É justamente nessa lacuna, conhecida no setor como entressafra, que o modelo flex se encaixa.

Ao adaptar uma usina de cana para também processar milho, a empresa consegue manter a planta em operação durante os meses em que a cana não está disponível, direcionando os equipamentos para o processamento do cereal. Isso é possível porque grande parte da infraestrutura industrial de uma usina de cana, como caldeiras, turbinas, sistemas de fermentação e destilação, pode ser reaproveitada, com adaptações, para o processamento do milho.

Essa reutilização de estrutura já existente é o que torna o modelo flex financeiramente mais atraente do que a construção de uma planta exclusiva para milho. Segundo levantamentos do setor, o custo estimado para implantar uma usina exclusiva de etanol de milho gira em torno de dois reais e cinquenta e cinco centavos por litro de capacidade instalada, enquanto o投 investimento para transformar uma usina de cana já existente em uma unidade flex fica próximo de um real e vinte e nove centavos por litro, uma diferença expressiva que ajuda a explicar por que tantos grupos sucroenergéticos estão optando por essa rota em vez de erguer fábricas isoladas.

Além da economia direta com a construção, o modelo flex também gera ganhos operacionais relevantes. A usina passa a operar em regime praticamente contínuo ao longo do ano, o que melhora a diluição de custos fixos, otimiza o uso da mão de obra especializada e reduz períodos de ociosidade que, em usinas tradicionais, representam perda de eficiência. Some-se a isso a geração de coprodutos valiosos durante o processamento do milho, como o DDG, um resíduo rico em proteína amplamente utilizado na alimentação animal, e o óleo de milho, que também tem valor comercial. Esses coprodutos criam fontes de receita adicionais que ajudam a viabilizar economicamente o investimento.

Por que o modelo flex é mais vantajoso: menor custo e aproveitamento de estrutura

A vantagem econômica das usinas flex vai além da conta simples de capital investido por litro produzido. Ela envolve uma reestruturação inteligente da forma como o setor sucroenergético brasileiro utiliza seus ativos.

Historicamente, uma usina de cana-de-açúcar representa um investimento pesado, com equipamentos de alto valor que, fora do período de safra, permanecem parados. Ao integrar o processamento de milho, essas mesmas máquinas passam a gerar receita durante praticamente todo o calendário anual, o que melhora significativamente o retorno sobre o capital investido inicialmente na planta.

Executivos do setor têm destacado esse ponto em diferentes fóruns e eventos do agronegócio. A lógica é que, ao invés de deixar caldeiras, turbinas e sistemas de destilação ociosos por vários meses, a empresa aproveita essa capacidade instalada para processar milho, insumo que, em regiões como o Centro-Oeste brasileiro, costuma estar disponível em grande quantidade e a preços competitivos, especialmente após a colheita da segunda safra, também chamada de safrinha.

Outro fator que reforça a atratividade do modelo é a diversificação de risco. Uma usina que depende exclusivamente da cana fica mais vulnerável a oscilações climáticas, pragas ou problemas específicos daquela cultura em determinada safra. Ao trabalhar com duas matérias-primas diferentes, cultivadas em calendários distintos e muitas vezes até em regiões diferentes, a empresa reduz sua exposição a um único fator de risco agrícola, o que traz mais previsibilidade para o planejamento de produção e para a relação com o mercado.

Esse conjunto de vantagens explica por que, nos últimos meses, uma sequência de grupos empresariais de diferentes portes decidiu apostar no modelo flex, seja convertendo usinas já existentes, seja projetando novas plantas já nascidas com essa concepção híbrida.

Os grandes investimentos anunciados no setor

A lista de investimentos recentes em usinas flex e em etanol de milho no Brasil impressiona pela escala e pela diversidade dos grupos envolvidos. Um dos anúncios que mais chamou atenção foi o do Grupo Sada, tradicionalmente conhecido por sua atuação no setor de logística e transporte de veículos zero quilômetro na América Latina. A empresa decidiu investir um bilhão e cem milhões de reais em dois projetos de usinas flex, localizados em Jaíba, no norte de Minas Gerais, e em Montes Claros de Goiás, no estado de Goiás.

As duas unidades do Grupo Sada foram projetadas justamente para operar de forma contínua ao longo do ano, reduzindo a dependência da sazonalidade da cana. A usina goiana, batizada de Eber Bio, já tinha, segundo informações divulgadas pela própria empresa, cerca de um terço das obras concluídas, com previsão de início de operação ainda ao longo de 2026. Já a unidade mineira, chamada Sada Bioenergia, seguia em fase de licenciamento ambiental, com expectativa de início de operação industrial em 2027. Juntas, as duas plantas devem somar uma capacidade de produção de trezentos e sessenta milhões de litros de etanol por ano, além de gerar volumes relevantes de DDG e óleo de milho como coprodutos.

Segundo o fundador e presidente do Grupo Sada, Vittorio Medioli, o investimento amplia a presença da companhia na agroindústria, diversifica seu portfólio e reforça sua posição em um dos setores mais promissores da economia brasileira atualmente, os biocombustíveis. Para garantir o fornecimento constante de milho às novas unidades, a empresa iniciou uma série de encontros com produtores rurais em municípios estratégicos do Mato Grosso, de Goiás e da Bahia, buscando firmar parcerias sólidas de fornecimento a longo prazo.

Outro nome de peso nesse movimento é a São Martinho, dona da maior usina única de processamento de cana-de-açúcar do mundo, localizada em Quirinópolis, Goiás. A empresa optou por transformar essa unidade em uma planta flex, adotando tecnologia que permite o processamento de milho durante a entressafra da cana, aproveitando a estrutura industrial já consolidada ao longo de décadas de operação.

A FS Bioenergia também segue expandindo sua atuação no segmento, com um investimento de dois bilhões de reaisdestinado à construção de sua quarta unidade produtiva, localizada em Campo Novo do Parecis, no Mato Grosso. A nova planta terá capacidade estimada de quinhentos e quarenta milhões de litros de etanol por ano, além da geração de centenas de milhares de toneladas de DDG anualmente.

Vale destacar também o caso da Evermat, um empreendimento que nasce de forma diferente dos demais. A empresa foi criada pela união de trinta e uma famílias produtoras de milho da região de Sinop, no Mato Grosso, que decidiram investir coletivamente um bilhão de reais na construção de uma usina própria, com capacidade projetada de mais de duzentos milhões de litros de etanol por ano. O caso ilustra como o boom do etanol de milho também está gerando oportunidades de verticalização para produtores rurais, que passam a agregar valor ao grão diretamente na porteira, em vez de apenas vendê-lo como commodity.

Outros grupos de peso também aparecem nesse movimento de expansão, como a Inpasa, maior produtora de etanol de milho do Brasil, que já inaugurou a primeira unidade do tipo no Nordeste, na cidade de Balsas, no Maranhão, com investimento da ordem de dois bilhões e meio de reais. A empresa também mantém projetos em andamento no Mato Grosso e planeja sua primeira unidade em Goiás. Somando os aportes de companhias como FS, Grupo Potencial, Inpasa e São Martinho, estimativas do setor indicam mais de sete bilhões de reais direcionados à construção e ampliação de refinarias de etanol de milho apenas nos projetos mais recentes.

A expansão geográfica: novas fronteiras produtivas

Até poucos anos atrás, a produção de etanol de milho no Brasil estava concentrada quase exclusivamente no Mato Grosso, estado que reúne condições ideais de clima, solo e logística para a chamada segunda safra do cereal. Hoje, esse cenário está mudando rapidamente, e o mapa produtivo do etanol brasileiro se expande para regiões que, até pouco tempo, sequer eram cogitadas para esse tipo de investimento.

Goiás se consolidou como o segundo polo mais relevante, respondendo por uma fatia significativa da produção nacional de etanol de milho, muito puxada justamente pelo modelo flex, que permite às usinas de cana já instaladas no estado incorporar o processamento do cereal sem a necessidade de erguer uma planta inteiramente nova. O Paraná também já figura no radar, com unidades produtoras em operação e novos projetos anunciados, aproveitando a robusta produção de milho da região.

Mas talvez o dado mais expressivo dessa expansão geográfica seja o avanço rumo a estados que nunca haviam recebido esse tipo de investimento. Segundo dados da União Nacional do Etanol de Milho, a Unem, o setor já projeta a chegada de novas unidades a estados como Tocantins, Rondônia, Bahia, Piauí e Pará, regiões que fazem parte do que ficou conhecido como Matopiba, uma área de fronteira agrícola que vem se consolidando como uma das mais dinâmicas do país nos últimos anos.

Um exemplo concreto dessa nova fronteira é o projeto anunciado pela multinacional Czarnikow, em parceria com a Agrojem e a ACP, que prevê um investimento de um bilhão e cem milhões de reais na construção da primeira usina de etanol de milho do Tocantins. Iniciativas como essa mostram que o interesse por diversificar geograficamente a produção não se limita aos grandes grupos já consolidados no setor, mas também atrai novos entrantes dispostos a explorar regiões ainda pouco exploradas para esse tipo de negócio.

Esse movimento de expansão territorial também está alterando a hierarquia tradicional dos polos produtores de etanol no Brasil. Municípios como Sorriso, no Mato Grosso, já produzem mais etanol do que Ribeirão Preto, em São Paulo, historicamente considerado o principal polo canavieiro do país. O que antes era uma atividade coadjuvante em relação à produção de soja no Centro-Oeste se transformou no motor de uma nova indústria energética regional, mostrando como o etanol de milho deixou de ser um nicho para se tornar um segmento estratégico da economia brasileira.

Etanol de milho ganha protagonismo: números e projeções

Os números que sustentam esse movimento de investimentos são expressivos e ajudam a entender por que tantos grupos empresariais estão apostando pesado no segmento. De acordo com a Unem, a produção brasileira de etanol a partir do milho deve crescer trinta por cento na safra 2026 e 2027, saltando de aproximadamente nove bilhões e oitocentos milhões de litros para cerca de doze bilhões e oitocentos milhões de litros.

Outras consultorias do setor também apontam para um cenário de forte expansão. Projeções indicam que a produção nacional de etanol como um todo, somando cana e milho, deve alcançar um recorde histórico de cerca de trinta e seis bilhões e meio de litros no ciclo 2026 e 2027, representando um crescimento expressivo em relação ao período anterior. Desse total, a fatia de etanol de milho deve crescer em ritmo bem mais acelerado do que a de cana, evidenciando como essa matéria-prima está ganhando espaço dentro da matriz nacional de biocombustíveis.

Olhando para um horizonte mais longo, a Unem projeta que a produção de etanol de milho no Brasil pode alcançar quinze bilhões de litros anuais até 2032, um salto expressivo em relação aos volumes registrados atualmente. Para se ter uma ideia da velocidade dessa transformação, o etanol de milho começou a ser produzido comercialmente no Brasil apenas na safra de 2013 e 2014. Em pouco mais de uma década, ele deixou de ser tratado como um subproduto experimental e passou a ser reconhecido como um player robusto dentro do setor energético nacional, conforme já destacaram representantes da própria Unem em diferentes eventos do setor.

Atualmente, o Brasil já conta com dezenas de usinas dedicadas à produção de etanol de milho espalhadas principalmente entre Mato Grosso e Goiás, mas o número de novas unidades programadas para os próximos anos é ainda maior do que o parque industrial já existente, o que reforça a magnitude dessa onda de investimentos que está apenas começando a se materializar plenamente.

O papel da Lei do Combustível do Futuro nesse movimento

Parte importante da explicação para essa avalanche de investimentos está diretamente ligada a uma mudança regulatória recente: a Lei do Combustível do Futuro, sancionada em outubro de 2024, que estabeleceu as diretrizes para a descarbonização da matriz energética brasileira e abriu caminho legal para elevar progressivamente o percentual de etanol misturado à gasolina, podendo chegar a até trinta e cinco por cento, desde que comprovada a viabilidade técnica de cada avanço.

Esse aumento na obrigatoriedade da mistura tem impacto direto sobre a demanda projetada de etanol no país. Quanto maior o percentual de etanol exigido na composição da gasolina vendida em todo o território nacional, maior precisa ser a oferta do biocombustível disponível no mercado interno, o que, na prática, funciona como um sinal claro para o setor produtivo investir em capacidade adicional.

As decisões recentes do Conselho Nacional de Política Energética, o CNPE, responsável por regular esse percentual de mistura, também ajudam a explicar a movimentação recente dos investidores. À medida que o teor de etanol na gasolina avança, gigantes do setor como FS, Grupo Potencial, Inpasa e São Martinho já sinalizaram publicamente que os novos aportes em usinas de etanol de milho estão diretamente relacionados à necessidade de atender esse aumento programado na mistura.

É importante destacar que, mesmo com a quebra estimada em determinadas safras de cana-de-açúcar, decorrente de fatores climáticos ou de ciclo produtivo natural da cultura, o crescimento consistente do etanol de milho tem sido apontado por especialistas do setor como o principal responsável pela manutenção da mistura obrigatória nos patamares definidos pela legislação, funcionando como uma espécie de colchão de segurança para a oferta nacional do biocombustível.

O que essa expansão significa para o motorista flex

Para quem dirige um veículo flex no Brasil, essa onda de investimentos em usinas que combinam cana e milho tem implicações práticas que vão muito além dos números do setor industrial. O aumento da capacidade produtiva nacional de etanol tende a fortalecer a oferta do combustível ao longo de todo o ano, inclusive em períodos que tradicionalmente registravam maior escassez, como os meses de entressafra da cana.

Historicamente, o motorista brasileiro convive com uma sazonalidade natural nos preços do etanol, que costuma ficar mais barato durante os meses de colheita da cana, entre o meio e o final do ano, e mais caro no período de entressafra, quando a oferta diminui. Com a consolidação do modelo flex, que garante produção contínua ao longo de praticamente todo o calendário, a expectativa do setor é que essa sazonalidade se torne menos acentuada, favorecendo uma oferta mais estável e, consequentemente, preços mais equilibrados durante todo o ano.

Além disso, a diversificação geográfica da produção, com novas usinas surgindo em estados que antes não tinham nenhuma unidade produtora, também tende a reduzir custos logísticos em determinadas regiões, já que o combustível passa a ser produzido mais próximo de onde será efetivamente consumido, diminuindo a necessidade de transporte de longas distâncias entre polos produtores tradicionais e mercados consumidores mais distantes.

Esse cenário de maior oferta e maior competitividade entre diferentes fontes produtivas também tende a beneficiar diretamente quem depende do etanol no dia a dia, seja para o abastecimento particular, seja para frotas comerciais que utilizam veículos flex. Quanto mais robusta e diversificada for a matriz produtiva do etanol no Brasil, maior tende a ser a competição entre fornecedores, o que historicamente se traduz em condições mais favoráveis para o consumidor final na bomba.

Mais oferta, mais competitividade e a economia real no dia a dia

O avanço das usinas flex e a multiplicação dos investimentos bilionários no etanol de milho representam um dos capítulos mais importantes da história recente do setor de biocombustíveis no Brasil. O país, que já era reconhecido mundialmente por sua matriz energética baseada na cana-de-açúcar, agora consolida uma segunda rota produtiva robusta, capaz de sustentar o crescimento da demanda nacional impulsionado pelo aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina.

Para o motorista de veículo flex, esse movimento se traduz, na prática, em uma tendência de maior estabilidade na oferta do combustível ao longo do ano e em um ambiente mais competitivo entre postos e distribuidoras, fator que historicamente contribui para preços mais equilibrados na bomba. É justamente nesse contexto de escolha entre etanol e gasolina, e de comparação de preços entre diferentes postos, que ferramentas digitais como o Baratão Combustíveis se tornam ainda mais relevantes para o consumidor.

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